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Voluntariado nas empresas
Funcionários se unem em prol de um grande projeto: o bem ao próximo
Por Lívia Duarte • 01/07/2007

Do assistencialismo à vontade de organizar a sociedade e mudar a realidade: cada vez mais se dissemina a idéia de que cada um deve fazer sua parte e de que juntos somos mais. Na esteira desse processo crescem também os programas de voluntariado ligados a empresas, onde grupos de funcionários mobilizam-se por uma causa. Em pesquisa realizada pelo Ibope nas nove principais capitais brasileiras em 2001, 18% dos entrevistados estavam fazendo ou já tinham feito alguma ação como voluntário. De acordo com dados da pesquisa, os entrevistados empregados têm um maior índice no trabalho voluntário: 21% contra 14%.

Yvy Karla Abbade, coordenadora do Núcleo de Responsabilidade Social do ISAE/FVG, lembra que o conceito de terceiro setor e o surgimento do voluntariado empresarial começou nos anos 90. "A globalização econômica crescente no final do século passado resulta na globalização das expectativas que as pessoas fora do mundo dos negócios têm a respeito da atuação das empresas nas suas comunidades", afirma a professora de Responsabilidade Social.

O clima do hospital é muito bom, mas as crianças estão tristes com a situação. De repente tudo fica animado. É só chegarem os voluntários

A partir disso, segundo ela, ganha força entre o empresariado brasileiro a idéia de que o crescimento econômico desvinculado da agenda social não se sustenta. Paralelamente, a sociedade civil está protagonizando um papel importante no enfrentamento dos problemas sociais, especialmente por meio de organizações sem fins lucrativos voltadas aos interesses públicos - terceiro setor - e por ações voluntárias. "Parece ser consenso que o atual retrato da sociedade civil brasileira acena para um futuro melhor", declara Yvy.

União faz a força

Inês Correia é funcionária da Infoglobo e participa do programa de voluntariado da empresa. "Eu já tinha sido voluntária em uma ONG anteriormente, mas é muito interessante essa iniciativa porque ela sinaliza um caminho por onde começar. Isso encoraja o voluntariado, principalmente para quem nunca participou", elogia. Inês fez parte de uma parceria da Infoglobo com a Junior Achievement - uma organização de educação prática em economia e negócios. Ela passou por treinamento e deu aulas sobre empreendedorismo em uma escola vizinha a seu trabalho: "O desenrolar foi difícil, mas o retorno das crianças foi muito positivo e carinhoso. Valeu a pena", declara.

Eliane Ferreira, responsável pela área de voluntariado na Infoglobo, disse que o foco do programa na empresa é educação e cidadania. Além da atividade de que Inês participou, são realizadas campanhas de arrecadação e parceria com a ONG Rio Voluntário, em que os funcionários participam das ações realizadas pela organização. Eliane enfatizou que participar do programa é uma opção de cada funcionário, sem nenhuma contrapartida por parte da empresa. O voluntariado é realizado fora do horário de trabalho e a Infoglobo cede espaço para a capacitação dos voluntários e material de apoio. "Uma empresa socialmente responsável tem que promover o voluntariado entre seus funcionários", justifica Eliane.

Yvy Abbade afirma que os programas criados pelas empresas trazem ganhos concretos para ela, para os funcionários e para a comunidade. "O voluntariado empresarial tem resultados fantásticos: melhora o clima organizacional, auxilia no desenvolvimento de habilidades pessoais e profissionais, promove a lealdade e a satisfação com o trabalho, ajuda a atrair e a reter funcionários qualificados". Além disso, destaca Yvy, "os programas podem contribuir para promoção da marca e melhoria a reputação dos produtos".

Antes da imagem da empresa, a comunidade

A professora de Responsabilidade Social lembra que Jeremy Rifkin, em seu livro "O fim dos empregos", anteviu, já no início da década de 90, o crescente envolvimento das pessoas com o terceiro setor, seja como alternativa profissional de fato, seja como meio de dignificar sua existência. Sobre contribuir gratuitamente para a boa imagem da empresa, Yvy acredita que os funcionários não vêem a questão por esse ângulo: "O voluntário se importa apenas em estar fazendo a diferença para o outro". Para ela, são as empresas que não devem se aproveitar dos programas para promoverem-se: "A instituição socialmente responsável é aquela que atua com ética frente aos empregados, meio ambiente, consumidores, negócios, comunidade e governos".

Eloísa Demerko é funcionária do Banco HSBC e voluntária em uma parceria do Instituto HSBC Solidariedade com o Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba. "Eu acho normal que as empresas tenham benefícios com os programas de voluntariado, que não seja uma iniciativa totalmente gratuita. No entanto, o banco me proporcionou uma coisa que sempre quis fazer e fico feliz com o empenho da empresa em questões de desenvolvimento social". Eloísa participa das atividades de recreação infantil no hospital pediátrico e se diz pessoalmente realizada e encantada com o retorno das crianças e dos pais. "O clima do hospital é muito bom, mas as crianças estão tristes com a situação. De repente tudo fica animado. É só chegarem os voluntários", conta.

A responsável pelos voluntários no hospital, Rita de Cássia Lous, diz que a iniciativa das empresas faz com que o programa de voluntariado tome um corpo sólido. "O lúdico é muito importante no hospital e a mobilização das pessoas em estar com as crianças é fundamental: melhora a adaptação e baixa a ansiedade dos pais, entre outros fatores". O hospital recebe voluntários há mais de 20 anos e os números de interessados em participar, segundo Rita, vêm crescendo sempre, especialmente depois de 2001, estabelecido pela Organização das Nações Unidas como Ano do Voluntariado, em um estímulo à responsabilidade social.

Para ter um programa de voluntariado empresarial...

A iniciativa do voluntariado empresarial pode vir da diretoria, mas é muito comum que parta da mobilização dos próprios funcionários. Para elaborar o programa, deve-se levar em conta as características da empresa - a começar por seu tamanho - e o quanto ela pretende estar inserida no programa.

"O primeiro passo deve ser a promoção de reflexão sobre a missão da organização e sobre responsabilidade social empresarial", ensina Yvy Abade. Isso possibilitará a conquista de aliados. Em seguida deve-se estabelecer um comitê de trabalho para montar o programa: descobrir oportunidades e interesses de atuação e propor um plano de ação são os objetivos do comitê, que também deve descobrir experiências pré-existentes no grupo e em quê a comunidade precisa de ajuda. "É importante fazer também um exercício de planejamento e definir o papel da empresa em termos de recursos financeiros, materiais e humanos", esclarece a professora.

Chega o momento de juntar as informações e redigir o plano de ação, sem esquecer-se de reforçar as práticas de valorização dos funcionários e comunicação dentro da empresa, que são importantes para a manutenção do programa. Outra dica de Yvy é a troca de experiências e conhecimentos com outras empresas e organizações atuantes no setor.

Algumas empresas temem eventuais implicações trabalhistas por causa do incentivo à ação voluntária e por isso não implementam programas. Desde fevereiro de 1998, está em vigor a Lei nº 9.608, conhecida como Lei do Serviço Voluntário. Ela protege a empresa nesse caso, classifica o voluntariado como atividade não-remunerada, que não gera vínculo empregatício nem obrigação de natureza trabalhista, previdenciária ou afim. "A lei preconiza que esse trabalho seja exercido mediante a celebração de um termo de adesão entre o voluntário e a entidade social onde ele vai atuar, que identifica as duas partes. O termo de adesão caracteriza o trabalho voluntário a ser efetuado e é assinado pelo voluntário", finaliza Yvy Abbade.



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