• Crédito: Pacha Urbano


Vitórias femininas
Elas lutaram, sofreram preconceitos, mas chegaram lá. Com competência, carisma, dedicação e muita paixão pelo que fazem, construíram suas histórias de sucesso e hoje colhem os frutos da realização de seus sonhos.
Por Clarissa Martins • 05/01/2004

Foi preciso muita batalha para provar do que as mulheres eram capazes. O tempo passou e a luta continua, agora muito discreta e com outro perfil. Enquanto nas décadas de 70 e 80 os homens duvidaram do potencial feminino, nos anos 90 eles precisaram se adaptar e aprender com o talento delas. A realidade está aí e ninguém duvida mais disso. Não é questão de moda ou fase, o sexo 'frágil' correu atrás do que queria e está no topo. E quase todo dia a sociedade se depara com uma selfmade woman, fazendo sua parte e criando a sua história de sucesso. São mulheres que sempre acreditam nos seus sonhos, têm garra, desejo de superação, disciplina, inteligência e, acima de tudo, amam o que fazem.

Nesse país continental, cheio de diferenças sociais, poucos com muito e muitos com pouco, não é tão fácil encontrar alguém que mesmo sem berço de ouro conseguiu chegar lá. A diretora comercial da Dinsmore Associates, Soraia Barreto, veio de uma família humilde de 11 filhos, onde apenas ela conseguiu estudar. Começou sua carreira aos 17 anos como telefonista do Estaleiro Mauá, onde permaneceu por 14 anos, conjugando trabalho e estudo. "Sempre gostei de estudar e ler muito e como trabalhava apenas meio período, fiz curso de inglês e informática. A construção naval estava no auge e tinha um bom salário. Além de me profissionalizar, também ajudava minha família", conta. Soraia mudou de empresa e não de cargo, mas soube aproveitar as oportunidades. Quando a secretária do consultor de empresas Paul Dinsmore saiu para ter bebê e decidiu não voltar, ela assumiu seu cargo e essa parceria se mantém forte há 13 anos. "O Paul sempre me ensinou tudo e incentivou minha criatividade. Com uma visão empresarial inovadora, me sentia muito estimulada em aprender cada vez mais. Lia seus livros e participava intensamente dos seus negócios. Ele sempre falava assim: 'vamos pensar juntos?'", lembra Soraia.

Em 92, quando o Brasil parou economicamente com a entrada do Collor, eles precisavam de um produto novo ou iriam quebrar como muitas empresas. Paul desenterrou a idéia do outdoor training, arrumou um parceiro, e lançou a marca Teal. "Queríamos que as empresas comprassem algo que fosse bom para elas e para seus funcionários, algo que os motivasse a passar a crise. E conseguimos. Estava na criação da idéia e conhecia todo o processo em várias áreas. Teve uma época que assumi várias funções", diz. Hoje, por conhecer tão bem o produto, é a diretora comercial da área de treinamento experiencial, tem um excelente salário, vive confortavelmente e continua ajudando a família. "Viajo sempre que posso para diversos paraísos. Dessa forma, alivio as tensões da minha média de 12 horas de trabalho por dia. Sou apaixonada pelo que faço, acredito no meu produto e sinto prazer em oferecer soluções para o crescimento das pessoas", finaliza.

Falta de dinheiro não significa falta de sonhos. Eles são os responsáveis pela garra e o entusiasmo de quem tem que nadar contra a maré para poder crescer. Estudar não foi fácil para a consultora de empresas Suely Pavan, que para custear a faculdade de psicologia trabalhava o dia todo e ganhava o suficiente para comprar os livros. "Entrei no primeiro ano do crédito educativo aqui no Brasil e estudava muito nos finais de semana para compensar a falta de tempo", recorda ela, que começou sua carreira como digitadora do banco Sudameris, participou de um processo seletivo interno e foi trabalhar com treinamento. "Fui aprovada e nunca mais saí da área de RH. Sou apaixonada por trabalhar com gente, nasci para isso", exalta. Depois de passar por grandes empresas e juntar uma boa bagagem, Suely descobriu o psicodrama e passou a utilizá-lo na consultoria que abriu, como uma ferramenta de trabalho extremamente diferente, eficaz e transformadora. "Estou aprendendo muito com esta nova experiência de carreira 'solo', sem a proteção de uma estrutura empresarial. Meu foco maior é o desenvolvimento de papéis profissionais. Todo e qualquer trabalho que realizo busca devolver o poder e devolvê-lo a quem o pertence: as pessoas. Elas têm as saídas. Eu, as técnicas e a crença", explica. Segundo essa apaixonada por música, natureza e pessoas, o segredo para se conseguir o que quer é acreditar no que faz, e fazer com paixão e dedicação.

Maria Rosa de Paula nasceu numa família simples, foi criada em colégio interno e começou a trabalhar cedo para sustentar o filho. Hoje, ela é diretora de processos, tecnologia, produção e serviço de atendimento ao cliente da multinacional Listel. Começou como auxiliar de escritório na Itaú Seguradora e saiu como gerente executiva, depois de 17 anos de casa. Foi muito discriminada por ser mulher numa área tão masculina, onde muitas vezes precisou ser firme e dar respostas contundentes sobre abordagens pouco convenientes. "Precisava provar minha competência o tempo todo. Tinha apenas 23 anos quando cheguei na gerência e era a única mulher no meio de 100 homens com idade média de 40", lembra ela, que nunca teve medo de se expor ou de pedir ajuda, além de ter sempre compartilhado seu conhecimento com a equipe. "Faço tudo com o coração. Me associo às metas, valores e missões da empresa. Me proponho a fazer o melhor e me dedico a isso. Mas sei que não faço nada sozinha, estou cercada de talentos que fazem a diferença. É necessário ter esse feedback constante com a equipe, para o trabalho realmente ser produtivo", explica. Maria Rosa se considera uma selfmade woman, pois disputou lugares com pessoas muito mais preparadas academicamente e se saiu bem. E garante que um percentual grande do seu talento vem da bagagem que conquistou na sua vida pessoal. "Vivo muito bem, minha casa é deliciosa e tenho uma ótima renda. Mas sei que o mercado ainda faz diferença de salário entre homens e mulheres, principalmente em cargos de alta chefia", alerta.

O balé deu o ponta pé inicial na vida de Dulce Ramos. Depois vieram os trabalhos burocráticos de banco, que batiam de frente com a criatividade dessa capricorniana com ascendente em gêmeos. Dulce casou aos 17 anos e se separou um ano depois, já com uma filha para criar. Tantas idéias não podiam ficar de fora do meio publicitário. "Fui trabalhar em agências, abri uma loja de roupas e um pub inglês freqüentado por publicitários. Conheci muita gente, resolvi me dedicar ao meu negócio e abri a Ramblas Propaganda e Marketing", lembra ela, que é advogada criminalista, sem nunca ter exercido a profissão. Mas foi nos tempos de estágio nos presídios que surgiu a idéia de absorver a mão-de-obra carcerária. "Fui para Europa, me especializei no Terceiro Setor e conheci uma técnica semelhante ao Origami. No Brasil, contratei um engenheiro, registrei a patente e fui trabalhar com os presos do Carandiru", conta. Transformando sonho em realidade através de cartões tridimensionais, Dulce é literalmente uma mulher do ano 2000. O seu trabalho no presídio deu a ela o Prêmio Cláudia de Mulher do Ano, e à Ramblas o prêmio Strathmore e desde 1994 figuram na Graphics Gallery, em Massachussets. "Virei uma referência mundial por saber aproveitar essa população tão marginalizada. Dou palestras no Brasil inteiro, vendo produtos para a Argentina e sou líder de mercado no meu segmento. Só não ganho mais, porque faço questão de colocar no meu produto que ele é feito por presidiários e, infelizmente, muitas pessoas ainda são preconceituosas", lamenta. No projeto 'Um Sonho de Liberdade', os detentos recebem treinamento especial, ganham por unidade produzida, não ficam ociosos e têm a sua pena reduzida.

Como essas, existem milhares de mulheres no mundo fazendo suas histórias. Cheias de disposição, muita garra, profissionalismo e competência, somados à sensibilidade, intuição e feeling materno. Esses são os ingredientes do maior acontecimento do século passado, a conquista da igualdade na sociedade pelas mulheres. Não dá mais para voltar atrás e os preconceituosos que se cuidem, porque elas vão dominar o mundo.

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