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Uma questão de motivação
Está na hora de acordar e se arrumar para pegar no batente. Mas a força que te impulsiona para o lado esquerdo da cama é maior do que tudo. Calma! Isso pode não ser gripe, apenas falta de motivação.
Por Ana Luiza Silveira • 23/08/2004
Um dia o despertador toca, você acorda, olha pela janela e vê mais um dia de trabalho começando. Normalmente, você levantaria da cama numa boa, tomaria um delicioso banho e seguiria, feliz e contente, para as atividades marcadas na agenda. No entanto, você sente um baita desânimo e vários pensamentos revoltantes começam a povoar sua cabeça – "Meu trabalho é horrível! Não quero mais voltar lá! Nunca serei promovida! Não suporto mais fazer as mesmas coisas! Ninguém ouve minhas idéias!" – A vontade de puxar as cobertas até as orelhas, virar de lado e dormir novamente revela uma coisa: lá se foi, bem para longe, a sua motivação. Sem ela, que é aquela força que vem de dentro e nos dá pique para tomar a iniciativa no cotidiano, tudo perde a graça. E aí, das duas alternativas você escolhe uma: arregaçar as mangas por conta própria pra melhorar a situação ou deixar que a sua empresa faça isso por você.
Motivação compreende muitas coisas, a atitude que cada pessoa tem diante da vida, o interesse em superar obstáculos, a crença no próprio potencial e o otimismo são apenas algumas delas. Na verdade, é um desafio que se apresenta diariamente. Ainda mais quando se pensa que o lugar onde ela é mais testada é o ambiente de trabalho. Mas por que será que alguns colegas são mais motivados do que outros? A resposta, segundo a psicóloga Sonia Basem, está na maneira de enxergar as coisas. "A desmotivação no trabalho acontece, muitas vezes, não só pelo clima organizacional, mas porque as pessoas têm uma expectativa muito grande em relação ao cargo que ocupam. É preciso ter muito bem delineadas as funções que se vai assumir dentro de uma empresa, quais os desafios que se vai enfrentar, se a realidade corresponde ao que imaginamos do emprego, do ambiente. Nessa hora, informação é essencial. Se o cargo não oferece tudo aquilo que esperamos, é claro que a motivação vai embora, porque ocorre a decepção. Agora, se a falta de motivação vem do temperamento da própria pessoa, talvez trabalhos mais parados e rotineiros sejam ideais para ela", observa.
São muitos os fatores que mandam a vontade de ir trabalhar embora. O mais gritante é a falta de comunicação entre chefia e funcionários, que dá origem a situações desagradáveis, como a do empregado que tem uma boa idéia, fica com vontade de sugeri-la, mas é ignorado pelo chefe. Boas idéias podadas podem, segundo o diretor de coaching da De Bernt Consultoria, Wilson Meiler, fazer com que grandes talentos procurem outros lugares para trabalhar. "O que as pessoas mais querem na vida é ser reconhecidas, ser consideradas importantes. Esse é o principal combustível da motivação. Se a empresa não se importa com quem trabalha para ela, é claro que o funcionário vai sentir que sua presença não é necessária ali dentro. É por isso que os programas de motivação que vêm sendo feitos pelas empresa são válidos: não só para reter talentos, mas para incentivar as idéias, aumentar a produtividade, provocar um crescimento pessoal e profissional dos funcionários", avalia. Para ele, a acomodação acontece em todas as camadas da empresa. "Acho que não basta investir somente na camada mais baixa da hierarquia, mas em todos os cargos de chefia, porque as atitudes de quem comanda influenciam as dos funcionários", ressalta.
Atitude nas empresas
Uma situação que também pode afetar a produtividade no trabalho é a gravidez. Afinal de contas, o turbilhão de emoções do período, as dúvidas sobre o futuro profissional após o nascimento do nenê e o medo do parto podem minar a motivação feminina e provocar uma boa perda de ânimo. Uma das empresas que dão atenção extra às futuras mamães é a paranaense O Boticário, que desenvolveu um programa voltado especialmente para elas, o "Essência da Vida". Há quatro anos, com custos 100% cobertos pela empresa, são promovidas atividades de grupos, trocas de experiências, aulas de musicoterapia, puericultura, hidroginástica e atendimento de psicólogos, dentistas, pediatras, enfermeiros, médicos e terapeutas orientais. Os benefícios se estendem não só às funcionárias, mas esposas de funcionários e gente da comunidade também.
Mesmo empresas de pequeno porte, sem muita verba para investir em programas mais sofisticados, fazem sua parte na hora de cuidar dos funcionários. Os gerentes da fábrica de chocolates Salware, também do Paraná, descobriram que os operários sentiam falta de um diploma escolar e colocaram a mão na massa: desde junho deste ano, eles mesmos se encarregaram de assumir o quadro-negro e proporcionar a oito alunos - três homens e cinco mulheres de idade entre 20 e 30 anos - o ensino de três disciplinas do primeiro grau: matemática, geografia e história. O curso, sem custos para os funcionários, vai até outubro, quando eles fazem uma prova de avaliação, patrocinada pelo MEC. Depois dela, seguem as aulas de duas novas disciplinas: português e ciências. Ao final do curso, eles recebem um certificado de conclusão do primeiro grau. As aulas na fábrica acontecem todos os dias após o expediente e tem sido um sucesso entre os alunos. A operária Simone Santos Silva, que abandonou os estudos na quinta série para trabalhar e ajudar nos sustento da família, é uma das mais animadas. "Estou muito feliz! Tenho vontade de continuar, de fazer o segundo grau. Um dos meus sonhos é fazer faculdade de Direito, então está valendo a pena retomar os estudos", conta ela.
De acordo com o responsável pelo programa de educação dos funcionários da fábrica, João Paulo Dias Junior, o segundo grau é uma das próximas metas da empresa. "Há muitos alunos interessados em continuar estudando. Ficamos felizes, porque a educação os faz acreditar no futuro, levanta a auto-estima, e é isso o que nós buscamos", explica. Da mesma opinião é o idealizador do projeto, o gerente-geral Walcir Christen. "No dia-a-dia a gente percebe o quanto a educação formal faz falta, ainda mais para pessoas que vivem em regiões carentes", observa.
Há casos em que a motivação para uma boa idéia existe e só é preciso abrir espaço para a sua realização. Interessados em aprender inglês sem ter de sair do local de trabalho, alguns colegas do analista de sistemas William Silva – que trabalha em uma grande empresa de vendas pela Internet no Rio de Janeiro –propuseram à empresa a cessão de uma sala. Idéia aprovada, eles procuraram um professor de origem inglesa, escolheram o próprio material didático e deram início às atividades. A iniciativa foi tão bem-aceita que se formaram várias turmas, de diversos níveis. O professor, sem vínculo algum com a empresa, dá aulas duas vezes por semana, durante uma hora, para cada turma. E o custo é bem mais em conta do que uma escola de idiomas comum. "As aulas já aconteciam havia algum tempo quando tomei conhecimento delas, então, eu e mais dois colegas resolvemos participar de uma nova turma. O que me chamou a atenção nessa idéia foi não só a comodidade de estudar dentro da empresa, mas o fato de as aulas serem personalizadas, de acordo com nossas necessidades", avalia William.
Mesmo com tanta ajuda de empresas, recuperar a auto-estima profissional, turbinar a carreira e ganhar novos conhecimentos é uma atitude que tem de ser tomada por iniciativa própria. Aproveitar o que a empresa oferece é bom, mas nada compensa se não existe vontade. Se você também anda com o pique em baixa, cuidado: segundo a psicóloga Sonia Basem, quem não apanha o bonde acaba sendo engolido pela competitividade. "É muito importante manter-se atualizado. Conhecimentos novos são sempre muito bem-vindos. A pessoa cresce pessoal e profissionalmente, passa a ver o trabalho de outra perspectiva e traz novas idéias. Não há melhor resultado do que esse", finaliza. Ou seja, tudo é uma questão de automotivação.
Ana Luiza Silveira   Leia mais deste autor.
Motivação compreende muitas coisas, a atitude que cada pessoa tem diante da vida, o interesse em superar obstáculos, a crença no próprio potencial e o otimismo são apenas algumas delas. Na verdade, é um desafio que se apresenta diariamente. Ainda mais quando se pensa que o lugar onde ela é mais testada é o ambiente de trabalho. Mas por que será que alguns colegas são mais motivados do que outros? A resposta, segundo a psicóloga Sonia Basem, está na maneira de enxergar as coisas. "A desmotivação no trabalho acontece, muitas vezes, não só pelo clima organizacional, mas porque as pessoas têm uma expectativa muito grande em relação ao cargo que ocupam. É preciso ter muito bem delineadas as funções que se vai assumir dentro de uma empresa, quais os desafios que se vai enfrentar, se a realidade corresponde ao que imaginamos do emprego, do ambiente. Nessa hora, informação é essencial. Se o cargo não oferece tudo aquilo que esperamos, é claro que a motivação vai embora, porque ocorre a decepção. Agora, se a falta de motivação vem do temperamento da própria pessoa, talvez trabalhos mais parados e rotineiros sejam ideais para ela", observa.
São muitos os fatores que mandam a vontade de ir trabalhar embora. O mais gritante é a falta de comunicação entre chefia e funcionários, que dá origem a situações desagradáveis, como a do empregado que tem uma boa idéia, fica com vontade de sugeri-la, mas é ignorado pelo chefe. Boas idéias podadas podem, segundo o diretor de coaching da De Bernt Consultoria, Wilson Meiler, fazer com que grandes talentos procurem outros lugares para trabalhar. "O que as pessoas mais querem na vida é ser reconhecidas, ser consideradas importantes. Esse é o principal combustível da motivação. Se a empresa não se importa com quem trabalha para ela, é claro que o funcionário vai sentir que sua presença não é necessária ali dentro. É por isso que os programas de motivação que vêm sendo feitos pelas empresa são válidos: não só para reter talentos, mas para incentivar as idéias, aumentar a produtividade, provocar um crescimento pessoal e profissional dos funcionários", avalia. Para ele, a acomodação acontece em todas as camadas da empresa. "Acho que não basta investir somente na camada mais baixa da hierarquia, mas em todos os cargos de chefia, porque as atitudes de quem comanda influenciam as dos funcionários", ressalta.
Atitude nas empresas
Uma situação que também pode afetar a produtividade no trabalho é a gravidez. Afinal de contas, o turbilhão de emoções do período, as dúvidas sobre o futuro profissional após o nascimento do nenê e o medo do parto podem minar a motivação feminina e provocar uma boa perda de ânimo. Uma das empresas que dão atenção extra às futuras mamães é a paranaense O Boticário, que desenvolveu um programa voltado especialmente para elas, o "Essência da Vida". Há quatro anos, com custos 100% cobertos pela empresa, são promovidas atividades de grupos, trocas de experiências, aulas de musicoterapia, puericultura, hidroginástica e atendimento de psicólogos, dentistas, pediatras, enfermeiros, médicos e terapeutas orientais. Os benefícios se estendem não só às funcionárias, mas esposas de funcionários e gente da comunidade também.
Mesmo empresas de pequeno porte, sem muita verba para investir em programas mais sofisticados, fazem sua parte na hora de cuidar dos funcionários. Os gerentes da fábrica de chocolates Salware, também do Paraná, descobriram que os operários sentiam falta de um diploma escolar e colocaram a mão na massa: desde junho deste ano, eles mesmos se encarregaram de assumir o quadro-negro e proporcionar a oito alunos - três homens e cinco mulheres de idade entre 20 e 30 anos - o ensino de três disciplinas do primeiro grau: matemática, geografia e história. O curso, sem custos para os funcionários, vai até outubro, quando eles fazem uma prova de avaliação, patrocinada pelo MEC. Depois dela, seguem as aulas de duas novas disciplinas: português e ciências. Ao final do curso, eles recebem um certificado de conclusão do primeiro grau. As aulas na fábrica acontecem todos os dias após o expediente e tem sido um sucesso entre os alunos. A operária Simone Santos Silva, que abandonou os estudos na quinta série para trabalhar e ajudar nos sustento da família, é uma das mais animadas. "Estou muito feliz! Tenho vontade de continuar, de fazer o segundo grau. Um dos meus sonhos é fazer faculdade de Direito, então está valendo a pena retomar os estudos", conta ela.
De acordo com o responsável pelo programa de educação dos funcionários da fábrica, João Paulo Dias Junior, o segundo grau é uma das próximas metas da empresa. "Há muitos alunos interessados em continuar estudando. Ficamos felizes, porque a educação os faz acreditar no futuro, levanta a auto-estima, e é isso o que nós buscamos", explica. Da mesma opinião é o idealizador do projeto, o gerente-geral Walcir Christen. "No dia-a-dia a gente percebe o quanto a educação formal faz falta, ainda mais para pessoas que vivem em regiões carentes", observa.
Há casos em que a motivação para uma boa idéia existe e só é preciso abrir espaço para a sua realização. Interessados em aprender inglês sem ter de sair do local de trabalho, alguns colegas do analista de sistemas William Silva – que trabalha em uma grande empresa de vendas pela Internet no Rio de Janeiro –propuseram à empresa a cessão de uma sala. Idéia aprovada, eles procuraram um professor de origem inglesa, escolheram o próprio material didático e deram início às atividades. A iniciativa foi tão bem-aceita que se formaram várias turmas, de diversos níveis. O professor, sem vínculo algum com a empresa, dá aulas duas vezes por semana, durante uma hora, para cada turma. E o custo é bem mais em conta do que uma escola de idiomas comum. "As aulas já aconteciam havia algum tempo quando tomei conhecimento delas, então, eu e mais dois colegas resolvemos participar de uma nova turma. O que me chamou a atenção nessa idéia foi não só a comodidade de estudar dentro da empresa, mas o fato de as aulas serem personalizadas, de acordo com nossas necessidades", avalia William.
Mesmo com tanta ajuda de empresas, recuperar a auto-estima profissional, turbinar a carreira e ganhar novos conhecimentos é uma atitude que tem de ser tomada por iniciativa própria. Aproveitar o que a empresa oferece é bom, mas nada compensa se não existe vontade. Se você também anda com o pique em baixa, cuidado: segundo a psicóloga Sonia Basem, quem não apanha o bonde acaba sendo engolido pela competitividade. "É muito importante manter-se atualizado. Conhecimentos novos são sempre muito bem-vindos. A pessoa cresce pessoal e profissionalmente, passa a ver o trabalho de outra perspectiva e traz novas idéias. Não há melhor resultado do que esse", finaliza. Ou seja, tudo é uma questão de automotivação.
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