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Treinamento experencial
Tomar decisões, arquitetar estratégias, coordenar, motivar, isso sem saber se faz chuva ou sol lá fora. Para trazer ares novos aos refrigerados ambientes corporativistas, muitas empresas investem no treinamento experencial.
Por Maíra Donnici • 31/01/2005
Tomar decisões, arquitetar estratégias, cumprir metas, coordenar, motivar, delegar tarefas e realizar outras, obedecer, analisar resultados, comunicar e ainda prestar contas no final do dia - e até da madrugada, dependendo da quantidade de trabalho. Tudo isso fechada por horas a fio entre quatro paredes, sequer sabendo se chove ou faz sol, e ainda utilizando o mesmo oxigênio que outras tantas pessoas. Arf! A tensão do ambiente corporativo enlouquece qualquer um, do mais alto ao menor nível hierárquico. E para evitar um ataque de nervos, ou mesmo não comprometer o alcance das tão zeladas eficiência e eficácia, muitas organizações têm saído das dependências empresariais para desenvolverem atividades ao ar livre. Diversão? Longe disso! Trata-se de um programa conhecido como Treinamento Experencial, que se utiliza de práticas outdoor com o intuito de abordar os problemas de uma empresa, setor ou grupo, através de muita aventura, adrenalina e, claro, trabalho em equipe.
Quem vê de fora, pensa que não passa de brincadeira: membros de determinada empresa reunidos para uma sessão de esportes radicais. No entanto, a prática representa apenas o pano de fundo de um projeto estrategicamente customizado para resolver certas defasagens desse núcleo corporativo. "A área de Recursos Humanos percebe a demanda para treinamento comportamental, geralmente causada por fatores como a falta de motivação, de espírito de equipe, interdependência entre setores, integração de grupos ou por problemas de comunicação. Também se procura o Treinamento Experencial para valorizar aspectos da empresa, congratular os funcionários por resultados obtidos, estimular a pró-atividade", explica Clarissa Martins, consultora da Experencial, uma firma que, como o próprio já diz, presta serviços para diversas empresas no Rio de Janeiro. "Vai além da diversão. O conteúdo, focado em uma área e questão especifica, é tratado pelo físico, o cognitivo e o emocional, de modo a ser levado pra o dia-a-dia", resume Soraia Reis Barreto, diretora de Núcleo Gestão de Mudanças da Dinsmore Associates, precursora do Treinamento Experencial, ao criar a marca Treinamento Experencial ao ar livre (Teal), e trazê-la para o Brasil em 1992.
O que antes se tentava solucionar nas dependências corporativas, passou a ser minuciosamente adaptado para um cenário descontraído, porém, não menos efetivo. Pelo contrário: "Os profissionais de RH se conscientizaram que discutir pendências institucionais em uma sala não trazia repercussão, e buscaram abordar isso na prática", comenta Clarissa Martins. Assim sendo, a contextualização de um problema corporativo para o trabalho em equipe tornou-se a chave para o sucesso. "Ao ar livre, você trabalha as competências com atividades lúdicas e descobre em você mesma capacidades que nunca imaginou. Nós preparamos o grupo e criamos uma situação propícia para que cada participante quebre paradigmas da área convencional de aprendizado, sendo, ele próprio, o agente da sua transformação", alega Soraia Barreto.
O grande diferencial é o fato de que as atividades oferecidas não são padronizadas. Uma vez contratadas, as empresas de Treinamento Experencial partem para a etapa inicial, ainda realizada no próprio ambiente de trabalho: montam um diagnóstico a fim de mapear a atual situação dos participantes. "Primeiramente, conversamos com quem nos solicitou e com algumas pessoas que farão o treinamento, provenientes de cargos e hierarquias distintas. É uma verdadeira radiografia do grupo, que vai delinear como eles percebem uns aos outros, seus pontos cruciais, capacidades e o perfil da equipe - se são jovens, velhos, gordos, sedentários, diretores, gerentes, supervisores, atendentes", esclarece Clarissa Martins. Resumindo, um questionário com perguntas-chave em cima do dia-a-dia da empresa. "São insuficiências que precisam ser tratadas através de atividades especificas. Vivemos em um mundo cujas mudanças acontecem muito rápido e, por isso, não paramos para pensar e assimilar as informações. Com o diagnóstico e o programa, essa análise é concretizada", alega Soraia Barreto.
Relatório em mãos, essa empreitada, ainda indoor, segue para uma nova etapa, a de formatação. "A partir dos dados coletados, formatamos um evento que inclua todos os pontos levantados no diagnóstico. Escolhemos as atividades e os respectivos focos predominantes em cada uma", descreve Clarissa. Então, uma equipe de facilitadores e consultor é escalada para ficar por dentro dos temas e abordagens para cada prática. "Criamos cenários de acordo com a realidade de cada grupo e apresentamos as atividades de forma bem direcionada", explica Clarissa que, visando entrosar membros de duas organizações que se fundiram, levou executivos para uma aldeia indígena. "No Teal, por exemplo, temos uma atividade chamada simulação organizacional, com objetivos a serem alcançados sem comunicação verbal. Também dividimos a equipe e tiramos um sentido de cada grupo. Cada prática tem metas, regras e conseqüências", ilustra Soraia Barreto.
Apenas um aspecto vale para todos os programas: não existem hierarquias. Já a prática em si, não tem duração, nem abordagem comum, varia de acordo com as necessidades de cada empresa. Agora, é bom preparar o fôlego, porque a aventura vai começar! "O treinamento é realizado em grupo, testando o limite de cada um para melhorar o medo, a insegurança e, por fim, mostrar que se pode ir além. Ele é feito tanto em dois dias – um de tarefas low-rope, ou seja, no solo, seguido de um jantar ou festa de confraternização, e o segundo, na árvore, denominado mid-high –, quanto em algumas horas", define Clarissa Martins. Segundo ela, como as tarefas são predominantemente físicas e, portanto, não precisam de raciocínio, fica mais fácil trabalhar com todos os níveis hierárquicos. Mesmo assim, existem as de inteligência, colocadas estrategicamente para surpreender chefes e subordinados. "Nas de dinâmica logística, muitas vezes, o subalterno encontra uma solução antes e surpreende quem está acima dele, e a si mesmo. Existem até programas rápidos para empresas que querem lançar um conceito novo", conta Soraia Barreto.
Gerente de planejamento e negócios do Infoglobo por profissão, e escaladora por hobby, Fernanda Mourão usou o Treinamento Experencial para mostrar aos seus 35 funcionários ensinamentos que pudessem ser absorvidos no esporte e trazidos para dentro da organização. "A escalada é uma prática que envolve trabalho em equipe e superação de desafios. Quando todos estão presos a uma mesma corda, o comprometimento é maior ainda, porque a segurança do outro depende de você, assim como no trabalho", relembra Fernanda, alegando que os resultados foram extremamente positivos. "Não ficou só na palavra, o comportamento mudou a ponto de contagiar todo o setor. Eles se tornaram pró-ativos, tomaram liderança de processos e apontaram soluções, o que nos rendeu o título de equipe de excelência operacional", orgulha-se Fernanda, que pensa em adotar outro programa, dessa vez na linha de corrida de aventura. "Recentemente, assumi outra equipe em que cada um apresenta uma deficiência e competência. Como o treinamento mescla canoagem, pedal e corrida, pode ser bom para despertar a integração", comenta a gerente.
Por falar em resultados, é bom esclarecer que o Treinamento Experencial tem como próxima etapa a análise de tudo aquilo que foi trabalhado dentro e fora da organização. Soraia Barreto alega que muitas empresas adotam o programa com o objetivo de proporcionar aventura aos funcionários, quando o mais importante é a transformação dos membros e suas tarefas. "Em todo o programa, o impacto emocional é grande, pois quebra limites da própria pessoa. Após o evento, os facilitadores descrevem o que viram antes e no período do treinamento e sugerem soluções para os problemas detectados", diz Soraia.
Para impulsionar o feedback, o Treinamento Experencial ainda propõe o follow-up, um retorno de 90 dias com questionamento para que os participantes respondam como evoluíram. "Todos os facilitadores possuem bastidores para conversar e traçar um relatório final da empresa, contendo uma visão geral de todo o processo", acrescenta Clarissa Martins, que aponta a falta de comunicação como a maior lacuna no meio empresarial. "Com o avanço da tecnologia, os funcionários pararam de se aproximar, de discutir, de fazer brainstorm e, como conseqüência, de se perceber pelo grupo. Hoje em dia, não se vê a reação corporal. O empregado é um ser humano, tem medos, precisa se relacionar e trocar informações, não por e-mail, mas pessoalmente", avalia Clarissa. Corda e planilha em punho que a aventura empresarial vai começar!
Maíra Donnici   Leia mais deste autor.
Quem vê de fora, pensa que não passa de brincadeira: membros de determinada empresa reunidos para uma sessão de esportes radicais. No entanto, a prática representa apenas o pano de fundo de um projeto estrategicamente customizado para resolver certas defasagens desse núcleo corporativo. "A área de Recursos Humanos percebe a demanda para treinamento comportamental, geralmente causada por fatores como a falta de motivação, de espírito de equipe, interdependência entre setores, integração de grupos ou por problemas de comunicação. Também se procura o Treinamento Experencial para valorizar aspectos da empresa, congratular os funcionários por resultados obtidos, estimular a pró-atividade", explica Clarissa Martins, consultora da Experencial, uma firma que, como o próprio já diz, presta serviços para diversas empresas no Rio de Janeiro. "Vai além da diversão. O conteúdo, focado em uma área e questão especifica, é tratado pelo físico, o cognitivo e o emocional, de modo a ser levado pra o dia-a-dia", resume Soraia Reis Barreto, diretora de Núcleo Gestão de Mudanças da Dinsmore Associates, precursora do Treinamento Experencial, ao criar a marca Treinamento Experencial ao ar livre (Teal), e trazê-la para o Brasil em 1992.
O que antes se tentava solucionar nas dependências corporativas, passou a ser minuciosamente adaptado para um cenário descontraído, porém, não menos efetivo. Pelo contrário: "Os profissionais de RH se conscientizaram que discutir pendências institucionais em uma sala não trazia repercussão, e buscaram abordar isso na prática", comenta Clarissa Martins. Assim sendo, a contextualização de um problema corporativo para o trabalho em equipe tornou-se a chave para o sucesso. "Ao ar livre, você trabalha as competências com atividades lúdicas e descobre em você mesma capacidades que nunca imaginou. Nós preparamos o grupo e criamos uma situação propícia para que cada participante quebre paradigmas da área convencional de aprendizado, sendo, ele próprio, o agente da sua transformação", alega Soraia Barreto.
O grande diferencial é o fato de que as atividades oferecidas não são padronizadas. Uma vez contratadas, as empresas de Treinamento Experencial partem para a etapa inicial, ainda realizada no próprio ambiente de trabalho: montam um diagnóstico a fim de mapear a atual situação dos participantes. "Primeiramente, conversamos com quem nos solicitou e com algumas pessoas que farão o treinamento, provenientes de cargos e hierarquias distintas. É uma verdadeira radiografia do grupo, que vai delinear como eles percebem uns aos outros, seus pontos cruciais, capacidades e o perfil da equipe - se são jovens, velhos, gordos, sedentários, diretores, gerentes, supervisores, atendentes", esclarece Clarissa Martins. Resumindo, um questionário com perguntas-chave em cima do dia-a-dia da empresa. "São insuficiências que precisam ser tratadas através de atividades especificas. Vivemos em um mundo cujas mudanças acontecem muito rápido e, por isso, não paramos para pensar e assimilar as informações. Com o diagnóstico e o programa, essa análise é concretizada", alega Soraia Barreto.
Relatório em mãos, essa empreitada, ainda indoor, segue para uma nova etapa, a de formatação. "A partir dos dados coletados, formatamos um evento que inclua todos os pontos levantados no diagnóstico. Escolhemos as atividades e os respectivos focos predominantes em cada uma", descreve Clarissa. Então, uma equipe de facilitadores e consultor é escalada para ficar por dentro dos temas e abordagens para cada prática. "Criamos cenários de acordo com a realidade de cada grupo e apresentamos as atividades de forma bem direcionada", explica Clarissa que, visando entrosar membros de duas organizações que se fundiram, levou executivos para uma aldeia indígena. "No Teal, por exemplo, temos uma atividade chamada simulação organizacional, com objetivos a serem alcançados sem comunicação verbal. Também dividimos a equipe e tiramos um sentido de cada grupo. Cada prática tem metas, regras e conseqüências", ilustra Soraia Barreto.
Apenas um aspecto vale para todos os programas: não existem hierarquias. Já a prática em si, não tem duração, nem abordagem comum, varia de acordo com as necessidades de cada empresa. Agora, é bom preparar o fôlego, porque a aventura vai começar! "O treinamento é realizado em grupo, testando o limite de cada um para melhorar o medo, a insegurança e, por fim, mostrar que se pode ir além. Ele é feito tanto em dois dias – um de tarefas low-rope, ou seja, no solo, seguido de um jantar ou festa de confraternização, e o segundo, na árvore, denominado mid-high –, quanto em algumas horas", define Clarissa Martins. Segundo ela, como as tarefas são predominantemente físicas e, portanto, não precisam de raciocínio, fica mais fácil trabalhar com todos os níveis hierárquicos. Mesmo assim, existem as de inteligência, colocadas estrategicamente para surpreender chefes e subordinados. "Nas de dinâmica logística, muitas vezes, o subalterno encontra uma solução antes e surpreende quem está acima dele, e a si mesmo. Existem até programas rápidos para empresas que querem lançar um conceito novo", conta Soraia Barreto.
Gerente de planejamento e negócios do Infoglobo por profissão, e escaladora por hobby, Fernanda Mourão usou o Treinamento Experencial para mostrar aos seus 35 funcionários ensinamentos que pudessem ser absorvidos no esporte e trazidos para dentro da organização. "A escalada é uma prática que envolve trabalho em equipe e superação de desafios. Quando todos estão presos a uma mesma corda, o comprometimento é maior ainda, porque a segurança do outro depende de você, assim como no trabalho", relembra Fernanda, alegando que os resultados foram extremamente positivos. "Não ficou só na palavra, o comportamento mudou a ponto de contagiar todo o setor. Eles se tornaram pró-ativos, tomaram liderança de processos e apontaram soluções, o que nos rendeu o título de equipe de excelência operacional", orgulha-se Fernanda, que pensa em adotar outro programa, dessa vez na linha de corrida de aventura. "Recentemente, assumi outra equipe em que cada um apresenta uma deficiência e competência. Como o treinamento mescla canoagem, pedal e corrida, pode ser bom para despertar a integração", comenta a gerente.
Por falar em resultados, é bom esclarecer que o Treinamento Experencial tem como próxima etapa a análise de tudo aquilo que foi trabalhado dentro e fora da organização. Soraia Barreto alega que muitas empresas adotam o programa com o objetivo de proporcionar aventura aos funcionários, quando o mais importante é a transformação dos membros e suas tarefas. "Em todo o programa, o impacto emocional é grande, pois quebra limites da própria pessoa. Após o evento, os facilitadores descrevem o que viram antes e no período do treinamento e sugerem soluções para os problemas detectados", diz Soraia.
Para impulsionar o feedback, o Treinamento Experencial ainda propõe o follow-up, um retorno de 90 dias com questionamento para que os participantes respondam como evoluíram. "Todos os facilitadores possuem bastidores para conversar e traçar um relatório final da empresa, contendo uma visão geral de todo o processo", acrescenta Clarissa Martins, que aponta a falta de comunicação como a maior lacuna no meio empresarial. "Com o avanço da tecnologia, os funcionários pararam de se aproximar, de discutir, de fazer brainstorm e, como conseqüência, de se perceber pelo grupo. Hoje em dia, não se vê a reação corporal. O empregado é um ser humano, tem medos, precisa se relacionar e trocar informações, não por e-mail, mas pessoalmente", avalia Clarissa. Corda e planilha em punho que a aventura empresarial vai começar!
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