• Crédito: Pacha Urbano


Por dentro da Bolsa
Não, nada disso. Bolsa de Valores não significa um artigo de luxo. O Bolsa de Mulher entrou na Bolsa e vai contar pra vocês como funciona o complexo e fascinante mercado de ações. Ah, adiantando: não precisa ser milionário pra jogar!
Por Maíra Donnici • 01/11/2004

O que vem à sua cabeça ao ouvir a expressão Bolsa de Valores? Se você pensou em uma dessas bolsas caríssimas que nem sonha em ter, ou lembrou daquela carteira onde guarda seus pertences mais importantes, é melhor prestar atenção nessa matéria! Por outro lado, se a cena que se formou na sua cachola foi a de homens gritando feitos uns loucos enquanto seguram um telefone, você está no caminho certo! Para quem está de fora, o universo da Bolsa de Valores e seu vasto mercado de ações parecem muito mais complexos do que uma bolsa de mulher. E realmente são! Afinal, a gente se entende com a bagunça da nossa. O que você não sabe é que - diferentemente da sua – a Bolsa de Valores não é uma sociedade secreta, restrita aos grandes empresários. Pelo contrário, hoje em dia, já existem meios de incentivar uma pessoa comum a investir em ações, e ter no mercado uma opção para fazer crescer o patrimônio. Quer saber como? O Bolsa, então, abre a Bolsa e revela o que tem dentro.

Regras do jogo

Apesar de complicado, o mercado financeiro pode ser entendido como um jogo. Aliás, é assim que muita gente encara os investimentos. Dentro desse contexto, o tabuleiro seria a própria Bolsa de Valores, uma vez que nela, os recursos das companhias são negociados em forma de papéis. Funciona da seguinte maneira: quando uma empresa precisa captar dinheiro para crescer, ela pode pedir doações a bancos e financiadores, ou colocar certa parte do seu patrimônio à venda em ações, uma alternativa mais barata. Esse patrimônio se chama capital social, e abrange tudo o que se refere a ela no sentido contábil, sejam bens materiais ou abstratos, como as próprias contas a pagar e a receber. Simplificando: o que ela vale. Feito o balanço por analistas de mercado, é lançado um preço, que passa a variar de acordo com as regras do jogo – a oferta e a procura. As ações funcionam como um pedaço da empresa, e transformam compradores em sócios dela. Esses, por sua vez, são os jogadores, cujas estratégias vão variar de acordo com as condições e objetivos de cada um.

No Brasil, a Bovespa – Bolsa de Valores de São Paulo – vem sendo palco da compra e venda de ações por investidores de grande e pequeno porte, é o nosso principal tabuleiro. Cada Bolsa é formada por certa quantidade de sociedades corretoras, que são instituições financeiras responsáveis por mediar as transações entre investidores e a própria empresa dentro de um lugar conhecido como pregão. É lá que os operadores das corretoras – aqueles homens exaltados que vemos nos noticiários de economia e nos filmes – ficam recebendo ordens dos acionistas, transmitidas através do viva-voz. Quando um desses funcionários identifica um comando da matriz, ele anuncia sua intenção em comprar ou vender ações e a que preço. Ouvindo isso, outro passa essa informação para a sua corretora, e essa informa o investidor interessado. Se quem detém as ações topar, está fechado o negócio. É lógico que, como em todo o jogo, também vale barganhar! Depois, é só liquidar a operação com a transferência dos papéis para o novo dono e o pagamento ao antigo. E tudo isso dentro do tempo marcado pela ampulheta, normalmente de nove da manhã às cinco da tarde.

Objetivos

Mas por que entrar nesse jogo de risco se existem outras formas mais seguras de aplicar o dinheiro? O operador da Bovespa Guilherme Abreu explica que risco e rentabilidade andam sempre juntos. Ou seja, quanto maior a chance de perder, maior o lucro. Segundo ele, independentemente do mercado, a possibilidade de participar de uma empresa e incentivar o seu crescimento conta por si só. O operador também revela que as próprias organizações se valem de artifícios para atrair compradores. Quando as ações de uma empresa são muito negociadas, em situações de grande liquidez, essas companhias recompensam seus sócios através de dividendos (divisão dos lucros que a companhia gerou), bonificações e juros. Além disso, Guilherme coloca: "O Brasil tem uma política econômica promissora. Por ser um país em desenvolvimento, o volume de negócios é grande, o que torna um investimento bastante rentável. Isso atrai o capital externo, fazendo a economia se expandir". Sendo a economia mais desenvolvida, o capital depositado no mercado acionário fica valorizado, e quem ganha são os acionistas.

Para entrar no jogo, é preciso saber se as condições da partida estão favoráveis, e definir a forma indicada para jogar. O primeiro passo é procurar uma corretora. Ela vai orientar o futuro participante em relação às aplicações. Outra função dela é apontar os melhores investimentos e também fazer as transações para quem não quer jogar sozinho. Existem três tipos de ações: as blue chips ou de primeira linha, que consistem em papéis de empresas tradicionais e de grande porte, como a Petrobrás; as de segunda, de organizações de médio e pequeno porte. Por último, as de terceira linha, também de companhias de médio e pequeno porte, mas com menos liquidez. A economista Cristiana Almeida aconselha o pequeno investidor a escolher companhias estáveis, de primeira linha. "Eu sempre recomendo alocar o capital em empresas com o potencial de crescimento em exportação. Isto é, as que possuem demanda externa. Por conta disso, quem investiu em siderurgia nos últimos tempos fez um bom negócio", diz Cristiana.

Obstáculos

Só que a estabilidade tem um preço alto: um lote de títulos blue chips é caro para quem dispõe de pouco dinheiro. Nessas condições, Cristiana aponta a possibilidade de adquirir um pacote fracionado, ou seja, comprar papéis de organizações dividindo o lote padrão. Já Guilherme Abreu considera esse empreendimento pouco rentável. "A taxa de compra e venda de ações no mercado fracionário é maior. Eu não recomendo, a menos que a pessoa esteja disposta a comprar e deixar lá por um bom tempo. Também existe a opção de obter um pedaço e ir comprando até formar um lote", revela o economista. Sendo assim, Cristiana indica os clubes de investimento ou fundos de ação, uma alternativa criada para o pequeno investidor se inserir na Bolsa de Valores e fazer render seu dinheiro, mesmo que seja pouco. "Funciona como um fundo de garantia, só que com custos mais baixos. Um pequeno investidor, quando se junta a outros, passa a ter força", define a economista. Ele pode ser criado por um grupo de pessoas que tenham os mesmos objetivos financeiros, como funcionários da mesma empresa ou mesmo uma família.

Estratégias

No mercado de ações, como em todo o jogo de estratégia, um dia se ganha e no outro, as coisas podem não ir tão bem. Deste modo, não se pode pensar em ganhar dinheiro rapidamente. Quanto a isso, Guilherme Abreu comenta: "O mercado é temperamental. Ele pode mudar de humor e se recuperar novamente. É um processo cíclico, onde se dá bem quem tira proveito disso". O economista Marcelo Penteado explica que os pequenos investidores devem procurar sempre fazer um intercâmbio de empresas e setores. "Pensar a curto prazo é arriscado. Tem muita gente que compra ações esperando enriquecer no dia seguinte, mas a economia muda lentamente", comenta. No mais, deve-se sempre procurar minimizar os riscos, e uma boa forma de fazer isso é diversificar. Tanto nas compras a varejo, quanto nos fundos ou clubes de investimento, é possível fazer uma carteira de ações, comprando títulos de diferentes empresas. Se os negócios de uma organização estiverem em baixa, não significa que os outros também vão estar. Quem nunca ouviu que não se pode depositar todos os ovos da galinha em uma mesma cesta?

Condições

Se antes, os dados do jogo eram predominantemente rolados pelos jogadores de grande porte, hoje em dia, atenta-se para importância do pequeno investidor no crescimento econômico do país. Vendo isso, a própria BOVESPA busca criar condições para a entrada de pessoas comuns, incentivando a familiarização com o mercado financeiro através de serviços de assistência aos investidores, e até mesmo visitas à Bolsa de Valores. Recentemente, foi implantado o sistema de home-broker, em que o investidor pode ele mesmo operar pela internet. Os jogadores também podem acompanhar o andamento do pregão em tempo quase real na internet, e tomar parte dos indicadores financeiros, que retratam o comportamento das ações negociadas, e notícias do setor. Alguém se habilita?

Maíra Donnici   Leia mais deste autor.





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