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Responsabilidade social e ética são cada vez mais valorizadas no setor privado, mas é no terceiro setor que esses valores mais se destacam, afinal, as organizações não têm como objetivo o lucros dos donos, mas, sim, distribuir seus ganhos às pessoas atendidas por esses grupos. O que pouca gente sabe é que o terceiro setor está cada vez mais profissional e seu crescimento aponta a possibilidade de carreiras promissoras. Ao mesmo tempo em que trabalha, você pode ajudar os que precisam e contribuir para o desenvolvimento da sociedade. E é justamente essa diferença que atrai muitas pessoas que procuram um sentido para a profissão.
De acordo com o sociólogo pesquisador da Universidade de Brasília (UNB) Antônio Flávio Testa, ainda não há uma definição sobre o que é o terceiro setor. A principal diferença, afirma, é a questão do destino dos lucros das companhias, mas o voluntariado é inerente ao caráter dessas entidades. "Os voluntários formam a base de ação do setor e muitas vezes têm papel tático, como o trabalho gratuito de artistas e socialites. No entanto, conforme crescem as organizações, aumenta a necessidade de bons executivos que possam gerir seus recursos, criar projetos, negociar e fazer tudo acontecer", afirma o pesquisador.
Ele explica que o terceiro setor ainda depende muito do dinheiro do governo ou de fundações internacionais. "O problema é que geralmente o financiamento não é de longo prazo, mas para projetos específicos. Apenas grandes instituições são capazes de gerar receita própria hoje no Brasil. Por isso, são nelas que estão as melhores possibilidades de um plano de carreira", comenta Testa.
Em países desenvolvidos, a quantidade de empregos no terceiro setor é bem maior. Na Holanda, 18,7% do pessoal em idade de trabalhar - excluindo a agricultura - estava no setor sem fins lucrativos, em 2002. No Brasil eram apenas 2,5% do total, mas a tendência de crescimento é forte. Na opinião do pesquisador da UNB, em breve, o voluntariado não bastará, mesmo para as pequenas instituições. É na esteira desse grande mercado futuro que surgem as pós-graduações e MBAs em gestão de terceiro setor e também em temas bastante específicos, como a gestão sustentável de áreas alagadas, do semi-árido ou da poluição sonora. Essa especificidade tem a ver com o caráter das pequenas ONGs que, como frisa Testa, têm grande capacidade de conhecimento específico.
Mas a simples possibilidade de inserção no mercado não é a única vantagem do terceiro setor. Muitos voluntariados exercem essa atividade porque buscam um sentido para a própria vida e isso se estende a quem quer fazer carreira na área. É o caso de Ilda Peliz, presidente da ONG Abrace - Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias, de Brasília. Ela perdeu uma filha vítima de câncer em 1995. Naquela época, trabalhava com gestão no Banco do Brasil há mais de 20 anos. "Por ter perdido minha filha, criei o propósito de ajudar outras mães com filhos em hospitais públicos. Me assustou muito a conjugação de doença e pobreza", testemunha. Ilda se aposentou no banco e gere a ONG como voluntária, mas 102 trabalhadores estão em sua folha de pagamento hoje, desde motoristas até executivos.
Há 12 anos, quando assumiu a gestão da Abrace, Ilda começou a compreender a diferença entre os setores. "As questões de planejamento e orçamento são bastante semelhantes, mas o espírito de competição não é exacerbado como no mercado e há peculiaridades também em outras áreas, como nos recursos humanos e na comunicação, importantíssima para consolidar a imagem da instituição", conta. Percebendo as particularidades, ela procurou um curso de MBA em gestão do terceiro setor que acredita ter ajudado na adaptação da saída do mercado. "De qualquer maneira, é preciso manter um olhar empresarial. Não estamos falando de caridade, mas de planejamento e visão de futuro. O empresário tem que ver esse discurso para entender o nosso profissionalismo e perceber que somos uma boa possibilidade de parceria", ensina.
De acordo com o pesquisador da UNB Antônio Flávio Testa, os salários, em geral, ainda estão abaixo do que se verifica no setor privado e a legislação brasileira ainda é muito antiga e não regulamenta bem o setor. Mas isso também está em transformação. Ilda Peliz diz que na Abrace os salários são equivalentes: "Procuro pagar o mesmo que o mercado, até porque não quero nem os maus profissionais que sobram, nem servir de trampolim para profissionais em início de carreira que vão fugir por um salário melhor quando atingirem algum nível de excelência".
A gerente de recursos humanos do Greenpeace Brasil, Úrsula Longo, acalentava o sonho de trabalhar no terceiro setor desde a universidade, quando participou de atividades de voluntariado. Na instituição há um ano, Úrsula diz que, ao contrário do que muita gente pensa, o trabalho no terceiro setor não é mais fácil: "Aqui no Greenpeace, somos cobrados como em qualquer outra organização e a equipe é superenxuta, já que a restrição orçamentária faz parte de nossa realidade. A verdadeira tradução do profissional multitarefa você vivencia aqui." A gerente diz que pessoas de vários perfis buscam vagas na ONG, desde aquelas que lutam pelo meio ambiente até as que querem simplesmente um emprego. No entanto, as restrições no que diz respeito a benefícios salariais fazem com que acreditar na causa seja um requisito imprescindível para se juntar ao time.
Apesar de ser uma ONG de maior porte, Úrsula diz que não há exatamente um plano de carreira no Greenpeace. "O que temos é transparência. As funções são bem definidas e devidamente divulgadas. A partir do momento em que o funcionário sabe o que se espera dele, cabe a ele decidir até onde chegar. Nosso atual diretor executivo do Greenpeace Internacional começou como voluntário. Ou seja, o funcionário pode chegar até onde ele quiser chegar", explica a gerente da ONG ambiental.
O perfil do profissional do terceiro setor, na opinião de Ilda Peliz, da Abrace, deve ser de menos competição e mais dedicação. Vaidade demais, na opinião dela, conta pontos negativos nessa área. Saber trabalhar em equipe, ter consciência de que o lucro de seu trabalho não vai beneficiar apenas uma pessoa ou um pequeno grupo, ter espírito solidário, comprometimento e amor à causa e, claro, muita competência, são fundamentais. Se você se encaixa, além de procurar vagas na internet e cadastrar seu currículo diretamente nos sites das instituições, pode se inscrever no Gife - Grupo de Institutos, Fundações e Empresas - que disponibiliza uma ferramenta eletrônica que possibilita a inclusão e a procura de currículos gratuitamente. O endereço eletrônico é www.gife.org.br.
Lívia Duarte   Leia mais deste autor.
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