• Crédito: Rê de Castro


O dom da palavra
Falar bem em público é um dom de poucas pessoas, certo? Errado. Depois de freqüentar aulas de oratória, qualquer um pode virar um bom palestrante, já que a platéia deixa de ser um bicho de muitas cabeças.
Por Ana Luiza Silveira • 27/09/2004

Desde os tempos da escola tem gente que começa a suar frio e até a passar mal quando descobre que vai ter de falar em público. Nessa época da vida ainda temos chance de escapar da missão, mas na vida profissional não há para onde correr. São poucos os corajosos – e talentosos – que conseguem enfrentar bravamente uma platéia silenciosa, atenta a todos os mínimos detalhes. As apresentações passam a valer não só como uma forma de marketing pessoal, mas como também da própria empresa onde se trabalha – ou seja, pode ser uma responsabilidade e tanto. É por isso que gente das mais diversas áreas busca os cursos de oratória: hoje, a arte de falar bem conta muitos pontos no currículo.

Cá entre nós, não há nada mais desagradável do que assistir a uma apresentação em que o palestrante não tem idéia do que está fazendo lá na frente. A jornalista Carla Dias sabe bem do que estamos falando. "Ano passado fui fazer um curso em uma universidade e fiquei impressionada com a desorganização. Além de haver um ventilador de parede que fazia um barulho inacreditável, a palestrante não tinha testado os equipamentos audiovisuais. Um projetor utilizado para exibir o Power Point pifava a todo instante e, quando isso acontecia, ela não sabia o que fazer. Simplesmente ficava quieta, bebendo água e sorrindo amarelo, ao invés de prosseguir com o assunto, até o troço voltar a funcionar. Foi uma decepção, ela era incapaz de falar sobre o tema sem o apoio daquele material", relembra. Esse tipo de acontecimento, além de desanimar a platéia, obviamente manda para o brejo toda a credibilidade do profissional. E nem é preciso dizer que Carla nunca mais voltou ao curso.

Mesmo os profissionais mais experientes sentem um friozinho na barriga antes de empunhar o microfone. O medo e a timidez, no entanto, podem ser eliminados aos poucos. "Todos nós apresentamos algum grau de timidez e, se não superamos esses limites, deixamos de usar plenamente o nosso potencial. O melhor caminho é reforçar a auto-estima, o autoconhecimento, de forma a transmitir segurança e naturalidade", observa o professor Reinaldo Passadori, autor do livro "Comunicação Essencial – Estratégias Eficazes para Encantar seus Ouvintes" (Editora Gente). Foi por esse motivo que a professora Helena Lopes resolveu entrar em uma escola de oratória. "Minha profissão muitas vezes exige que eu fale em público ou participe de palestras, mas eu sempre me sentia insegura, com medo de perder o fio da meada ou falar alguma coisa errada. Então fui buscar nessas aulas algumas técnicas para relaxar e domar a insegurança. Hoje não sinto dificuldade alguma, dei uma bela melhorada", afirma.

Sala de aula

Mas o que é, afinal, que se aprende em uma escola de oratória? De tudo um pouco. A lista de coisas a corrigir é extensa. Quer alguns exemplos? "Algumas pessoas falam depressa demais, outras devagar demais, outras ainda possuem problemas de dicção ou falam muito baixinho. Além disso, há as que não gesticulam, não olham nos olhos das pessoas e não causam boa impressão com seu próprio corpo, com posturas deselegantes ou prepotentes", diz o professor Reinaldo. Mas não é só eliminar defeitos, não. Aprende-se, ainda, a usar corretamente o microfone e os recursos audiovisuais, preparar discursos e palestras, lidar com imprevistos, improvisar e até mesmo saber lidar com aquelas inconvenientes perguntas cabeludas.

Ah, mas engana-se quem pensa que basta apenas saber todas as técnicas de oratória para se sair bem diante do auditório e colher os louros do sucesso. Sem carisma ou entusiasmo, prender a atenção da platéia torna-se uma tarefa bem mais complicada. "É preciso mostrar interesse pelo interlocutor, saber se colocar no lugar dele, exercitar a empatia. Ser educado, respeitoso, olhar nos olhos dele. Assim você estabelece uma relação de confiança e a pessoa registra melhor as informações que estão sendo passadas", argumenta o professor. Helena concorda. "Uma palestra em tom de conversa é bem mais agradável do que uma em tom de discurso. O ouvinte fica bem mais à vontade. Se ele gosta do resultado, com certeza vai fazer uma ótima propaganda, o que pode vir a render contatos futuros", observa a professora.

Para o professor Reinaldo Passadori, a melhor dica para quem deseja ter sucesso diante de uma platéia é acreditar em si mesmo. "Quando a pessoa aprende a confiar em seu potencial, mesmo sem experiência, ela adquire habilidades e as desenvolve. Isso pode ocorrer até mesmo depois de algum fracasso. Sentindo-se segura, ela vai aceitar mais vezes o desafio de ousar se comunicar em situações diferentes", acredita ele.

Ana Luiza Silveira   Leia mais deste autor.





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