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O boom dos concursos públicos
Falta estabilidade e emprego. A carreira pública então é uma opção
Por Crib Tanaka • 30/01/2006

O mar não anda pra peixe. A Organização Mundial do Trabalho informou que o número de desempregados atingiu o patamar recorde de 191,8 milhões de pessoas, contra 189,6 milhões em 2004. E a maior alta do índice de desemprego do ano passado foi na América Latina e Caribe, de 7,4% para 7,7%. Dados alarmantes, não? Mas, no Brasil, o ano de 2006 vai ser recorde em aberturas de vagas no setor público. Estima-se que serão mais de 13 mil novos cargos. Não deixa de ser uma esperança para muitos trabalhadores.

Trabalho estável e bom salário são os principais atrativos de quem presta concurso público. Em tempos de desemprego, nada mais atraente. Some-se a isso a abrangência democrática do setor: nele cabem profissionais de 18 a 70 anos, de ambos os sexos, de todas as regiões do país, formados em cursos universitários de qualquer área.

Nos concursos, as ocupações e salários variam de acordo com o nível de escolaridade dos candidatos. A oferta de vagas se estende pela capital, interior e litoral, sem falar dos concursos nacionais. Para cargos de nível médio, o salário gira em torno de R$ 2mil. Para os de nível superior, o valor chega a R$ 7mil. Tentador, não? "Ao contrário da iniciativa privada, em que o candidato deve atender a requisitos como faixa etária, formação em faculdades renomadas e boa aparência, no setor público a exigência é o bom desempenho nas provas", explica José Luís Baubeta, diretor de RH da Central de Concursos, empresa que atua, desde 1989, na área de cursos preparatórios.

Disputa acirrada

As áreas mais cobiçadas são a fiscal e a tributária, que garantem melhor remuneração e status profissional. Em nível nacional, outras áreas de outros setores também são procuradas, como a bancária e a de polícia. O número de inscritos nos concursos mais populares costuma assustar, mas do total de candidatos, 20 a 25% nem chegam a fazer a prova. E entre os que comparecem ao exame, apenas 8% estão realmente preparados, segundo José Luis.

Ele comenta que, hoje, o profissional na faixa etária de 40 anos é o que mais concorre aos cargos de nível superior. “Nesta idade, o profissional já tem família, esposa, filhos e busca o concurso público como garantia para o futuro. Sabe que a qualquer momento, na empresa onde está, ele pode ser a bola da vez”, diz ele, afirmando que o melhor momento para se prestar concurso é quando ainda se está empregado.

Dedicação

E quanto tempo de preparação é necessário, em média? “Varia de pessoa para pessoa. Mas, temos uma média. Para nível médio, de oito meses a um ano de estudo. Para nível superior, de um ano e meio a dois anos para se colocar no serviço público.” Para quem alega ser muito tempo, ele opina: “Parece muito, mas a gente passa quatro, cinco anos numa faculdade. O que é um ano, dois, se passamos para um emprego para a vida inteira, que vai dar qualidade de vida superior e estabilidade?”, argumenta.

O importante é não desanimar - em média, são três tentativas até passar. Conhecimento é fator essencial. Tem que estudar até conseguir. Jose Luís comenta que os desempregados chegam nos cursos desanimados, sem esperanças, mas devem se valer das 24h que têm para estudar. “Leva vantagem quem estuda mais”, afirma ele.

Por que prestar concurso?

Seja de que área o profissional for, a estabilidade é o que impulsiona a procura pelo emprego no setor público. A publicitária e designer Luciana Pacheco, de 28 anos, é gerente de contas de uma produtora web. Mesmo estando empregada, desde o ano passado, vem prestando concurso público. “Até o final de 2004 nem passava pela minha cabeça fazer concurso público. Associava a empregos burocráticos, feitos para pessoas acomodadas. No entanto, comecei a perceber a crise em que o mercado de trabalho estava passando. A empresa na qual trabalhava em regime de CLT me demitiu para me recontratar como prestadora de serviços. Fui obrigada a abrir uma empresa e perdi vários benefícios. A escassez de bons empregos e de bons salários aliados à constante falta de estabilidade me levaram a pensar em um cargo público. Comecei então a ficar atenta aos novos concursos que estavam aparecendo e percebi que não se tratava apenas de empregos burocráticos; que poderia encontrar em órgãos públicos bons cargos, bons salários e a estabilidade que o mercado privado não tem mais”, comenta ela.

Luciana cita como atrativos, além da estabilidade e dos salários, o respeito pelas leis e carga horária: “No mercado privado, os empregados estão trabalhando muito mais do que as 8h diárias sem ter direito a ganhos por horas extras. Fora que penso em ter filhos um dia e, ocupando um cargo público, estou certa de que terei todos os direitos de cumprir minha licença-maternidade, tempo para curtir meus filhos, o que não aconteceria no meu caso atual, por exemplo!” Como desvantagens, ela enumera: “A burocracia dos órgão públicos, a rigidez de horário e a morosidade na execução dos projetos”.

O jornalista e publicitário Leandro Liz, 26 anos, trabalha como redator há seis anos e soma passagens em agências de publicidade, jornal, TV, websites e agências de internet. Ele prestou três concursos até então e está otimista: além de ter seu nome no cadastro de reserva de vagas de um, enquanto aguarda a continuidade do processo seletivo de outro. “Optei pelo concurso, por causa da escassez de trabalho e dos baixos salários pagos para quem está em início de carreira na área de jornalismo e publicidade. E os empregos públicos são estáveis, você não pode ser demitido de uma hora para a outra, o que acontece muito em empresas da área de comunicação. A maioria dos salários pagos em cargos públicos também estão muito acima da média daqueles pagos na iniciativa privada, principalmente nos primeiros anos de carreira”, afirma ele.

O que diz quem está no mercado há mais tempo?

A advogada Eugenia Rodrigues, 31 anos, ingressou no Ministério Público Federal aos 19. Assim que se formou, passou a ocupar o cargo de técnica processual. Ela lembra que antigamente o salário, quando tomou posse, não era tão atraente, o que mudou com o tempo. Eugenia optou por seguir carreira devido à estabilidade, ao salário razoável e à dignidade e respeito pelo profissional. “Raramente faço serão e se você ficar doente e tiver atestado, não ouvirá piadinhas, como acontece no setor privado”, diz ela.

A professora Luise Campos também ingressou cedo no setor público, quando cursava a faculdade de Letras. Ela conta: “Trabalhei durante cinco anos na Justiça Federal como Técnica Judiciária.  O trabalho era mecânico, rotineiro e muitas vezes me sentia infeliz nele.  Por outro lado, meu objetivo estava alcançado, uma vez que não tive problemas financeiros e tinha certa flexibilidade de horários para fazer estágios e assistir a palestras durante a graduação.” Quando Luise se formou, passou a trabalhar em sua área, como professora (da iniciativa privada), conciliando os dois empregos. “Cada vez mais me sentia angustiada fazendo um trabalho que não me realizava, mas não pretendia deixá-lo até que tivesse boas condições para tal – preferentemente sendo aprovada em outro concurso público, desta vez para exercer minha profissão. E foi o que aconteceu. Desde o ano passado, sou professora do Colégio Pedro II, no Rio”, conta ela.

Plano de carreira

José Luis Baubeta comenta: “As pessoas têm, dentro de cada repartição, um treinamento de aptidões técnicas e depois têm uma carreira de crescimento profissional. Por exemplo, para ocupar um cargo de gestor na repartição pública, basicamente terá que possuir a mesma postura, o mesmo comportamento que você tem no dia-a-dia no cargo de gestor da iniciativa privada. Faz parte tomar decisões rápidas, trabalhar sob pressão, ter bom relacionamento interpessoal, atrair investimentos para o órgão ao qual você pertence”, avalia José Luis. Dessa forma, o diretor de Rh afirma que a pessoa terá um plano de carreira. Não somente de carreira, como de valorização salarial. “O concurso público não resolve a curto prazo o problema do desemprego ou da falta de perspectiva no mercado convencional. É um investimento de médio a longo prazo, geralmente as pessoas demoram entre dez meses e um ano para conseguir uma recolocação na carreira pública”, informa José Luis.

Concursos com inscrições abertas

AGU - ADVOCACIA GERAL DA UNIÃO
Inscrições: 9/1/2006 a 20/1/2006
Qtd. Vagas: 25 | Nível: superior | Cargos: Advogado da União

BANCO DO BRASIL
Inscrições: 13/2/2006 a 23/2/2006
Qtd. Vagas: Formação de cadastro de reserva | Nível: médio | Cargos: Escriturário

CGU - CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO
Inscrições: 2/1/2006 a 29/1/2006
Qtd. Vagas: 300 | Nível: superior | Cargos: Analista de Finanças e Controle

DNIT - DEPARTAMENTO NACIONAL DE INFRA-ESTRUTURA DE TRANSPORTES
Inscrições: 17/1/2006 a 16/2/2006
Qtd. Vagas: 630 | Nível: médio e superior | Cargos: vários

EXÉRCITO - ESCOLA DE SAÚDE DO EXÉRCITO
Inscrições: 5/12/2005 a 20/1/2006
Qtd. Vagas: 80 | Nível: médio | Cargos: Sargento Técnico em Enfermagem

IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA
Inscrições: 9/2/2006 a 22/2/2006
Qtd. Vagas: 649 | Nível: médio | Cargos: Técnico

MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES
Inscrições: 31/1/2006 a 17/2/2006
Qtd. Vagas: 120 | Nível: médio e superior | Cargos: vários


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