• Crédito: Pacha Urbano


Na liderança
Administrar conflitos, tomar decisões, enfrentar o novo e, ainda por cima, conduzir pessoas. Esses são apenas alguns desafios dos grandes líderes. Saiba como ser um deles.
Por Clarissa Martins • 27/10/2003

Seja administrando uma casa, um trabalho de grupo na faculdade, a própria carreira ou até mesmo uma empresa, todo mundo já exerceu o papel de líder em algum momento na vida. E o mercado exige cada vez mais essa postura. Sonhar alto e dividir esse sonho com uma equipe, manter o foco no objetivo com perseverança, maturidade, bom senso e ética são algumas características inerentes a esses mentores. Além de, obrigatoriamente, gostar do que faz, um líder precisa conquistar o respeito e a confiança dos parceiros, aceitar riscos, tomar posições racionais - leia-se muitas vezes duras - e saber ouvir... muito. Se na teoria já parece complicado, imagine na prática.

Muita gente acredita que liderança é um dom, ou seja, só quem nasce com esse "feeling" é capaz de chegar em posições de destaque. Mesmo que isso seja verdade, nada impede que você descubra, na sua personalidade, características para se tornar um verdadeiro mentor. Nunca é tarde para aprender e desenvolver potencialidades. André Vincent se formou em engenharia da computação e foi trabalhar na Software Design, uma empresa de tecnologia fundada em 1987 por ex-alunos da Unicamp. Depois que ela obteve o reconhecimento do mercado paulista, André recebeu o desafio de conquistar o mercado carioca. De funcionário a sócio, conseguiu, com o apoio de outras pessoas, tornar o Rio de Janeiro responsável por aproximadamente 35% da receita da empresa. "Liderar pessoas é, acima de tudo, um ato de doação enorme. É importante garantir que sua liderança traga duas coisas fundamentais: orientação a todos de forma que eles saibam como contribuir para atingir seus propósitos e, principalmente, que percebam a importância dessa contribuição. E, como um guia, é preciso que seus atos tragam crescimento e superação para todos os membros da equipe que se lidera", aconselha.

Todo bom líder não age sozinho, está sempre rodeado de pessoas qualificadas em diversas funções. "Temos que montar uma equipe, em que o esforço de todos gere benefícios não atingíveis com os empenhos individuais de cada um", orienta André, que pela sua experiência garante que isso só é possível com uma alta capacidade de relacionamento interpessoal e percepção de como o outro se sente. "Ao entender as necessidades dos seus clientes externos e internos, a organização a que você pertence e seus colaboradores, você tem que agir para equacionar todos esses desejos", define.

O primeiro ponto fundamental é que a liderança deve ser conquistada e não imposta. "Para chegar no comando, o líder deve cativar as pessoas sem, necessariamente, entender de tudo profundamente. Mas deve estar envolvido em todos os processos", afirma Delson Ferraz, coordenador de Marketing da Baytec Tecnologia. Segundo ele, é importante saber delegar e ouvir opiniões, junto com a sabedoria de dosar esforços e recursos, somados a uma visão do imediato e de perspectivas para o futuro. Ele acredita que essa capacidade de liderar pode realmente ser desenvolvida ao longo da carreira de qualquer pessoa, mas que é com a experiência diante das dificuldades do dia-a-dia e o bom uso da criatividade para resolver esses conflitos que se consegue uma maturação profissional.

Segundo o consultor Obadia Sion, hoje é importante que o líder seja participativo, ou seja, conjugue os verbos na primeira pessoa do plural. "Os desafios e conquistas são 'nossos' e não mais apenas 'meus'. Para isso, ter a credibilidade da equipe é fundamental e só se consegue isso com muita transparência", esclarece. Conhecer muito bem cada pessoa que trabalha com você, seus pontos fortes e fracos são, para Obadia, pré-requisitos para qualidade total. "Só assim você sabe para quem vai delegar determinadas tarefas, vai cobrar e acompanhar o processo e, acima de tudo, vai valorizar todas as conquistas", comenta. Para ele, um líder, além de conquistar a confiança dos seus pupilos, tem que reconhecer que é humano e cabível de erros, saber os limites próprios e dos outros, deve cobrar, motivar a equipe e procurar desenvolver um espírito de irmandade no grupo. "Todos os envolvidos precisam saber claramente seus papéis e trabalhar para o objetivo comum. O líder entra aí, trazendo as novidades, trocando experiências, sendo flexível, aceitando as sugestões, incentivando a criatividade e a tomada de atitudes", ensina Sion, que destaca a permanente atualização, tanto do chefe como da equipe, fundamentais para nunca se chegar à acomodação.

A liderança não precisa ser permanente e constante. Dentro de uma estratégia empresarial, os líderes vão se modificando de acordo com as atividades e estágios nos projetos. Quem for mais capaz, em determinado momento, de exercer melhor a condução do grupo, seja por estar psicologicamente mais apto ou por mais experiência no assunto, assume a posição. O importante é que o barco continue seguindo a sua rota, independente de quem segura o leme. Para Maria Cecília Schwartz, da Schwartz Consultores Associados, um líder é uma pessoa que assume o papel de um guia e pode estar relacionado a diferentes contextos. "Gandhi foi um líder, por exemplo. Mas se tratando do assunto trabalho, acredito que existe uma equação fundamental: o lado bom e o mau, que o líder precisa ter habilidade para melhor solucionar diariamente", comenta. Para ela, o lado legal de um mentor é quando ele direciona e motiva a equipe, transmite conhecimentos e soma esforços. E o lado ruim, mas necessário, é o de cobrar bons resultados, postura e envolvimento. "Seu grande desafio está justamente em administrar essas duas direções eficazmente. Mas como? Tomando decisões que evitem injustiças, sendo cauteloso, assumindo seus erros e os corrigindo. Isso tudo sem esquecer do seu lado humano", finaliza.

Conhecer números, estratégias e mudanças no mercado são características básicas. Mas todo líder precisa mesmo é de um "que" de psicólogo. Para a gerente de Marketing Karina Brito, é necessário muita boa vontade para entender a cabeça das pessoas, pois cada um pensa e age diferente. "É preciso se adequar a tudo, principalmente às coisas novas. É ter a capacidade de enfrentar as dificuldades com equilíbrio e sem desespero e saber ser um bom mediador quando as coisas estão pegando fogo", elucida. Para Karina, esse guia deve conhecer a capacidade das pessoas e dar a elas a oportunidade que merecem.

Num manifesto do chefe que luta pelo reconhecimento de sua liderança, a consultora Gisela Kassoy faz versos com a realidade empresarial. "A sombra vem junto com o sol. O ouro vem junto com a lama. Exija muito de mim, mas deixe brilhar minha chama", declama.

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