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Lucro à vista
Resultados positivos na Bovespa levam empresas a abrir capital
Por Giselle Maria Souza • 03/08/2007

Hoje, a Bolsa de Valores já não é mais um terreno onde somente os megainvestidores pisam. E o mercado de ações tem captado pequenos investidores, interessados em aprender como ganhar dinheiro. Afinal, a tradicional caderneta de poupança, apesar da sua segurança, deixa a desejar quando o negócio é rentabilidade de longo prazo. Segurando a outra alça da bolsa estão as empresas de capital aberto, que enxergam nessa mudança de atitude da população uma ótima oportunidade de aumentar seu lucro. Foi aberto o pregão!

Ganhos altos em um prazo curto. Segundo especialistas, é com essa expectativa que cada vez mais empresas têm decidido abrir o capital. Nos últimos sete meses, o número de companhias que passaram a operar na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) ultrapassou todas as expectativas: eram 40 até segunda-feira passada, dia 23.

O principal é verificar se aquela companhia não é mais uma no mercado ou se representa uma novidade. Um setor que despontou recentemente foi o de agronegócios, com o lançamento de três grandes frigoríficos

O fenômeno teve início em 2004, quando sete empreendimentos se aventuraram. No ano seguinte, o quadro ainda não era muito animador: apenas nove empresas decidiram abrir o capital. No entanto, a valorização dos papéis, com rendimentos que variavam de 15% a 30%, logo no primeiro dia de operação, alterou esse cenário e provocou um boom no setor. Assim, em 2006, nada menos que 26 empresas fizeram a primeira oferta pública - procedimento conhecido no meio como IPO.

Desde então, a febre do IPO não desapontou. Em 2004, as ações tiveram valorização de 393%. No ano passado, as ofertas das empresas iniciantes chegaram a gerar mais de R$ 15 bilhões. Dessa maneira, a Bolsa de Valores passou a ser encarada pelas companhias como um meio de se captar recursos alternativo ao empréstimo bancário, onde os juros são altos.

Abrindo o capital

Abrir o capital, entretanto, não é algo simples. O processo para adequar a gestão da companhia às exigências de transparência do mercado é demorado e complexo. A empresa de cosméticos Natura, por exemplo, antes de lançar-se na Bolsa, contou com uma auditoria externa e seis anos de treinamento. Tudo visando à transparência nas operações e o melhor relacionamento com o investidor.

Para abrir o capital, a empresa deve atender a uma série de exigências legais, o que não sai barato. Entre as muitas providências necessárias, é preciso contratar serviços de assessoria jurídica; arcar com os custos da intermediação financeira exercida por corretoras de valores ou bancos múltiplos e de investimento, como exigido pela legislação; e adaptar o estatuto da companhia à nova condição da sociedade.

Realizados todos os procedimentos e feita a primeira oferta pública, só resta contar com a sorte. "Não há média acerca do papel lançado. Houve empresas cujo papel rendeu, em um único dia, 30%. Houve empresas que iniciaram as negociações com baixa de 10%", afirmou José Costa Gonçalves, diretor da corretora Indusval.

De acordo com ele, a decisão de operar no mercado de capitais deve ser muito bem pensada, pois voltar atrás é muito mais trabalhoso e, por vezes, quase impraticável. "Quem abre tem dificuldade em fechar", afirmou.

Cuidados necessários ao investidor

Se de um lado a valorização dos papéis chama a atenção das empresas de capital fechado para as possíveis oportunidades na Bolsa, de outro acende, de forma muito mais contundente, o interesse do investidor. Especialistas, no entanto, alertam sobre os cuidados que aqueles que pretendem investir num IPO devem tomar.

De acordo com Gustavo Barbeito, analista da Prósper Gestão de Recursos, investir na Bolsa de Valores é algo arriscado para quem não tem conhecimento. "Se eu fosse um investidor leigo, procuraria uma companhia com menos riscos de gestão, mais sólida no mercado e com histórico", sugeriu.

Na avaliação do analista, a melhor opção são os fundos de investimentos oferecidos por corretoras e instituições bancarias. Nesse sentido, ele recomenda a contratação de um fundo ativo, ou seja, aquele no qual o gestor escolhe quais papéis comprar.

"Nessa modalidade o gestor não segue a carteira do Ibovespa ou do IBX, os dois índices mais populares da Bolsa. O gestor age de acordo com o que ele acha que pode render mais e com base no histórico de sucesso (da companhia)", disse Barbeito, destacando outras vantagens de se investir por meio de um fundo. De acordo com o analista, o investidor pode economizar em custódia - taxa cobrada por bancos e corretoras para administrar a ação.

Diante dos rendimentos atrativos verificados nos papéis das empresas que se lançam na Bolsa de Valores, a dúvida do investidor é justamente onde estaria a oportunidade de realizar um bom negócio. Qual seria a melhor opção: apostar em uma empresa já conhecida do mercado ou naquelas que anunciaram a primeira oferta pública?

Dúvida à parte, o fato é que ambas as opções exigem cuidados. Segundo José Costa Gonçalves, o primeiro passo é identificar se o setor no qual a empresa atua não está saturado. "O principal é verificar se aquela companhia não é mais uma no mercado ou se representa uma novidade. Um setor que despontou recentemente foi o de agronegócios, com o lançamento de três grandes frigoríficos, entre eles a Friboi. Mas na área de construção civil, por exemplo, já vieram 10", explicou.

Reunir essas informações, no entanto, pode não ser algo fácil. De acordo com José Costa, o período de lançamento é marcado pelo silêncio. Algumas informações podem ser encontradas nos prospectos - documentos elaborados pelas próprias companhias para dar publicidade à venda, alertar o investidor sobre os riscos dos negócios e, em alguns casos, projetar a situação da atividade desenvolvida. "Também é preciso ter um pouco de sensibilidade", destaca o analista.

Justamente por causa dessas dificuldades, há quem prefira investir nas companhias que já operam na Bolsa. "O IPO tem um lado positivo: começa a dar ganho ao investidor logo no primeiro dia. Só que não é algo aberto. As informações estão nos prospectos, documentos técnicos e muito densos. Por isso, eu preferiria as ações das empresas que já estão no mercado. Mas tem aquela coisa da emoção, apesar de achar que esse deve ser o último motivo para se investir na Bolsa", argumentou Gustavo Barbeito.

Dicas para se investir

Verificar o histórico da companhia, para saber se ela é sólida e quem são os seus gestores, é o primeiro passo para quem quer investir. Para especialistas, no entanto, outros pontos devem ser levados em consideração. Entre eles, a forma de realizar o investimento.

Segundo José Costa, o investidor nunca deve apostar em uma única empresa ou em várias de um mesmo setor. Diversificar, de acordo com ele, é o melhor negócio. "O ideal é que sejam pelo menos três papéis e de companhias diferentes. Assim cria-se um colchão, no caso de as ações de uma empresa cair. As outras compensariam", explicou.

Outro ponto destacado pelo analista está relacionado ao prazo do investimento. José Costa recomenda um ano. "É um dinheiro para o qual não se pode ter uma finalidade imediata. O mercado em determinado momento pode ficar fraco, e o investidor pode acabar se desfazendo dos papéis em momento errado", acrescentou.

No que está relacionado ao valor do investimento, Gustavo Barbeito também faz sugestões. "Para quem vai investir diretamente, o recomendável é de R$ 50 mil a R$ 100 mil. Isso dá para montar uma carteira e fugir do mercado fracionário, onde se compra e vende com menor liquidez, o que diminui as chances de ganho. Já nos fundos de investimentos, há captações de até R$ 10 mil", destacou.

Disputas jurídicas

Eventuais danos decorrentes de uma orientação deficitária podem ser cobrados no Judiciário. Quem faz o alerta é o advogado Adriano Castelo Branco, do escritório Veirano Advogados. Segundo o especialista em mercado de capitais, a companhia que emitiu os papéis deve ser responsabilizada por um mau negócio, se comprovado que a companhia forneceu informações imprecisas ou erradas sobre si e a atividade que desenvolve.

"O ganho ser maior ou menor é uma coisa, é o risco de se investir na bolsa. Outra é saber se a informação disposta nos prospectos reflete a realidade", disse o advogado, acrescentando que problema como esse já levou uma série de investidores ao Judiciário, nos Estados Unidos. No Brasil, ainda não há casos desse tipo, segundo Castelo Branco.



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