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O administrador de empresas Armando Leite sempre foi considerado o nervosinho da turma. Todos os amigos sabiam que era do tipo que não levava desaforo para casa e, durante anos, a família culpou seu temperamento pelas confusões em que se metia. Aos 38 anos, descobriu que, na verdade, possuía TDAH: Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade, um problema neurológico de causa genéticas. O primeiro diagnóstico veio a partir de conversas com sua homeopata há três anos. "Sempre precisei fazer um esforço enorme para não entrar em conflito com as pessoas e, ao mesmo tempo, sentia que estava disperso. Era uma dificuldade enorme lidar com compromissos. Esquecia datas e marcava mais de uma coisa no mesma hora, mas achava que era desorganizado e só", diz.
Armando demorou quase 40 anos para descobrir as razões de seu comportamento, mas muitos levam toda uma vida às voltas com dificuldades que poderiam ser resolvidas com uma análise mais correta do caso. O diagnóstico costuma ser feito ainda na infância, porque o comportamento da criança ganha logo destaque frente ao dos colegas de turma. Quem possui TDAH tende a ser inquieto e desorganizado e a ter dificuldades para se concentrar em atividades muito longas ou simplesmente desinteressantes. Por isso, os professores são, em geral, os primeiros a notarem os sintomas.
Ter de permanecer durante horas sentadas com o foco numa tarefa específica pode ser uma missão quase impossível para as crianças com o transtorno. O menor barulho do lado de fora da sala também é o suficiente para que se distraiam. E é justamente a facilidade que têm para se distrair que as tornam tão esquecidas, já que a atenção é fundamental para o bom funcionamento da memória, explica o neuropsiquiatra Fábio Barbirato. "Vemos problemas de memória em pessoas idosas, com algum quadro de demência ou com alguma lesão no hipocampo. Quando se trata de um jovem, normalmente está relacionado à atenção. Neste caso, uma das três fases que compõem o processo de memorização fica faltando, que é o da aquisição. Sem ela, não posso reter a informação e, posteriormente, lembrá-la", explica Dr. Barbirato.
Mais da metade das crianças com TDHA vão apresentar os sintomas também na vida adulta. E este é um dos transtornos neurológicos mais comuns: de 3 a 5% das crianças convivem com o problema nos países onde o assunto já foi pesquisado, segundo a Associação Brasileira de Déficit de Atenção. A ocorrência do transtorno não tem relação com a maneira como os pais criaram seus filhos ou fatores culturais, é um problema genético. Pesquisas mostraram que pessoas com TDAH possuem alterações na região frontal do cérebro, responsável controlar ou inibir comportamentos inadequados, pela capacidade de concentração, memória, organização e planejamento.
Cérebro ativado
É mais comum que as queixas estejam centradas no comportamento da criança - taxadas muitas vezes, simplesmente, de levadas e mal-educadas -, mas não é raro que problemas de redimento apareçam. Por ser muito desatenta, a criança com TDAH tem uma forma diferente de aprender e registrar novos conhecimentos. Muitas vezes, pais e professores possuem relatos diferentes sobre a criança, o que pode dificultar o diagnóstico. A razão é simples: quando o jovem com TDAH está envolvido numa atividade que considera interessante, os centros de prazer em seu cérebro são ativados e estimulam a atenção, que passa a funcionar em níveis normais. "Qualquer pessoa tem mais atenção numa tarefa que acha interessante. Quem tem TDAH, porém, não consegue manter a atenção em uma atividade que não seja prazerosa", afirma Dr. Barbirato.
Outra característica de quem possui o transtorno é a impulsividade. Interromper a fala dos outros ou agir antes de pensar são comportamentos comuns. Por isso, durante muito tempo pensou-se que apenas meninos apresentavam TDHA. A verdade é que a desatenção é uma característica presente em ambos os sexos, mas os sintomas de hiperatividade e impulsividade costumam ser mais visíveis em jovens do sexo masculino.
A desinformação costuma ser a grande inimiga de quem tem o problema, principalmente quando ele passa despercebido na infância. A existência do transtorno em adultos foi reconhecida em 1980 pela Associação Psiquiátrica Americana, mas muitos médicos ainda não sabem detectá-lo e o diagnóstico costuma ficar restrito a problemas como ansiedade e depressão que podem estar associados ao transtorno. "O primeiro passo é a informação do médico e do paciente. Não existe um teste único para que se descubra o transtorno. É um diagnóstico clínico, por isso dependemos da competência e informação do médico, que tem acesso aos congressos e às últimas pesquisas sobre o assunto. E, quanto mais tarde for descoberto, maior vai ser a resistência do paciente para aceitar que possui o transtorno, porque ele pensa que é algo de sua personalidade", observa Josef Vaindoim, diretor-executivo da Associação Brasileira de Déficit de Atenção.
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