• Crédito: Divulgação


Um estouro!
O dia em que as crianças descobriram que há pipoca além do microondas
Por Ana Téjo • 27/02/2008

Aí, dia desses resolvi fazer uma sessão de aculturação histórica lá em casa.

Às vezes cai a ficha e eu me toco de que certas coisas banais da minha infância desapareceram totalmente da vida dos meus filhos. Uma banalidade dessas é a pipoca. Aquela mesmo, de comer no cinema. Acontece que meu filhos NUNCA viram pipoca que não fosse feita em microondas, estourada educadamente dentro do saquinho de papel, colocado disciplinadamente com "este lado para cima".

"Isso acaba hoje", resolvi, determinada a iniciá-los nas delícias da pipoca "de verdade". Por um momento, cheguei a me perguntar se ainda haveria milho seco em sacos plásticos para vender no supermercado, numa prova vergonhosa da minha própria alienação. Eu, ali, no meu mundinho de microondas,considerando a improbabilidade do resto do mundo continuar a estourar pipoca no fogão comum.

Até eu estava me divertindo. Tinha esquecido de como era bacana fazer pipoca na panela. É verdade que no microondas é muito prático, não suja nada, estoura num minuto e praticamente não sobram grãos sem estourar. Em compensação, a casa fica um dia e meio cheirando àquele aromatizante sabor manteiga

Comprei o milho e levei para casa. No caminho, imaginei que seria mais divertido se tivéssemos uma panela de vidro para poder assistir ao espetáculo. Peguei uma emprestada.

Meu filho é doido por pipoca. Aliás, como boa parte das crianças, é doido por toda comida que não é séria. Aproveitamos um fim de tarde de sábado. Quando anunciei a sessão pipoca, ele foi direto ao armário e pegou um saquinho de microondas. Expliquei que faríamos diferente. Com fogo.

- Fogo?

- É!

- Como o dos bombeiros?

- É. Só que sem a parte dos bombeiros.

- Sem bombeiros?

- É, filho. Vamos fazer pipoca e não um incêndio.

- Ah...

- Mas vai ser legal. Eu prometo. É um tipo de pipoca assim... antiga...

- Pipoca das cavernas, mamãe?

- É, filho. Praticamente. Só que a gente não vai fazer na fogueira. Vai fazer no fogão, tá?

- Tá...

Antes que a animação decaísse de vez, resolvi fazer uma demonstração prática. Fomos os três para a cozinha, minha filha colocou uma colher de sopa de óleo e um pouco de sal na panela (quando eu fazia pipoca com a minha irmã, sempre colocávamos o sal 'antes' para a pipoca já 'nascer' salgada. Adorávamos). Quando o óleo se aqueceu um pouco, colocamos o milho e fechamos a panela. Antes, tive que explicar que não, a gente não podia usar o pacote todo de uma vez.

- E agora? - perguntou meu filho.

- Agora, a gente espera.

- Quanto tempo?

- Pouco, filho. Tenha paciência e fique olhando.

...

- Tá demorando.

- Tá mesmo. Será que eu esqueci alguma coisa?

De repente, as pipocas começaram a estourar. Ele me olhou, encantado.

- Tá vendo? Que legal?

- Mamãe! É lindo!

- Não é?

Minha filha também adorou. Nunca tinha visto, a não ser no cinema, mas disseque em casa era muito mais emocionante. Lá pelas tantas, dei uma sacudida na panela para misturar os grãos ainda não estourados. Mais um tempinho depois, ousamos até abrir uma brechinha da tampa. Voaram três ou quatro pipocas. Meu filho ficou enlouquecido.

- Radical! Podemos deixar aberta? Por favor? Por favor?

- Não, filho.

- Por que não?

- Por que as pipocas estão quentes e podem machucar você.

- Ah, por favor! Por favor!

- Não, filho. A gente colocou óleo dentro e vai engordurar a cozinha inteira.

- Por favor?...

- Não.

- Mas é tããããão lindo.

- É, né?

Até eu estava me divertindo. Tinha esquecido de como era bacana fazer pipoca na panela. É verdade que no microondas é muito prático, não suja nada, estoura num minuto e praticamente não sobram grãos sem estourar. Em compensação, a casa fica um dia e meio cheirando àquele aromatizante sabor manteiga.

Terminada a preparação, colocamos tudo em uma tigela e fomos comer vendo televisão. De quebra, ainda polvilhamos com um pouquinho de Fondor - eu ponho Fondor em absolutamente tudo. Até na pipoca! - foi um sucesso. Daqui pra frente, vamos alternar os tipos de pipoca. Com a vantagem de que, no dia seguinte, meu filho chegou à escola cheio de história para contar.



Ana Téjo tem 37 anos, é publicitária, redatora, tradutora, nadadora, planejadora, cozinheira, mãe e escritora, quase nunca nesta ordem. Administra, sempre que possível, dois filhos elétricos, uma babá rabugenta, um trabalho eletrizante, uma mãe obstinada, um namorado apaixonante e uma vontade compulsiva de escrever.   Leia mais deste autor.





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