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Salada da ressaca
Depois dos excessos, uma saladinha para ajudar a recuperar a forma
Por Ana Téjo • 02/01/2008

É assim mesmo. Por mais comedida, razoável e disciplinada que você seja, é quase impossível não ganhar uns quilinhos com os excessos de final de ano. Pecado cometido, resta o arrependimento, aquela maldita "borda recheada de catupiry" que insiste em se insinuar no cós das calças que antes cabiam e as promessas, de coração, de que no ano que vem - que, a propósito, já chegou - você jura por Deus que vai malhar, fazer ioga, musculação, heptatlo, halterofilismo, nadar, correr, o que for preciso para recuperar aquele corpinho de sereia que horas e horas de academia lhe deram. Só que aí o ano começa, volta a rotina, as obrigações, você se enfia de cabeça naquele trabalho urgentíssimo e quando vê, já é março ou abril e os excessos acumulados continuam lá.

Eu, pessoalmente, adoro comida, adoro comer e acredito sinceramente que ninguém mereça passar a alface e água mineral sem gás. Creio que tudo é uma questão de moderação a ser exercida até na hora dos excessos - moderação essa, que fica absolutamente desculpada em caso de coração partido ou dias de TPM feroz.

Puxe parte da fibras de um lado e do outro. Isso garante um salsão macio, tenro e evita que a criatura que vai partilhar dessa salada com você tenha que ficar cuspindo fibras num canto do prato

Mas eu não sou psicóloga e sim cozinheira. E não estou aqui para julgar e muito menos fazer quem quer que seja se sentir culpada. Chafurdou num leitão à pururuca? Ótimo. Perdeu a noção em uma festa do peru? Paciência. Afundou num quindão, num panetone, num brigadeirão? O mundo não vai se acabar por isso.

Aproveite a ressaca nacional de cozinha para comer uma saladinha. Não, querida, eu não vou pedir a você que ingira uma horta de rúcula, temperada só com limão e sal e nem vou dizer que para lavar seu corpo, você deve beber apenas água (uma vez, levei uma bronca danada de um médico porque perguntei se poderia tomar chá em vez de água. "Você lava o piso da sua cozinha com chá, toma banho com chá, minha filha?"). Tudo isso é verdade, rúcula e água são ótimos alimentos desintoxicantes, mas eu prefiro deixar esse servicinho sujo para o seu endocrinologista. De mim, você terá apenas coisas saudáveis, mas saborosas. Vamos a uma delas.

Saladinha da ressaca (para aplacar a fome, a culpa e o diâmetro da cintura)

2 talos de salsão (um pé de salsão é uma árvore, minha cara. Dá pra fazer salada para a família toda e você não merece passar a tarde na cozinha, limpando salsão. Compre uma daquelas bandejinhas com dois ou três talos que custam um pouquinho mais caro mas poupam hooooras de trabalho árduo)

100 g de peito de peru

1 lata de ervilhas escorridas (eu tenho trauma com ervilhas. Na ilusão de economizar, já comprei umas que pareciam vassouras de piaçava. Hoje em dia, compro da Bonduelle, congeladas e cozinho, ou em lata. As danadas valem cada grão.

1 lata de milho verde cozido, escorrida

2 fatias de abacaxi (totalmente opcional. Ainda mais se for você que tiver que descascá-lo. Ninguém merece descascar abacaxi na primeira semana do ano. Bem, talvez haja gente que mereça, mas você e eu certamente não estamos entre essas pessoas)

1 pote de iogurte desnatado sem o soro

2 colheres (sopa) de mostarda

Sal, se necessário.

1 colher (chá) de orégano

Já deu pra notar que você não tem que fazer praticamente nada, né? Mesmo assim, segue a "ordem dos tratores", só por via das dúvidas.

Limpe o salsão. Com uma faca afiada, corte as pontinhas dos talos de salsão e puxe parte da fibras de um lado e do outro. Isso garante um salsão macio, tenro e evita que a criatura que vai partilhar dessa salada com você tenha que ficar cuspindo fibras num canto do prato. Para ganhar tempo, junte todos os talos num montinho só e corte em pedacinhos de, no máximo, 0,5 cm.

Corte o peito de peru em cubos. Se ele for fatiado, corte as fatias em quadradinhos.

Pronto. Acabou a receita. "Mas, e a minha salada?", esbravejará você, faminta. "Ana Téjo, você é uma embusteira, uma farsante, uma falastrona! Pede pra sair, Ana Téjo!" A sua salada, querida leitora, está bem na sua frente, quer ver?

Pegue uma tigela de tamanho médio e jogue dentro dela o salsão, o peito de peru, o milho, a ervilha, o abacaxi (ou não), o iogurte, a mostarda e o orégano. Não. Não precisa ser nessa ordem. Ponha na ordem que você quiser. E se você não gostar de ervilhas, faça sem ervilhas. Não gosta de milho? Troque por cenoura. Detesta peito de peru? Substitua por frango defumado, desfiado. Odeia iogurte desnatado e orégano? Deixe de ser enjoada e vá chupar parafuso pra ver se vira prego!

Pronto. Passou. Desculpe o desabafo. São os excessos do fim do ano. Agora, tudo o que você precisa fazer é misturar os ingredientes muito bem. No fim, prove e ponha um pouco de sal, se necessário. Quando faço essa salada, eu costumo cobrir a tigela com plástico filme e deixar na geladeira de um dia para o outro, para "tomar gosto", como dizia vovó, mas você pode consumir a sua na mesma hora, sem culpa, sem medo de ser feliz e com muito poucas calorias.

Feliz Ano Novo.



Ana Téjo tem 37 anos, é publicitária, redatora, tradutora, nadadora, planejadora, cozinheira, mãe e escritora, quase nunca nesta ordem. Administra, sempre que possível, dois filhos elétricos, uma babá rabugenta, um trabalho eletrizante, uma mãe obstinada, um namorado apaixonante e uma vontade compulsiva de escrever.   Leia mais deste autor.





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