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Cá entre nós: hoje em dia é muito difícil resistir à tentação de um fast food na praça de alimentação do shopping, a uma tarde deliciosa na frente da TV, rodeada de guloseimas, àquele pacote de salgadinhos ou àquela torta na vitrine da confeitaria. Mais difícil ainda, nesse dia-a-dia corrido, é arranjarmos tempo para manter uma atividade física regular e uma alimentação saudável. O resultado disso, para algumas pessoas, significa muitos quilos a mais e uma série de complicações na saúde. Mas a obesidade não é exclusiva de jovens e adultos. A criançada também vem sofrendo cada vez mais com esse problema, que já é considerado uma epidemia pela Organização Mundial de Saúde. Se não for tratada, a obesidade infantil pode se tornar uma tremenda dor de cabeça na idade adulta.
Mas afinal, o que é a obesidade? Segundo o Consenso Latino-Americano em Obesidade, trata-se de uma enfermidade crônica, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura em tal proporção que acaba comprometendo a saúde. Entre as complicações mais comuns decorrentes do excesso de peso, estão alterações osteomusculares, colesterol alto, hipertensão arterial, diabetes mellitus, dislipidemias e até mesmo o aumento do risco de câncer. E é bom saber: a obesidade não tem cura. O que se pode fazer é controlar a doença ao longo da vida, com a mudança de hábitos de vida - através da reeducação alimentar, por exemplo – e a adoção de atividades físicas regulares.
Um problema crescente
Nas últimas duas décadas, a obesidade infantil vem crescendo na maior parte do mundo. Aqui no Brasil, há um dado curioso: há mais pessoas obesas do que subnutridas no país. E esse índice vem aumentando. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, nos anos 80, as crianças representavam apenas 3% dos obesos. Atualmente, elas representam mais de 15%. "Essas estatísticas mostram que esse número aumenta cada vez mais: de sete mil crianças entre seis e quinze anos, abordadas em uma pesquisa no Rio de Janeiro, 38% são obesas", aponta a nutricionista Andréa Brum. Ela observa que o enfoque dado à obesidade, atualmente, também vem mudando: ela vem perdendo o estigma de que é uma doença de preguiçosos ou desleixados com a aparência. “O que se sabe é que a obesidade pode ser causada por fatores biológicos, genéticos e até psicológicos. Então, deve ser diagnosticada e tratada como qualquer outra enfermidade”, ressalta.
Outra pesquisa, realizada pela Organização Panamericana de Saúde, mostra que a obesidade infantil no Brasil cresceu nada menos do que 240% nos últimos vinte anos. As estimativas apontam que entre 20% e 25% das crianças e dos adolescentes sofram de obesidade ou sobrepeso. E justificativas não faltam: além do sedentarismo (que impede que a criança queime as calorias ingeridas), da má alimentação e do alto consumo de produtos industrializados, existe também a questão sócio-econômica. Hoje, muitas famílias não se sustentam apenas com o salário de um dos membros – como o pai, por exemplo. Isso leva muitas mulheres ao mercado de trabalho, em busca de um complemento da renda. Essa nova rotina da mãe de família faz com que o tempo reservado à alimentação seja reduzido. Mães que antes cozinhavam para os filhos, com direito a saladas, arroz, feijão e outros alimentos, hoje dão preferência a refeições rápidas – muitas vezes à base de frituras e produtos prontos. Os filhos, é claro, são obrigados a acompanhar essa dieta.
Tal pai, tal filho
A genética também tem culpa no cartório. Andréa Brum ressalta crianças filhas de pais obesos têm 80% de chances de desenvolver a doença. Sendo o pai ou a mãe obesos, as chances caem pela metade: 40%. Porém, se nenhum dos dois for obeso, ainda há 15% de chance. Então, é preciso que os pais entrem em ação e participem da reeducação alimentar dos filhos, controlando o valor calórico ingerido e adotando uma dieta extremamente equilibrada – sempre em função das necessidades diárias. “A criança não precisa, necessariamente, perder peso. Se houver uma diminuição da curva de ganho ponderal, o crescimento fará com que ela deixe de ser obesa”, diz a nutricionista.
É, mas não pense que o controle da obesidade só deve começar quando a criança estiver passando dos limites de peso. Na verdade, ele deve ter início nos primeiros meses de vida, pois é já nessa época os hábitos alimentares vão se formando. Andréa Brum diz que é necessário estimular as crianças a comer lentamente, em pouca quantidade, oferecer alimentos de melhor qualidade e separar as refeições de outras atividades – como ficar na frente do computador ou da tevê, por exemplo. A nutricionista diz que o primeiro ano de vida é determinante para a alimentação infantil. Segundo ela, estudos indicam que crianças amamentadas no seio têm menor tendência a engordar. Por isso, é preciso alimentá-las com o leite materno em intervalos de três em três horas. Depois dos seis meses, o leite deve ser complementado com papinhas e sucos sem açúcar.
Especialistas recomendam que, a partir do quarto ou sexto mês de vida, a criança já tenha uma alimentação colorida, variada e rica em sabores. Nessa fase, já é preciso estabelecer horários fixos para as refeições, criando uma rotina para a criança. Aliás, ela precisa comer várias vezes ao dia: são recomendadas seis refeições diárias. Os lanchinhos entre as refeições evitam que elas abusem das calorias e das gorduras na hora do almoço e do jantar e, conseqüentemente, que ganhem peso. Porém, é preciso atentar para o cardápio: nada de doces, frituras, refrigerantes, sucos artificiais e outras guloseimas! Frutas, leites, cereais e pães são uma ótima pedida, pois alimentam e não comprometem a saúde.
O controle da família
O comportamento dos pais também deve servir de exemplo para a garotada. Não adianta dizer ao filho que determinados alimentos não fazem bem à saúde e depois consumi-los diante dele. Se for necessária uma mudança radical no cardápio da criança, o ideal é a família toda acompanhar o processo. E há outros fatores a observar: a comida nunca deve ser oferecida como recompensa. “A disciplina alimentar poderá ser quebrada nos finais de semana e em ocasiões especiais. Entretanto, é importante que os pais saibam quais são os alimentos menos calóricos para oferecer a seus filhos. Dar ênfase aos alimentos que ela pode consumir, ao invés dos que ela não pode, é uma medida importante”, considera Andréa Brum.
É preciso malhar
Já que as chances de vencer a obesidade ficam mais difíceis à medida que o indivíduo cresce – podendo diminuir até 80% se o problema persiste na idade adulta –, o melhor a fazer é prevenir. Não só cuidando da alimentação, mas também do condicionamento físico, com a prática freqüente de atividades físicas. “Exercícios promovem o bem-estar e aumentam a auto-estima. Eles devem ser aeróbios e estimulados de acordo com a preferência da criança”, recomenda a nutricionista. Com essa nova rotina, não vai haver gordura que resista.
Anna Mocellin   Leia mais deste autor.
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