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Não ao desperdício!
Na cozinha nada se cria, tudo se transforma. Diga não ao desperdício
Por Ana Téjo • 09/07/2008

Tem muita coisa que eu não gosto, como chuchu, tofu, coentro, danone de coco e vísceras de um modo geral. Apesar de não gostar, lido perfeitamente bem com isso e consigo até ser amiga de quem não vive sem um prato de chuchu cozido na água e sal. Mas tem uma coisa que eu não suporto: desperdício.

Desperdício, principalmente de comida, é algo que me tira do sério. Perco a classe, o rebolado, a paciência e as estribeiras. Não sei de onde veio tanta intolerância. Talvez do lado do meu pai, de família européia, que atravessou duas grandes guerras. Talvez do lado da minha mãe, de família nordestina, que nunca teve muita fartura à mesa.

Tem gente que implica com arroz "de ontem". Eu implico com batata cozida "de ontem". Acho que a batata fica com um gosto esquisito, de geladeira. Para evitar que isso aconteça, peço que se prepare menos batata

Quer me deixar nervosa? É fácil. Ponha um monte de comida no prato e deixe a metade. Se quiser que eu voe no seu pescoço como um ninja esquizofrênico, é só esconder a comida que sobrou sob um guardanapo de papel. É o mais ou menos o mesmo princípio de varrer o lixo para baixo do tapete.

Sei que em algumas culturas é de bom tom deixar alguma comida no prato para sinalizar que você está satisfeito, mas juro que não me conformo. Será que dizer simplesmente "não, obrigado, eu estou satisfeito" não é o suficiente? Ou "nossa! Estava uma delícia! Eu até comi mais do que gostaria. Olha só! Limpei o prato!"

Mais do que defender, eu pratico o não-desperdício. Aprendi desde pequena. Lá em casa, a coisa mais rara é ir alguma comida para o lixo. Quando começou a trabalhar comigo, há cerca de treze anos, a babá às vezes jogava comida fora. De tanto conversar, explicar, argumentar - bem, também teve aquela vez em que eu a segurei suspensa apenas pelo pés, do lado de fora da janela - hoje ela é mais rigorosa que eu. Sobrou um pouco de leite na caixa? Um pingo de leite? Volta para a geladeira. Se possível, acompanhado de uma caixa nova para o próximo cristão a se servir não ficar sem leite gelado. Até a primeira e a última fatia do pacote de pão de fôrma, que costumam ser esnobadas, acabam virando torrada, ou farinha de rosca, ou ingrediente para dar mais consistência a um bolinho de carne.

Tem gente que implica com arroz "de ontem". Eu implico com batata cozida "de ontem". Acho que a batata fica com um gosto esquisito, de geladeira. Para evitar que isso aconteça, peço que se prepare menos batata. Ou pego as batatas cozidas que sobraram, ainda mornas, ponho um pouco de leite, páprica e manteiga e transformo em purê (com purê "de ontem", eu não implico).

Para dar um fim digno ao arroz de ontem, nada melhor que o preferido por dez entre dez filhos em férias e por onze entre dez namorados ou maridos na volta do trabalho. O famoso, o tradicional, o clássico e inesquecível, bolinho de arroz. Vamos a ele.

Bolinho de arroz

2 xícaras (chá) de arroz cozido (Já falamos sobre isso aqui. Aproveite o arroz que sobrou de ontem. Se não sobra taaaanto arroz assim na sua casa, faça mais um pouco, apenas para completar a medida).

1/2 xícara (chá) de queijo ralado

1/2 xícara (chá) de leite

2 colheres (sopa) de salsinha picada. Se gostar, ponha também cebolinha e coentro. Eu de-tes-to coentro. É uma das poucas coisas que fazem arrepiar meus pêlos da nuca!

1 colher (sopa) de fermento em pó

1/2 xícara (chá) de amido de milho

1/2 xícara (chá) de farinha de trigo

3 ovos

Óleo para fritar

Misture tudo muito bem em uma tigela, fermento inclusive. Na hora de fritar, para minimizar os danos na sua cozinha e nos seus cabelos, frite em uma panela de bordas altas. Em casa, eu uso a panela de pressão. Ponha cerca de um dedo e meio de óleo na panela e deixe aquecer. Para saber se o óleo está bem quente, jogue um palito de fósforo dentro dele. Quando estiver quente de verdade, o palito se acenderá sozinho. Tire o palito (é sempre prudente, para evitar que algum adorador de bolinhos de arroz mais entusiasmado acabe com um palito entalado na garganta) e frite os bolinhos às colheradas, deixando dourar dos dois lados. Essa receita rende cerca de 30 bolinhos. Se essa quantidade é demais para a sua casa, faça meia receita. Ou frite só a metade e congele o restante da massa para uma próxima vez.

Escorra em papel absorvente e sirva quente como aperitivo ou como refeição leve, acompanhado de salada ou de carne assada. Se sobrar - o que raramente acontece - coma frio, protagonizando um daqueles sensacionais assaltos à geladeira que a gente fazia quando era jovem e não tinha medo de engordar.

Ah, e nada de jogar o óleo fora, hein? Como os bolinhos não são empanados na farinha, o óleo não fica sujo. Assim, espere-o esfriar, ponha em um frasco de vidro e use novamente.



Ana Téjo tem 37 anos, é publicitária, redatora, tradutora, nadadora, planejadora, cozinheira, mãe e escritora, quase nunca nesta ordem. Administra, sempre que possível, dois filhos elétricos, uma babá rabugenta, um trabalho eletrizante, uma mãe obstinada, um namorado apaixonante e uma vontade compulsiva de escrever.   Leia mais deste autor.





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