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Tem gente que é assim: implicante. Eu, graças a Deus, sou uma pessoa super flexível e bem adaptada, que não implica com quase nada, quase nunca. A não ser com umas poucas coisas, plenamente justificáveis, como, por exemplo, com gente que usa meio saquinho de adoçante. No trabalho, há vários espécimes desse tipo.
A criatura tem a pachorra de ir até a máquina de café, escolher entre as várias opções disponíveis e na hora de adoçar, coloca MEIO saquinho de adoçante.
Outro dia, peguei um saquinho, uma lupa potente e li aquelas letrinhas em corpo pulga-condensed-light: "Cada envelope equivale ao poder adoçante de duas colheres de chá de açúcar". Aí, o praticante do meio saco é capaz de argumentar: "Mas eu só quero UMA colher de chá de açúcar no meu cafezinho!" Então pega o dobro de café, pô!
Porque outra coisa que sempre acontece com o raio do meio saquinho é que NINGUÉM NUNCA quer a segunda metade. Nem os adeptos da primeira! E a coisa vai se sofisticando. Outro dia, alguém com muita iniciativa e um bruto senso de organização arrumou um copinho de café só para colocar os meios saquinhos que fossem se acumulando ao longo do dia. Lá pelas três da tarde, fui à máquina e dei com nada menos que CINCO meios saquinhos de adoçante que jaziam ali, meticulosamente guardados. Fiquei por ali, disfarçando, tomei uns três ou quatro cafés, um chocolate, um pingado, um capuccino e, de repente, ei-lo: um legítimo adepto do cacoete. Fiquei esperando até ele dobrar a pontinha do pacote para configurar o flagrante e ataquei:
- Ei, por que você usa só meio saquinho de adoçante?
- Porque senão fica muito doce, Ana.
- E por que você não põe mais café?
- Porque aí vou tomar café demais.
- Sei... desculpa a insistência, mas por que você não usa um dos meios saquinhos que já estão ali, ó? Tem uns cinco...
- Ah, porque naqueles meios saquinhos nunca tem a quantidade certa.
- Comassim? Não é meio?
- É que quando a gente usa a metade, nunca usa a metade MESMO, entende? Vai sempre um pouco menos, um pouco mais e quando a gente pega o meio saquinho de outra pessoa, corre o risco de ficar com o café amargo ou muito doce.
- E se vocês escrevessem o nome em seus meios saquinhos e cada um pegasse sua própria metade no segundo café do dia?
- Ah, ia dar muito trabalho, né? Além disso, mesmo o próprio dono do meio saquinho não usa exatamente meio pacote, de forma que o que sobre nunca é a mesma quantidade.
- E por que então vocês não jogam essa droga de meio saquinho fora de uma vez?
- Porque aí ia ser desperdício, né, Ana?
Contrariando meus princípios, resolvi dar cabo daquele monte de meios saquinhos. Até porque, onde já se viu? Me servi de um café longo, peguei um saquinho e tchuf. Caíram cerca de seis grãos de adoçante. Droga! Não vai dar... peguei outro meio saquinho e tchuf, mais oito grãos. Peguei um terceiro. Pronto. Caiu um montão e meu café - justo no meu, que não sou praticante e nem apoio o uso do meio saquinho - ficou doce. E eu detesto café doce! Aliás, café doce demais é outra coisa com a qual eu implico. Humpf!
Ana Téjo tem 37 anos, é publicitária, redatora, tradutora, nadadora, planejadora, cozinheira, mãe e escritora, quase nunca nesta ordem. Administra, sempre que possível, dois filhos elétricos, uma babá rabugenta, um trabalho eletrizante, uma mãe obstinada, um namorado apaixonante e uma vontade compulsiva de escrever.   Leia mais deste autor.
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