• Crédito: Divulgação


Guerra pró-comida
Ir ao supermercado com filho pequeno é missão praticamente impossível
Por Ana Téjo • 08/08/2007

Na dura busca por comida, a gente faz o que pode para manter a geladeira moderadamente abastecida. Nesse "faz o que pode", incluo compras às dez da noite, às duas da manhã, às sete e meia, por exatos vinte e dois minutos, cronometrados, no intervalo entre deixar um filho e outro na escola e, em último caso, nos finais de semana. Fujo dessa última opção como o diabo foge da cruz, por dois motivos:

1. Eu ODEIO supermercado, com todas as minhas forças e nos finais de semana é sempre muito mais cheio.

2. Quando vou aos sábados, eu tenho companhia e todo mundo sabe que, mais difícil que fazer supermercado, é fazê-lo com um filho de três anos.

A pior parte é quando a falta de paciência se soma ao tédio. Aí, em vez de levantar do carrinho, ele estica a mão para fora e sai fazendo strike em todas as prateleiras

Primeiro, reze para haver o bendito carrinho-carrinho disponível. O carrinho-carrinho, diferentemente do carrinho de supermercado convencional, é aquele com forma de caminhãozinho ou pick-up (as mães me entenderam de cara, tenho certeza), no qual a criança pode entrar e fingir que dirige. Felizmente, de uns tempos para cá, alguma alma caridosa tirou as buzinas desses carrinhos porque antes disso, era uma barulheira infernal. O carrinho-carrinho (doravante chamado apenas de carrinho, para não encher a paciência) tem uns poucos espaços aqui e acolá, para o adulto colocar uns poucos itens. Além de ser pesadíssimo de empurrar, o carrinho é terrível de manobrar.

Também recentemente, outra alma não tão caridosa viu por bem tirar as portas de todos os carrinhos. Não sei se foi questão de segurança, para as crianças não apertarem os dedos, ou se foi por pura maldade com os pais, mas o fato é que agora qualquer ser humano com mais de dois anos tem total liberdade para entrar e sair da porcaria do carrinho quando bem entender.

Com o meu filho é assim. Depois da prece habitual para haver carrinhos, eu rezo para que ele esteja "desejando" o carrinho - porque tem dia que ele deseja a motoca, muito mais rara, e aí o carrinho não satisfaz de jeito nenhum.

Tudo vai bem... até a primeira curva, quando eu quero comprar itens corriqueiros como refrigerante e Pinho Sol e ele quer ir para a sessão de brinquedos. Eu sou leonina, ele é pisciano. Eu sou a mãe, ele é o filho. Eu tenho um metro e setenta, ele tem um metro. Munida de toda psicologia infantil e de certa força bruta, dou um jeito de convencê-lo a deixar a sessão de brinquedos (com uma bola de basquete oficial e uma betoneira em escala quase 1:1, que ocupa praticamente todo o espaço do carrinho) e seguimos em frente.

- Mamãe, eu quero Sucrilhos.
- Tá bom, filho.
- Nãããão. O do tigre.
- Tá bom. Vamos levar o do tigre.
- Nããããão. O do tigre de chocolate... pequenininho.

(Calma, Ana, guarde seus "nãos" para o momento certo.)

- Vamos pegar uma esponja de banho para você? Que tal essa linda, em formato de pé?
- De pé?
- É, filho, olha só que legal! Parece o seu pé. Vamos usar no seu banho. Aí, gente pode cantar "meu pé, meu querido pé, que me agüenta o dia inteiro, ô, ô..."
- Eu não queeeeero a de pé! Meu pé não é assim. Essa é feia. Quero a de lua!
- Mas a de lua, sua irmã já tem.
- Então eu quero a de coração. A de coração verde.

(Custava o dobro. Concordei, dividida entre a crença de que uma esponja de coração não era algo muito viril e sentindo-me ridícula por julgar a virilidade com base numa besteira dessas.)

Alguns itens depois, ele começou a perder a paciência. A dele, porque a minha, eu já havia perdido vários corredores antes. Quando perde a paciência, meu filho se levanta cada vez que o carrinho pára (alguém tirou as portas, lembram?). Levanta -se e sai correndo, desgovernado, para virtualmente qualquer lado. E eu, evidentemente, atrás dele. A única forma de mantê-lo dentro é não parando o carrinho. Agora, eu quero que alguém me diga como escolher, comparar preços E acomodar produtos no espaço exíguo do maldito carrinho SEM pará-lo. Parece uma maratona maluca, quase um jogo de basquete: eu empurro o carrinho com um pouco mais de força para frente e, aproveitando a inércia, vou pegando e atirando latas de molho de tomate e pacotes de macarrão dentro dele, rezando para não errar a mira e acertar algum transeunte desavisado. Depois, corro para aparar o carrinho, ainda em movimento, com filho dentro e tudo.

A pior parte é quando a falta de paciência se soma ao tédio. Aí, em vez de levantar do carrinho, ele estica a mão para fora e sai fazendo strike em todas as prateleiras. Ameaço amarrá-lo ao volante e ele abre um berreiro (não suporto criança que dá escândalo. Avisei antecipadamente a Papai do Céu que se os meus dessem, eu devolveria). Tento negociar uns 15 minutos de permanência no espaço infantil. Nada. Suborno com uma caixinha de suco de manga e ganho mais 3 minutos e 10 segundos, tempo suficiente para chegar, pálida e ofegante ao caixa.

- Pronto, mamãe. Primeiro, a minha betoneira (felizmente, a bola de basquete já havia ficado para trás.).
- Moça, por favor, qual é o preço da betoneira?
- Noventa e oito reais, senhora.
- O quê? NOVENTA E OITO??? Filho, a betoneira não vai.
- Mas eu "preciso" da betoneira!
- Não.
- Buáááá!
- Pode chorar à vontade. Não vamos levar.
- Então eu vou pedir pro papai!
- Ok. Quer meu celular?
- Buáááááááá!

Termino de pagar, enfio tudo de volta no carrinho - criança inclusive - e voltamos para o carro. Agora, só falta pôr no carro, tirar do carro, pôr no carrinho da garagem de casa, tirar do carrinho da garagem de casa e guardar tudo.

Ah, as coisas que a gente não faz nessa vida por comida...



Ana Téjo tem 37 anos, é publicitária, redatora, tradutora, nadadora, planejadora, cozinheira, mãe e escritora, quase nunca nesta ordem. Administra, sempre que possível, dois filhos elétricos, uma babá rabugenta, um trabalho eletrizante, uma mãe obstinada, um namorado apaixonante e uma vontade compulsiva de escrever.   Leia mais deste autor.





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