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Filhos na folia
Deixar o adolescente viajar sozinho é dar uma chance a sua autonomia
Por Ana Lúcia Prôa • 14/02/2007
A psicóloga Kátia Queiroz Leite estava comendo uma inocente casquinha de siri com as duas filhas, Liana, de 21 anos, e Marcela, de 17, num barzinho, quando ouviu a mais nova disparar para a mais velha: "Neste carnaval, estou pensando em viajar com nossos primos para a casa que eles alugaram em Floripa!". Kátia só faltou engasgar, e retrucou: "Ah, mas não vai mesmo". Pronto! Foi o estopim para uma discussão familiar, típica dessa época do ano. De um lado, filhos loucos para colocar o pé na folia e na liberdade, de outro, pais apavorados, vendo perigo em tudo. Mas, nessa hora inevitável, é preciso aprender a ceder e saber até que ponto devem-se impor limitações.
Kátia, por exemplo, libera viagens de Liana desde que ela tinha 19 anos. Mas, segundo ela, o caso de Marcela é diferente. "Quando comecei a deixar a Liana viajar sozinha, ela já estava na faculdade e trabalhava. Da primeira vez, ela foi para Porto Seguro com o namorado. Eu confiei porque nós sempre conversamos muito, sempre tivemos um jogo aberto. Já a Marcela é mais fechada. Eu não acho que ela irá fazer coisas erradas numa viagem com os amigos. Só acredito que ainda não tenha maturidade para isso", afirma a psicóloga.
Não bastasse ter de encarar pela primeira vez a decisão dos filhos de viajar com a galera, para algumas mães, o terror dessa experiência é ainda maior, levando em conta a época do carnaval. Mas, por outro lado, a psicóloga Cristina Werner considera este momento muito importante para ambos os lados: "É uma excelente oportunidade para o adolescente testar sua autonomia e desenvolver a autoconfiança. E também para os pais testarem a educação que deram aos filhos", acredita.
Um educação que, por sua vez, não deve ser iniciada na adolescência. "Desde cedo, os pais precisam estabelecer o desenvolvimento da responsabilidade dos filhos, em cima de tarefas envolvendo a escolaridade, a organização pessoal etc", explica Cláudia Pinna, psicóloga com especialização em Terapia de Família da Criança e do Adolescente. Assim, segundo ela, a família se prepara para os primeiros vôos de independência do adolescente. “Nesse tipo de viagem ele vai poder exercer tudo o que lhe foi ensinado desde a infância", comenta Cláudia.
Cristina Werner concorda. Para ela, é preciso cobrar do filho a arrumação de sua própria cama, que tire o prato da mesa, que cuide bem de suas coisas pessoais e ensinar-lhe a lidar com dinheiro. Assim, mais tarde, ele será competente na hora de se virar sozinho. “Antes de pensar em soltar o adolescente, é importante que os pais eduquem a criança para a independência", diz Cristina. "Quem trabalha bem o desenvolvimento da responsabilidade, avalia com mais tranqüilidade o momento em que o filho pede para viajar sozinho. Já os pais que superprotegem, ficam extremamente assustados", arremata Cláudia Pinna.
O motivo que mais os preocupa, no entanto, é o contato com sexo, drogas e álcool. Cristina Werner, que também é mestre em psicologia clínica e desenvolve um trabalho com adolescentes usuários de drogas, revela que realmente pode ocorrer uma facilitação para o uso de maconha e álcool nessas viagens. "Não vou dizer que é sempre, mas quando a 'galera' está viajando junta surge um clima mais propício a esse tipo de coisa. Quem está em grupo perde a identidade pessoal e passa a viver a identidade grupal. É difícil para o adolescente estar num luau, com todo mundo sentado numa roda passando o baseado, e, ao chegar a vez dele, não aceitar", comenta. É nessa hora que o diálogo aberto com os pais pode ser precioso. "É preciso falar diretamente sobre o assunto, explicando as conseqüências do uso de drogas. E devem dizer ao filho que ele não necessita participar de coisas com as quais não concorda", completa Cristina.
E quanto à dupla álcool e sexo, Cristina Werner é enfática: "O álcool relaxa e, se o adolescente vai transar na viagem, acabará esquecendo de usar camisinha. Esta deve ser a maior preocupação dos pais, para evitar uma gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis”, diz ela. Por isso, dar camisinhas para filhos e filhas levarem na mala não é um incentivo para que transem, mas sim para protegê-los.
Mas, mesmo diante de tanta liberdade, é preciso impor limitações ao adolescente que pretende pôr o pé na estrada. A primeira atitude é averiguar as informações que ele passa sobre a viagem: para onde vai, com quem, no carro de quem etc. "Os pais devem checar, sim. E até como uma proteção ao filho. Devem deixar bem claro que não estão fazendo isso por desconfiança, e sim porque precisam se cercar das melhores condições para ele curtir este momento", sugere Claudia Pinna. Outra medida necessária é pedir que o adolescente entre em contato com a família durante a viagem, como orienta Cristina Werner. "Os pais não podem deixar a coisa correr muito solta. Por isso, devem combinar um horário com o filho para que ele ligue para casa dando notícias", diz. Que, com jogo aberto das duas partes, serão sempre as melhores possíveis.
Ana Lúcia Prôa   Leia mais deste autor.
Kátia, por exemplo, libera viagens de Liana desde que ela tinha 19 anos. Mas, segundo ela, o caso de Marcela é diferente. "Quando comecei a deixar a Liana viajar sozinha, ela já estava na faculdade e trabalhava. Da primeira vez, ela foi para Porto Seguro com o namorado. Eu confiei porque nós sempre conversamos muito, sempre tivemos um jogo aberto. Já a Marcela é mais fechada. Eu não acho que ela irá fazer coisas erradas numa viagem com os amigos. Só acredito que ainda não tenha maturidade para isso", afirma a psicóloga.
Não bastasse ter de encarar pela primeira vez a decisão dos filhos de viajar com a galera, para algumas mães, o terror dessa experiência é ainda maior, levando em conta a época do carnaval. Mas, por outro lado, a psicóloga Cristina Werner considera este momento muito importante para ambos os lados: "É uma excelente oportunidade para o adolescente testar sua autonomia e desenvolver a autoconfiança. E também para os pais testarem a educação que deram aos filhos", acredita.
Um educação que, por sua vez, não deve ser iniciada na adolescência. "Desde cedo, os pais precisam estabelecer o desenvolvimento da responsabilidade dos filhos, em cima de tarefas envolvendo a escolaridade, a organização pessoal etc", explica Cláudia Pinna, psicóloga com especialização em Terapia de Família da Criança e do Adolescente. Assim, segundo ela, a família se prepara para os primeiros vôos de independência do adolescente. “Nesse tipo de viagem ele vai poder exercer tudo o que lhe foi ensinado desde a infância", comenta Cláudia.
Quem trabalha bem o desenvolvimento da responsabilidade, avalia com mais tranqüilidade o momento em que o filho pede para viajar sozinho.
Cristina Werner concorda. Para ela, é preciso cobrar do filho a arrumação de sua própria cama, que tire o prato da mesa, que cuide bem de suas coisas pessoais e ensinar-lhe a lidar com dinheiro. Assim, mais tarde, ele será competente na hora de se virar sozinho. “Antes de pensar em soltar o adolescente, é importante que os pais eduquem a criança para a independência", diz Cristina. "Quem trabalha bem o desenvolvimento da responsabilidade, avalia com mais tranqüilidade o momento em que o filho pede para viajar sozinho. Já os pais que superprotegem, ficam extremamente assustados", arremata Cláudia Pinna.
O motivo que mais os preocupa, no entanto, é o contato com sexo, drogas e álcool. Cristina Werner, que também é mestre em psicologia clínica e desenvolve um trabalho com adolescentes usuários de drogas, revela que realmente pode ocorrer uma facilitação para o uso de maconha e álcool nessas viagens. "Não vou dizer que é sempre, mas quando a 'galera' está viajando junta surge um clima mais propício a esse tipo de coisa. Quem está em grupo perde a identidade pessoal e passa a viver a identidade grupal. É difícil para o adolescente estar num luau, com todo mundo sentado numa roda passando o baseado, e, ao chegar a vez dele, não aceitar", comenta. É nessa hora que o diálogo aberto com os pais pode ser precioso. "É preciso falar diretamente sobre o assunto, explicando as conseqüências do uso de drogas. E devem dizer ao filho que ele não necessita participar de coisas com as quais não concorda", completa Cristina.
E quanto à dupla álcool e sexo, Cristina Werner é enfática: "O álcool relaxa e, se o adolescente vai transar na viagem, acabará esquecendo de usar camisinha. Esta deve ser a maior preocupação dos pais, para evitar uma gravidez na adolescência e doenças sexualmente transmissíveis”, diz ela. Por isso, dar camisinhas para filhos e filhas levarem na mala não é um incentivo para que transem, mas sim para protegê-los.
Mas, mesmo diante de tanta liberdade, é preciso impor limitações ao adolescente que pretende pôr o pé na estrada. A primeira atitude é averiguar as informações que ele passa sobre a viagem: para onde vai, com quem, no carro de quem etc. "Os pais devem checar, sim. E até como uma proteção ao filho. Devem deixar bem claro que não estão fazendo isso por desconfiança, e sim porque precisam se cercar das melhores condições para ele curtir este momento", sugere Claudia Pinna. Outra medida necessária é pedir que o adolescente entre em contato com a família durante a viagem, como orienta Cristina Werner. "Os pais não podem deixar a coisa correr muito solta. Por isso, devem combinar um horário com o filho para que ele ligue para casa dando notícias", diz. Que, com jogo aberto das duas partes, serão sempre as melhores possíveis.
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