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Minha bisavó materna teve vinte e quatro filhos em vinte e três gestações. Uma vez - só uma - teve gêmeos. Começou lá pelos quatorze ou quinze anos e seguiu em frente, sempre com o mesmo marido, tendo um filho por ano enquanto o corpo agüentou. E não morreu de parto, não. Morreu de amor, dizia vovó, nove meses depois da morte do marido. Soubemos que quando ele se foi, ela se deitou na cama e não levantou mais. Ficou ali, comendo o mínimo, triste, triste, até morrer também. Mesmo com dezenas de filhos na porta, mesmo podendo reclamar de tudo, menos de tédio, sua vida tinha perdido o sentido. Ainda não consegui concluir se acho a história bonita ou egoísta, mas não me cabe julgar.
Uma vez, fizemos as contas e chegamos à conclusão de que minha bisavó passou mais de dezessete anos grávida. É verdade que naquele tempo a medicina era bem menos evoluída e havia muito menos remédios. Por causa disso, minha bisavó perdeu alguns filhos ao longo da vida. Perdeu três de uma vez para a febre tifo (nessa ocasião, minha avó quase empacotou. Sorte que sobreviveu porque, caso contrário, eu não estaria aqui contando história), perdeu mais um ou dois para males diversos, mas tirando as perdas, era uma família imensa. Tanto, que em um almoço comum, de família, nunca havia menos de vinte pessoas à mesa.
É evidente que a bisa não tocava essa tropa sozinha. É lógico que no nordeste daquele tempo abundava mão-de-obra doméstica e que a comida era barata, mas imaginem só: se hoje em dia, a gente fica tensa quando vai receber dois ou três casais para jantar, era um desafio e tanto cozinhar para vinte ou vinte e cinco pessoas todas as refeições, todos os dias. E como não existia telefone, também era comum dois ou três filhos aparecerem com dois ou três amigos para o almoço. Assim, de surpresa. E a mesa de vinte subia para trinta num piscar de olhos.
Para alimentar tanta gente, nada de panquecas, empadas e outros mimos individuais. Para um batalhão, comida de batalhão, para fazer em panelão; para poder aumentar a qualquer momento, em caso de necessidade; para poder ser requentada e para ficar pronta de uma vez só.
O cozido é uma santa invenção porque, além de prático, é super versátil e customizável de acordo com a época e com a oferta do mercado. Assim, vou listar aqui embaixo uma porção de ingredientes básicos, mas sinta-se à vontade para tirar ou pôr coisa se trocar o que você não gosta pelo que prefere. No meu cozido, por exemplo, não entram músculo nem chuchu. E eu não estou nem aí se algum dos meus convidados for louco por músculo ou por chuchu. Eles que façam o cozido deles, ué!
Cozido para doze a quinze pessoas (na casa da bisa, em dias normais, faziam o dobro dessa receita)
1,5 kg de carne de vaca (ponta de peito ou fraldinha), cortada em cubos
1 kg de músculo
1 kg de carne seca com pouca gordura
500 g de costelinha e lombinho defumados
1 kg lingüiça portuguesa, cortada em rodelas grossas de mais ou menos 1,5 cm
500 g de paio, cortado em rodelas grossas de mais ou menos 1,5 cm
100 g de bacon
3 cebolas picadas
3 tomates picados
4 dentes de alho, amassados
Salsinha,cebolinha, folhas-de-louro coentro (no meu não vai coentro nem por decreto!Vocês sabem), amarrados com um barbante
Aipim, cará, inhame e mandioca a gosto
4 espigas de milho verde, cortadas em três partes
2 kg de batata inglesa, cortada ao meio ou em três partes, se forem muito grandes
4 batatas-doces
5 cenouras, cortadas em rodelas grossas de cerca de dois dedos
1 nabo cortado em rodelas grossas de cerca de dois dedos
6 bananas-da-terra ou nanicas, cortadas em três partes, com casca
5 cebolas inteiras
2 chuchus
1 kg de abóbora, cortada em cubos grandes
300 g de couve-de-bruxelas
1 repolho cortado em quatro ou seis pedaços
1 maço de couve cortado em tiras
5 ovos cozidos
Farinha de mandioca torrada para o pirão
Sal e pimenta a gosto
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