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Chega o Natal e, com ele, aquela atmosfera quase mágica que inspira muita gente a demonstrar sentimentos de amor e fraternidade. Não à toa, aumenta neste período a quantidade de doações a instituições e pessoas carentes. As campanhas de ajuda e os trabalhos voluntários também costumam se intensificar, tentando despertar o famoso "espírito de Natal". Mas, para quem precisa, o importante mesmo é que essa consciência solidária não se perca totalmente durante os outros meses do ano...
A professora Cláudia Ramos, 45 anos, doa alimentos e roupas para instituições de caridade há mais de dez anos. "Sempre me identifiquei com asilos e pessoas mais velhas. Então, decidi começar a procurar essas casas para contribuir", conta ela, que a cada ano convence uma nova pessoa a ajudar com doações: "O primeiro que convenci foi o meu marido, que hoje arrecada agasalhos com colegas de trabalho. Mesmo que eu não possa ir com freqüência, todo fim-de-ano junto sacolas com mantimentos e mando para as instituições. Sempre questiono se em vez de torrar a grana com presentes, por que não doar um pouco do que temos para quem realmente necessita?", diz. Cláudia também considera a idéia de ingressar no voluntariado. "Estou pensando em fazer um projeto na escola municipal em que trabalho. Sinto que preciso apoiar aquelas crianças de forma mais efetiva", revela a professora.
Ela não é a única. A assistente administrativa Daniele Souza, 27 anos, sempre gostou de ajudar crianças. Há um ano e meio faz trabalho voluntário na Casa de Passagem, Rio de Janeiro. O local, que não possui CNPJ, funciona na residência de uma amiga dela e abriga 14 crianças, com idades entre três meses e oito anos moradoras de rua ou vítimas de violência doméstica. Essas crianças vão para a Casa de Passagem através do juizado de menores e ficam lá provisoriamente, até serem adotadas ou reintegradas às famílias. Enquanto ficam ali, recebem cuidados, alimentos e contam com o acompanhamento de psicólogos e assistentes sociais. "Estamos tentando realizar campanhas de doação todo mês, mas realmente é em dezembro que os donativos aumentam, por causa do Natal", relata Daniele, que procura divulgar o projeto pela internet e através de amigos. "Buscamos pedir o ano inteiro, pois as crianças estão sempre lá e não apenas no final do ano", alerta.
A inspiração de Daniele veio de um trabalho anterior, em que ela fazia doações a mães e crianças portadoras do vírus HIV. "Comecei ajudando no projeto da Renata Cholbi, que levava leite e brinquedos ao Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro", relembra. O projeto de Renata hoje atende pelo nome de Movimento de Apoio à Inclusão Social no Brasil (MAIS Brasil) e atende 40 famílias com parentes soropositivos. "Nós cadastramos as mães que se tratavam no Hospital dos Servidores e entregamos cestas alimentos e itens de primeira necessidade às suas famílias mensalmente", explica a idealizadora.
Além das doações, feitas por pessoas que conheceram o trabalho através da internet, a organização ainda conta com o apoio de profissionais, como nutricionistas e infectologistas, que dão palestras voluntariamente às portadoras do vírus. Renata, de 38 anos, enfatiza que essas mulheres precisam comprovar que estão realizando o tratamento médico adequadamente e que seus filhos freqüentam a escola para receberem o benefício. "Sou muito racional, gosto de saber do que é concreto. E ver que elas estão se cuidando me deixa feliz, principalmente depois que me tornei mãe e passei a me preocupar mais com isso. Acho que quando essas mulheres que sofrem com a doença são tratadas com dignidade, elas ganham uma estrutura emocional boa para cuidar das crianças", diz Renata.
Há dois anos, Renata Cholbi recebe as doações na sua casa, que virou uma espécie de depósito. Mas ela e suas colaboradoras esperam em 2008 alugar um imóvel para atender às mães e fazer as arrecadações. "É um dos nossos projetos para o próximo ano. Neste local também queremos abrir um espaço para que possamos ouvi-las. Além disso, pretendemos montar as cestas quinzenalmente, e não só uma vez por mês. Nossa idéia agora é formar uma cooperativa para que essas mães possam se auto-sustentar", afirma Renata. O MAIS Brasil, que começou pequeno, com uma iniciativa simples de Renata através do site de relacionamentos Orkut, está crescendo. Para ela, a responsabilidade de levar adiante um trabalho como este é grande. "Tem muita gente que doa como se isso fosse uma 'terapia'. Mas não pode ser assim. Você precisa saber por que está fazendo aquilo", diz.
Retorno à infância
A psicóloga e psicanalista Marília De La Cal afirma que as pessoas costumam ser mais solidárias no fim-de-ano porque o período remonta ao passado e a sentimentos amorosos de origem infantil: "O Natal desperta em nós sensações e sentimentos naturais da infância, época em que, geralmente, acontecem boas coisas e somos mais espontâneos, demonstramos mais afeto. Isso faz com que as pessoas se tornem mais próximas e se vejam um pouco mais como semelhantes", explica Marília, que acredita que este "retorno à infância" resgata aspectos que às vezes são esquecidos no cotidiano. "Por ser também um momento de pausa e, portanto, de reflexão, costumamos nos lembrar mais daqueles que precisam de ajuda, o que não é tão comum em meio ao corre-corre diário de outros meses do ano", diz a psicóloga.
E como não lembrar da infância ao ver símbolos natalinos tão recorrentes como o Papai-Noel? Como adultos, porém, podemos fazer a alegria de muitas crianças nos tranformando no "bom velhinho". Foi baseado nesta idéia que surgiu o projeto "Papai-Noel dos Correios", que todo ano conta com milhares de voluntários empenhados em realizar os desejos dos pequenos que sonham em ganhar um presente de Natal. Em 2006, os Correios receberam 501.605 cartas de crianças de todo o Brasil endereçadas ao "Papai-Noel". Dessas cartinhas, 177.549 foram respondidas e 226.934 adotadas por pessoas que resolveram atender aos pedidos contidos nelas. As crianças normalmente pedem coisas simples, como bonecas, carrinhos e alimentos. Cartas com pedidos mais requintados são descartadas.
Para quem quer ajudar, não só no fim do ano, mas em qualquer época, o site Ajuda Brasil possibilita aos internautas o acesso a informações sobre várias entidades brasileiras que precisam de apoio - sejam doações em dinheiro, alimentos, produtos não-perecíveis ou trabalho voluntário periódico. É possível fazer pesquisas por estado e por "causa". Na primeira página, também se encontra o espaço "emergências", que divulga as campanhas mais recentes ou urgentes das entidades. Daniele Souza destaca a importância da divulgação de organizações que ajudam pessoas carentes ou com dificuldades: "Todo tipo de informação é de grande valia para demonstração da seriedade dos trabalhos", conclui.
Mônica Vitória   Leia mais deste autor.
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