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Ele não nos carregou por nove meses na barriga e nem sentiu as tão temidas dores do parto, atenuantes para qualquer mulher ter supremacia em relação aos filhos. Também não costumamos nos espelhar em seus trejeitos e muito menos na forma que ele se veste. E, talvez, certas dúvidas, quanto a algumas questões femininas, se tornem vez ou outra embaraçosas para ambos. Mas para aquele pai que é uma verdadeira mãe, estes não são argumentos suficientemente sólidos para lhe furtar o direito de dar vazão a seus instintos de cuidar das crias.
Atualmente, muitos pais não se contentam mais apenas com o papel de provedor, que a sociedade há tempos definiu. Trocar fraldas e dar de mamar era visto como coisa de mulher. E, hoje, eles rasgaram a velha cartilha, que mostrava o que era atribuição do papai e o que era da mamãe, para arregaçar as mangas do paletó e cuidar pra valer dos filhos. A terapeuta familiar Vera Risi traça um perfil da família através dos tempos para explicar essa nova forma de exercer a paternidade. “O pai dos anos 50 era apenas provedor e pouco afetivo, tarefa que cabia à mãe. Nos anos 70 e 80, os homens começaram a expressar afetividade com os filhos e, por causa do amor incondicional que tinham, se tornaram pais extremamente permissivos. Já nos anos 90 e 2000, como a maioria das mães trabalha, passou a existir uma demanda da participação do pai no cuidado dos filhos”, descreve Vera.
O biólogo Márcio Figueiredo orgulha-se de ter sido um pai que fez e ainda faz as honras de mãe para os filhos. “A mãe deles era um pouco impaciente. Então, quem brincava, ensinava e ia à escola era eu. Agora, eles estão adultos e com filhos, e sobrou pra mim virar avó”, brinca Márcio. A filha de Márcio, Manuela Figueiredo, conta que seu pai fez coisas surpreendentes quando ela era pequena e não tinha com quem brincar. “Ele brincava de boneca comigo e chegou a tentar fazer um vestido de noiva para a minha Barbie, acredita? Lembro dessas coisas com muita saudade, e fico feliz da minha filha também desfrutar desse lado bacana dele. Quando saio de noite, é na casa dele que ela fica e não na da minha mãe”, diz Manuela.
Para Maria Tereza Maldonado, autora do livro “Comunicação entre Pais e Filhos”, da Editora Saraiva, alguns fatores colaboraram para essa transformação do pai em uma mãe. “A mulher, hoje, está mais inserida no mercado de trabalho, deixou de ser a única cuidadora para ser também provedora junto com o pai. Por isso, tornou-se necessário que homens e mulheres partilhem funções”, comenta a psicóloga, afirmando ainda que a mudança da maneira do homem pensar foi fundamental para que tudo isso acontecesse. “O homem teve que se atualizar até mesmo para não ficar sem função dentro da família. Se a mulher sustenta a casa, cuida dos filhos e arca com as própria atitudes, pra quê marido que não participa?”, indaga Vera Risi.
Já outros homens são obrigados a se entender, querendo ou não, com fraldas, mamadeiras e tudo mais que diga respeito ao universo dos filhos, por motivos como separação ou viuvez. “Quando me separei, a minha maior dificuldade era ficar longe das crianças. Queria que não fossem apenas visitas e, sim, que elas tivessem também uma rotina de casa comigo. Passei a pegá-las no colégio, a fazer jantar e a passar finais de semanas inteiros tratando de tudo sozinho, até tênis eu lavava”, conta o engenheiro Fernando Marques, que hoje está casado novamente com mais um filho e uma esposa, que não tem o que reclamar das noites em que o bebê resolve dar uma esticada. “Eu ficava impressionada com o cuidado do Fernando com as crianças. Achava tão bonitinho elas saindo de mochila para a escola e o Fernando de pasta para trabalhar, perguntando se tinham guardado o lanche. E o bom disso é que ele se tornou superpreparado como pai do meu filho, fica quantas horas for com o Gabriel no colo tentando fazê-lo dormir de madrugada”, revela Ana Paula, mulher de Fernando.
Maria Tereza Maldonado acredita que a mudança do conceito familiar também contribuiu bastante para que os pais assumissem outra postura com a criação dos filhos. “O pai separado ou viúvo precisa desenvolver aspectos de cuidador, como conferir se o filho lavou a orelha direito e se a casa está funcionando em ordem. Por mais que ele tenha quem o auxilie nessas tarefas, o comando é dele”, diz ela. E para quem ainda tem preconceito quanto a um homem na cozinha, de avental sujo de ovo, com a filharada em volta, aí vai uma informação: a Legislação Brasileira já deu o direito de qualquer um que tenha condições, mesmo um homem solteiro, adotar uma criança. No mais, a regra é clara: toda criança merece carinho, cuidado e atenção.
Marcella Brum   Leia mais deste autor.
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