• Crédito: Pacha Urbano


Despertando para o sexo
É inevitável: chega uma hora em que a curiosidade pelo sexo desperta nas crianças e os pais são bombardeados com perguntas constrangedoras. Mas acreditem, as melhores respostas, nessas situações, são as mais sinceras.
Por Laura Jeunon • 06/08/2005

"Papai, por que a Beatriz faz pipi sentada?", ou ainda “Mamãe, de onde eu vim?”. Se seu filho te faz uma pergunta dessas, é muito capaz que você precise de um tempo - ou até uma eternidade – para responder. Infelizmente, mesmo nos dias de hoje, ainda é extremamente difícil para os adultos discutir a sexualidade infantil. Apesar de ser um tanto comum, o silêncio é o gesto menos carinhoso que os pais, que ficam perplexos com os questionamentos de suas crianças, podem lhes oferecer. O Bolsa foi a fundo no processo de descoberta da sexualidade por parte dos pequenos, para que você desenvolva uma forma mais tranqüila e construtiva de reagir a interminável curiosidade dos rebentos. Se prepare, porque questões de peso, como masturbação infantil e brincadeiras sexuais, entram nessa discussão.

É muito importante que os pais considerem a curiosidade de seus filhos quanto à sexualidade algo vantajoso. Mais do que isso, esse interesse é desejável, uma vez que é fundamento para o bom desenvolvimento social e psico-emocional das crianças. “A curiosidade infantil é um impulso natural da criança, que tem como objetivo tentar estabelecer, constantemente contatos com o mundo exterior fascinante que a rodeia. A maioria das perguntas que ela faz relaciona-se ao setor sexual, já que a curiosidade sexual faz parte da curiosidade geral. O adulto deverá responder a cada pergunta com uma resposta o mais próxima possível da verdade, sendo benevolente e compreensivo e levando sempre em conta a idade da criança. É destas respostas que dependerá muito a formação sexual infantil”, esclarece Vera Soumar, lembrando que as perguntas relacionadas a sexo podem começar a surgir quando o filho ou filha está com dois anos de idade.

Toda criança, independentemente de sua faixa etária, tem a necessidade de conversar e saber a respeito do tema. E o ideal é que os pais sejam a principal fonte desse conhecimento, evitando que o filho adquira informações incorretas e inadequadas. “Uma das descobertas mais importantes da criança é a sua atitude em relação ao próprio corpo. Parte da sua auto-imagem é o conhecimento de que ‘eu sou menino’ ou ‘eu sou menina’”, afirma Vera. As infindáveis perguntas que deixam os adultos sem resposta é parte fundamental do processo de se dar conta das diferenças sexuais, ou seja, de que o universo dos meninos é diferente do das meninas. “A criança vai querer saber de onde veio, como foi feita e tudo mais, porque e para quê é diferente do outro. Esta curiosidade desperta outras em relação ao mundo, mas o desejo de saber sobre a sexualidade é a base”, assegura a psicanalista Angela Rabello.

Tudo bem, mas, então, como fazer para educar bem sexualmente? É claro que não existe um manual, com receitas prontas sobre educação sexual, pois cada família e criança são diferentes umas das outras. “Entretanto, eu percebo que as dúvidas dos pais são semelhantes, sendo a principal delas sobre o momento de quando falar tudo ao filho ou filha. Acredito que a hora certa de responder é quando a criança perguntar, pois já estará pronta para receber respostas adequadas. E devemos esperar que ela volte a perguntar sobre o mesmo assunto, pois não se satisfará com a informação fornecida da primeira vez. Os pais devem responder quantas vezes forem perguntados e elaborando sempre mais as respostas, dando maiores detalhes à medida que a criança for amadurecendo”, aconselha a psicóloga.

Se você está ficando muito embaraçado na hora de responder a algumas questões, uma ótima solução é ler para seu filho ou filha. “Aquilo que os pais não souberem responder pode ser dito, digamos assim, através de livros infantis que ilustram bem a questão sexual. Existem muitos hoje e próprios para cada idade. Isso é bom porque também estimula também a entrada no universo dos livros e, posteriormente, do hábito da leitura”, recomenda Angela Rabello.

Brincadeiras sexuais

Outros comportamentos que costumam horrorizar os pais são as brincadeiras sexuais. Você sabe, o conhecido brincar de médico – e suas variações... “As brincadeiras de médico nada mais são do que experiências para conhecer o próprio corpo e o do outro e os prazerem que estes despertam”, ameniza Angela Rabello. Para nós, adultos, que, com o passar dos anos, adquirimos, como se diz, mentes bastante poluídas, é difícil de entender que, para as crianças, o sexo ainda tem um significado de autoconhecimento. “Para ela, a questão é, simplesmente, descobrir o próprio corpo, sem a intenção de seduzir, de procurar o outro, como acontece no adulto”, esclarece Vera Soumar.

Mesmo aprendendo que as brincadeiras sexuais não só são normais como importantes para o desenvolvimento da sua cria, isso não significa que você deve deixar de estar atenta ao seu comportamento. Em companhia de quem o seu filho ou filho brinca de sexo é um detalhe de extrema importância. “Desde que essa curiosidade sexual seja satisfeita com crianças do mesmo tamanho que as de seu filho, o que significa que todos tenham entre três e cinco anos, não há problema algum”, restringe Angela.

Masturbação

Se brincar de médico espanta os adultos, ver um pequenino se masturbando, então, pode levá-los a arrancar os cabelos. Mas quem já é gente grande precisa entender que a descoberta dos órgãos genitais e os prazeres ligados a eles são naturalíssimos. “Assim como descobre os pés, as mãos, brinca inventando os mais incríveis sons, a criança também procura os órgãos sexuais e chega ao prazer com a mesma espontaneidade com que cria novas brincadeiras. Isso não tem uma idade certa para acontecer, depende apenas da oportunidade e da atitude dos pais, que liberam ou cerceiam suas chances de chegar a essa descoberta”, explica Vera.

A masturbação acontece num momento em que tudo é novidade e experimentação e reprimir a criança pode não ser a melhor atitude a se tomar. Até mesmo se o pai ou a mãe simplesmente se mostrarem abalados com o ocorrido, está dado o primeiro passo para complicar a situação. “A criança passa a achar que está fazendo algo feio, proibido, pode se sentir culpada ou usar isso como forma de atingir a autoridade dos pais. Ou, no mínimo, vai considerar aquilo como uma atividade cheia de mistérios, a qual os pais não dão valor. Na verdade, essa fase da masturbação é necessária, pois após esgotar sua sede de autoconhecimento, a criança poderá se interessar realmente pelo que acontece no mundo externo”, conclui Vera Soumar.


Laura Jeunon   Leia mais deste autor.





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