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Argh!
Saiba o que fazer quando você não gosta do que é servido à mesa
Por Ana Téjo • 12/03/2008

Na casa da minha infância uma das frases preferidas do meu pai era "não tem ‘não gosto'", que significava, basicamente, duas coisas:

1- Tudo o que fosse preparado na cozinha e levado à mesa tinha que ser consumido integralmente.

2- E ponto final.

Para minha danação, meu pai era um sujeito cheio de idéias, que adorava cozinhar nos finais de semana. E tem mais: meu avô era alemão e minha avó, suíça-francesa. E por que será que eu estou contando tudo isso, não é mesmo? É que ascendentes europeus nascidos no início do século XX são, necessariamente, pessoas que passaram por duas Grandes Guerras e que aprenderam a lidar com a escassez de comida, maximizando e inovando nas receitas. Assim, aproveitava-se tudo de tudo, o tempo todo. Talos e folhas de vegetais como beterrabas e cenouras e vísceras de animais eram excelentes motivos para fazer uma sopa ou um guisado.

Posso sentar-me com quem for à mesa e traçar um prato de miolo de macaco cozido, tripas de urso, carne de cavalo (ou de cachorro), testículos de bode ou gafanhotos fritos, sem mover um músculo

O tempo passou, a guerra acabou, mas a cultura do aproveitamento máximo permaneceu. Aliás, essa cultura, muito mais do que dos europeus, descende de qualquer povo submetido a privações. É o velho e bom instinto de sobrevivência se manifesta. Um bom exemplo é a nossa maravilhosa feijoada, criada pelos escravos africanos para aproveitar os restos de porco rejeitados pelas Casas-Grandes.

Mas voltemos à casa da minha infância. Não era raro meu pai voltar das compras de sábado com tripas, língua ou miolos para o almoço. Eu estremecia só de olhar o formato do pacote e preciso confessar que não tenho boas lembranças desses almoços. Na época, eu não aceitava, nem entendia essas sessões de tortura que, segundo meu pai, "me dariam uma segurança imensa quando eu fosse grande".

Hoje, sou obrigada a reconhecer que ele tinha uma certa razão. Posso sentar-me com quem for à mesa e traçar um prato de miolo de macaco cozido, tripas de urso, carne de cavalo (ou de cachorro), testículos de bode ou gafanhotos fritos, sem mover um músculo, de forma que meu anfitrião (e torturador) jamais desconfiará o quanto eu odeio tudo isso. Agora, será que isso é motivo de orgulho? Até que ponto você, leitora elegante, deve aceitar goela abaixo uma gororoba dos infernos em nome da boa educação?







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