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Amor de pai
Esse sentimento é fundamental para o pleno desenvolvimento da criança
Por Gilse Barbosa Guedes • 01/08/2008

Para o bebê, a mãe é figura central. É ela que o carrega durante nove meses, o amamenta, acalenta e cria com ele uma relação praticamente simbiótica. Se meter nessa intensa ligação, é tarefa somente para o pai - que não só pode como deve fazer parte dessa troca de sentimentos e experiências. A falta desse contato pode prejudicar o desenvolvimento e o amadurecimento da criança, com reflexos na vida adulta.

Uma pessoa narcisista, sem a noção de limite, com reduzida capacidade de aceitar frustrações e de negociar. Assim pode ser uma criança que cresceu sem desgrudar da mãe. Psicólogos e psicanalistas lidam diariamente com gente grande e pequena com esse tipo de comportamento. Muitas vezes, fazem uma pergunta simples, mas de contornos complexos na busca da resposta: cadê a figura paterna nessa história?

Antes da ‘entrada' do pai, há um trabalho prévio da mãe, que deve abrir a porta do quarto do bebê para ele entrar. Há mães que não fazem isso

Quase sempre, os profissionais se deparam com a realidade de um pai ausente ou que não soube exercer seu papel. Para a psicanálise, o exercício da função paterna é crucial na trajetória de vida das pessoas. Biológico ou adotivo, o pai é aquela pessoa encarregada de introduzir o sujeito no mundo, segundo o psicanalista Jubel Barreto."Ele é o encarregado de desfazer esse idílio mãe-bebê, de instituir que a mãe não pode ser objeto totalizador de todos os desejos da criança. O pai, tomando a mãe de volta para si por ser ela a sua mulher, está mostrando ao filho que ele tem de renunciar à idéia de que somente a mãe será a sua realização", diz Barreto.

Em troca, o pai estará dando à criança o direito a entrar no jogo das relações do mundo. "Ela vai abrir mão dessa ilusão narcísica para entrar no regime de negociação, de pacto", afirma o psicanalista, ressaltando que o exercício paterno bem-sucedido depende também de um esforço da mãe. "Antes da ‘entrada' do pai, há um trabalho prévio da mãe, que deve abrir a porta do quarto do bebê para ele entrar. Há mães que não fazem isso. Que não reconhecem que há o momento de entrada do outro. O trabalho dela é de progressiva separação", revela Barreto. Nessa fase, a criança começa a se ver como uma unidade e não como extensão da mãe. Esse momento é o que precede à socialização. Isso acontece entre os seus 4, 5 ou 6 anos de idade.

Desde a barriga...

Na gestação, nascimento e acolhimento da mãe e do bebê, o pai tem um papel importante. Com sensibilidade, ele pode ajudar a mulher a sair do idílio com o filho - tão necessário no início de vida do bebê - para voltar a cumprir distintas tarefas e se realizar com outras atividades. O marido pode ainda auxiliá-la a resolver problemas rotineiros nos cuidados com neném e ajudá-la a não entrar no caminho da depressão pós-parto.

"Nos primeiros seis meses de vida, a formação psicológica da criança está acontecendo. Esse período requer uma simbiose mãe-bebê, os dois estarão misturados. A mãe, nesta fase, tem uma sensibilidade muita aguçada, o que lhe dá melhores condições para atender ao filho", afirma a psicóloga Heloísa Marton. Então é o o pai quem ajuda a mãe a se separar do filho. Se nos primeiros meses o grude mãe e filho é necessário, o distanciamento começa a ser importante. "O pai tem de estar próximo. Depois dos três meses, o pai tem de começar a levar a mãe para a vida adulta. Requisitá-la para dar umas saídas, por exemplo", declara a psicóloga.

Sem a participação do pai, há uma forte tendência de haver prejuízos no desenvolvimento da criança. No seu consultório, Heloísa Marton tem acompanhado muitos casos de ausência paterna na educação dos filhos e no cuidado com a mãe. "Até por um ciúme inconfesso, pais deixam as mães sozinhas. Em vez de assumir o sentimento, trabalhá-lo ou até mesmo disputar a mãe, eles simplesmente preferem abandoná-la. E ela, sem ajuda, tende a se fechar, e não consegue sair da simbiose com o bebê depois dos três, quatro meses", relata. Segundo Heloísa, quando se tem um filho, a parceria entre os pais deve ser plena. "Ajudar materialmente na criação dos filhos é pouco. Às vezes, até vale a pena um sacrifício financeiro, ganhar menos, trabalhar menos para estar mais com a família".

Longe dos olhos, perto do coração

E separação não é pretexto para ficar longe dos cuidados com a prole. Pai de quatro filhos, frutos de dois casamentos, o deputado federal Chico Alencar (PSol-RJ) conta que tem uma boa relação com suas ex-mulheres e que o resultado na formação de seus filhos é um conforto na hora da saudade.

"Não moro com eles, mas nos vemos com razoável, e sempre insuficiente, freqüência. Esta semana mesmo eles deixaram um recado pra mim, em Brasília, dizendo em coro: ‘Pai, estamos aqui como você gosta, todos juntos, conversando muito. Saudades, beijos'. Fiquei emocionado", lembra Chico, pai de Emanuel, 26 anos, Ana, 22 anos, Lia, 20 anos e Nina, 14.

Chico Alencar diz que o bom relacionamento com suas ex-mulheres, Angela e Cláudia, lhe dá um norte. "A parceria tem funcionado com a gente, inclusive as mães dos meus filhos são amigas entre si. Conversamos razoavelmente sobre o desenvolvimento dos meninos, especialmente quando algum está com ‘defeito', falhando aqui e ali. As mães têm muito mais percepção e sensibilidade para o que ocorre com cada um, e me orientam muito, até mesmo quanto ao papel que devo exercer, cobrando também mais presença e acompanhamento", conta o deputado.

A figura paterna

Heloísa Marton afirma que o pai tem imagens distintas para meninos e meninas. Mas, para ambos, sua presença é indispensável. Afinal, sua atuação é importante para que os meninos se percebam como homens; e, para as meninas, um pai dá segurança quando é confiável.

Pai de Elisa, de 3 anos, o eletrotécnico Carlos Alberto Nogueira Baptista sabe que sua filha o vê com um olhar diferente. "Ela acha que eu posso protegê-la do perigo todas as vezes que sente medo. Quando precisa de carinho, ou está doentinha, ela procura a a mãe", afirma. Apesar de ser visto como o forte pela sua filha, Carlos tem consciência que a autoridade, função muitas vezes atribuída ao pai, também pode e deve ser delegada à mãe. "Lá em casa, não é só eu. A gente segue um instinto e divide nessa função. Mas muitas mães são obrigadas a cumprir o papel de pai. A minha também foi pai. E também uma heroína", diz Carlos, que perdeu o pai quando tinha 2 anos de idade.



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