• Crédito: Pacha Urbano


A união faz a saúde
Na hora de mudar os hábitos em função de um tratamento de saúde, a participação da família do doente é fundamental. É a chance de transformar o período difícil em oportunidade de desenvolver o afeto e a consciência sobre si.
Por Fernando Puga • 13/08/2005

Ficar doente, quem é vivo, fica. E todo mundo sabe que família é fundamental nessas horas. Tanto nas prosaicas gripezinhas de ocasião - quando cama, vitamina C e mimos de mãe, marido, mulher e filhos são igualmente potentes para trazer saúde e disposição – quanto nos problemas mais sérios, que exigem mudanças dos hábitos de vida durante o tratamento. Nessas horas, então, o apoio de quem está em volta pode ser decisivo. Um tremendo estimulante que, aplicado na dose certa, consegue transformar o período difícil numa grande oportunidade de rever desde o prato que se come aos relacionamentos dentro de casa.

Quando descobriu um tumor benigno que, em compensação, bagunçou todas as suas taxas de colesterol e glicose, a professora Marília Câmara se viu, ela confessa, muito mais apavorada diante da dieta do que da gravidade do seu caso clínico. "Eu precisava cortar tudo, fazer uma alimentação de diabético. Como sempre fui muito boa de garfo, trocar os docinhos e as pequenas bobagens por comida completamente sem gordura e sem açúcar acabou me deixando abalada. Moro com meu filho, minha mãe e meu irmão e tinha certeza de que ia ficar completamente isolada com meu prato de grelhados e saladas, enquanto a família se deliciava com lasanha e torta de sobremesa", conta ela. Só que Marília fez um juízo um tanto cruel de seus companheiros de teto. "Todo mundo ajudou e aproveitou a chance pra melhorar a alimentação. Até meu filho de seis anos evitava comer chocolate na minha frente. Aquilo me fez sentir muito querida por todos e me conscientizou da importância desses novos hábitos", lembra a professora.

Já na casa do jornalista Júlio Aciolly, as coisas não foram tão fáceis. Preocupada com a recuperação de um infarto sofrido por ele, sua mulher acabou errando a dose dos cuidados. "Ela ficava me vigiando o dia inteiro para não me deixar fumar, não me deixar sair da dieta, me controlando. Isso me aborreceu demais no começo, me senti uma criança de cinco anos de idade que não tem consciência de suas atitudes", reclama ele. Com o tempo e uma boa conversa, o casal foi acertando o princípio ativo do remédio certo. "De alguma forma, ela acabava puxando pra si as responsabilidades sobre mim e isso me levava a encarar mudanças como parar de fumar como grandes sacrifícios, sem enxergar claramente o lado positivo dessas transformações. Quando entendi o valor disso, tudo passou a ser muito mais natural para mim porque vi que o que estava em jogo era a minha saúde, não simplesmente atender às exigências da minha mulher", conta ele.

A psicoterapeuta Amaryllis Schvinger, que se especializou no acompanhamento psicológico de cardiopatas, confirma que esse tipo de mudança só ocorre de modo satisfatório quando é da vontade e da compreensão do próprio doente. E ressalta que o comportamento ambivalente de cobrança e proteção pode mesmo ser prejudicial nesse processo. "Para a pessoa fragilizada, isso acaba acentuando o lado ruim do tratamento. Pode até deserotizar um casamento porque esse tipo de cobrança confunde os papéis de homem e mulher com o de mãe e filho.
Num clima amoroso, não de cobrança, é o relacionamento afetivo que mostra como o outro é importante e o ajuda a tomar consciência de sua mudança", afirma ela. O segredo, segundo Amaryllis, é não deixar que o medo seja a semente da preocupação. "O caminho é valorizar o presente. É importante viver a crise encarando-a como oportunidade, não como perigo. Uma chance de olhar o mundo e a si mesmo para ver o que realmente vale a pena", conclui ela.


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