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"Sonia, venho guardando uns poucos vinhos numa velha geladeira, que deixei na lavanderia aqui de casa só para esse fim. Ouvi falar que isso não é bom, pois as rolhas ressecam. É verdade? Que outro lugar poderia guardar meus vinhos em casa?"
Querida leitora, ligada e numa temperatura constante, a geladeira é o pior lugar possível para guardar vinhos permanentemente. Sim, as rolhas vão ressecar, deixar o ar entrar e o líquido sair. Funciona só se ficarem muito pouco tempo: digamos, uma semana. Além disso, as geladeiras comuns vibram - e os vinhos precisam ficar em paz, quietos, caso contrário, os elementos que o constituem vão se confundir, se desestruturar. Pense num ônibus lotado, andando aos solavancos.
Os climatizadores são, na verdade, geladeiras que "funcionam mal", desligam-se mais vezes, permitindo um ambiente com umidade controlada, de modo a não ressecar as rolhas (sabemos o que acontece ao deixarmos a porta de um refrigerador mal fechada: em três tempos, tudo lá dentro fica gotejando). Além disso, mal vibram. Na falta de uma adega climatizada, buscaria um lugar escuro, o mais fresco da casa, como aquele cantinho debaixo da escada. Num apartamento sem cantinhos ou escadas, eu evitaria fazer uma adega. Compraria vinhos apenas para o dia-a-dia ou para um jantar especial.
"Qual o preço do conhaque Louis XIII Grand Champagne Très Vielle, da Remy Martin?" (Leitora possui uma garrafa deixada pelo seu pai, ainda no estojo original guardando uma bela garrafa de cristal Baccarat).
Apresar de ter procurado, não encontrei essa preciosidade em lojas brasileiras. Na França, numa loja especializada de Cognac, região onde o Louis XIII foi produzido, custa US$ 2.652,00. Imagine o seu preço ao chegar numa importadora daqui.
Por que tão caro? O Louis XIII é composto de mais de 1.200 dos melhores conhaques da Remy Martin, envelhecidos entre 40 e cem anos, em barris de carvalho da região de Limousin. Estima-se que cada garrafa teve a influência de pelo menos três gerações de mestres de adega (os encarregados pelos blendings) e do trabalho combinado de dez mil pessoas. Cada garrafa é feita à mão e exclusiva. Falam que as impressões de seus sabores permanecem em nossas bocas por uma hora. Seu fosse a leitora, ficaria com o Louis XIII e aproveitaria cada gota dele, brindando sempre a lembrança do pai. Caso resolva vendê-lo por aqui, tentaria o eBay.
Meu marido, ao provar um vinho que ele mesmo comprou, o desqualificou, dizendo que o mesmo estava com a "doença da rolha". Pediu que o jogasse fora. Mas será, Soninha, que esse mesmo vinho não daria para ser utilizado na cozinha? O tal do cheiro ruim não desapareceria na panela?
Amiga, só posso falar da minha experiência, que não foi boa ao tentar fazer o que você pretende. O molho que estava preparando era muito leve e o aroma de mofo, de jornal velho, ainda perdurou. Talvez, com molhos mais fortes esses aromas não fossem notados.
Um vinho com a doença da rolha (ou bouchonée, em francês) fica com aromas e sabores de mofo, para dizer o mínimo. Foi afetado pelo fungo do TCA (2,4,6 tricloroanisol), promovido ora pela exposição do carvalho a pesticidas, ou pelo processo de esterilização de rolhas de cortiças, à base de cloro.
O crítico inglês Oz Clarke descobriu um método para eliminar o TCA. Ele envolve uma agulha de tricô num plástico de cozinha (desses que utilizamos para embrulhar e proteger comidas), introduz esse bastão encapuzado na garrafa e agita bem. Aparentemente, o plástico absorve o TCA. O vinho perde um pouco de sua estrutura, mas pode ser utilizado na cozinha, pelo menos.
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