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Solidariedade, perdão, generosidade, amor, alegria, união. Espírito de Natal! Aquilo que não se toca e não se vê, mas que existe em todos nós, mesmo que só desperte em dezembro. Momento, aliás, de festas, presentes, banquetes, lojas em promoção e - opa! - onde está mesmo o tal espírito natalino? Para muitos, essa época do ano parece ter se transformado em shoppings lotados, violência incontrolável, fome insaciável e consumismo desenfreado. A data, antes tão simbólica, teria se tornado apenas mais um feriado recheado de embrulhos e laços de fita no conforto dos lares e miséria nas ruas. Para outros, o mês ainda tem uma inspiradora e revitalizante magia. Será?
O designer Alexandre Guerra acha a data muito comercial. "É como o Dia dos Pais, das Mães. Não gosto do Natal. Para mim, sempre foi só mais um dia de festa em que se vai na casa dos outros comer, beber e trocar presentes", alfineta. Para ele, espírito de Natal é, portanto, só uma expressão bonita. "Unidos, caridosos, respeitosos e gentis devemos ser todos os dias, com todo mundo, reconhecendo a importância da família, do respeito pelos outros e da caridade. Não são bolas de natal, guirlandas e uma manjedoura que deveriam causar esta sensação na gente", acredita o designer.
O que comemorar?
Mas ele confessa que é difícil mantermos esse espírito 365 dias por ano. "Então, por algum resquício de sensibilidade religiosa, as pessoas se forçam a serem mais bondosas no Natal. Só que a caridade vai por água abaixo com tanto desperdício de comida e de dinheiro", revolta-se. "Em casa, confortáveis, nós não sabemos o que é passar fome. É fácil ter espírito natalino comendo rabanada e tomando vinho enquanto uma porção de gente não tem o que comer, nem onde morar", provoca.
Por isso mesmo a designer gráfica Glaucia Cristina Mathias considera o Natal um dia triste. "Na minha família, sempre comemoramos mais o réveillon. É a maior festança na casa do meu avô", anima-se. "Ano Novo, sim, é energia renovada, esperança. Você coloca toda a sua expectativa e vibrações positivas no ano que está chegando", diz. Antes de se casar, quando passava a data na casa dos avós do interior, onde não tinha comemoração na passagem do dia 24 para o dia 25, somente o almoço natalino, a designer se sentia chateada por lembrar que muitos estavam sozinhos e que havia crianças querendo ganhar um presente ou ter uma ceia. "Tinha vontade de me vestir de Papai Noel e passar o Natal nas ruas, procurando crianças, dando presente e comida. Mas São Paulo é muito perigoso e isso me breca até hoje", diz Glaucia.
Valores de família
Na casa de Elaine Gitti, advogada, ninguém também dá muita bola para o Natal. "Nunca procurei passar nada para os meus filhos sobre isso, até porque detesto datas como essa e o Ano Novo. Ninguém pára, por exemplo, para pensar no sentido da festa, no espírito da coisa. É só um consumismo absurdo, uma loucura. O trânsito fica terrível, as pessoas, mais estressadas e poucos se lembram do nascimento de Cristo", indigna-se. "Aí é gente que se odeia trocando presente no final do ano, a casa da minha mãe vira casa da mãe Joana, com parentes chegando em carros lotados, sem qualquer desconfiômetro (alguns se convidam, outros, nem isso)", conta, inconformada.
"Os valores que passo para os meus filhos, independentemente de espírito natalino, são os que deveriam existir sem data específica. Não adianta pisar na bola o ano todo para depois baixar um ‘encosto' natalino e ficar falando de solidariedade, paz", afirma. Tem gente que, segundo ela, parece apenas querer desafogar a consciência, se lembrando do próximo que ficou esquecido o ano inteiro, só em dezembro. Aí é um tal de montar sacola para orfanato, doar cesta básica... "E o resto do ano?", questiona Elaine. A psicopedagoga Monica Donetto afirma que é por aí mesmo. "O respeito e a compaixão são aspectos que lembramos mais fortemente em datas como essa, mas, se não estiverem presentes na vida da pessoa ao longo de todo o ano, de nada vale", explica.
Salve-se quem puder!
Pois é, no resto do ano, somos nós mesmas e nossos próprios narizes. Segundo Edgar Leite, professor do Departamento de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e estudioso de religião, o mundo, nos últimos 50 anos, tem passado por um período de muita secularização de objetivos e interesses. "O caráter espiritual das festas religiosas tem se diluído. O capitalismo fez da mercadoria um complemento indispensável em nossas vidas, fazendo-nos perder o Natal como espaço para reflexão, substituindo-o pela troca de presentes", explica. Ele conta que o 25 de dezembro já foi mais forte quando o Catolicismo predominava. "Hoje, a religião se encontra enfraquecida devido à presença, no cenário mundial, de grupos religiosos e políticos, cada um com suas políticas próprias de solidariedade", afirma.
A psicóloga Dora Lorch, autora de Como educar sem violência (Editora Summus) concorda e acrescenta que não só o Natal perdeu a importância, mas todos os rituais. "Ritual é aquele momento em que lembramos ou comemoramos alguma coisa. É a semana que deveríamos ficar de luto ou o tempo de lua-de-mel espremido pela necessidade de voltarmos ao trabalho, é a festa de aniversário dos amigos, o fim do ano etc", diz. Neste sentido, segundo ela, é importante termos uma data como o Natal para nos lembrar que certos sentimentos devem ser cultivados. "Mesmo que só uma vez por ano as pessoas façam doações para creches e orfanatos, a data é fundamental para nos lembrarmos do respeito que devemos ter uns pelos outros", explica.
"Há pouco desse sentimento no mundo atual", atesta Edgar Leite, "mas não sei dizer se antigamente, só porque o Natal era uma tradição religiosa de maior força, as pessoas eram mais solidárias do que hoje. Acredito que não, porque comunhão, união e todos esses valores podem existir sem religião", garante. "Mas, de fato, estamos atravessados por uma sociedade materialista, consumista, que valoriza mais o ‘ter' do que o ‘ser'", reforça a psicopedagoga Mônica Donetto, do Apprendere Espaço Psicopedagógico, no Rio. "Cultivamos o individualismo. Se doar para o outro perdeu um pouco o sentido", retoma Edgar Leite.
Ele existe!
Não para todo mundo. Sandra Santos, advogada, foi apresentada ao espírito natalino quando criança, sob a forma de Papai Noel, e garante que hoje ele está mais vivo do que nunca em sua família. "Quando eu era pequena, o bom velhinho visitava a minha casa. O curioso é que meu pai me levava para comprar presente para o Papai Noel, mas a imagem era tão real para mim que nunca questionei para que ele precisava, por exemplo, de um faqueiro", ri. Ela conta que ele chegava em um carro normal, vestido como manda o figurino, e se sentava à mesa para a ceia. Ao terminar a refeição, a família orava e Noel distribuía, então, os presentes.
"Com ele, chegava a esperança, a felicidade. Quando ia embora, deixava sempre a perspectiva de um novo ano com mais alegrias, saúde e muita felicidade. Meus coleguinhas diziam que Papai Noel não existia, mas eu achava que eles não recebiam sua visita porque não se comportavam bem", lembra, com saudade. Sandra cresceu e descobriu, enfim, que o homem que trazia seus presentes e participava da ceia era o senhor Antônio, uma afiador de pianos que, por sua bondade e desprendimento, havia recebido o título de "Papai Noel oficial do Estado do Rio de Janeiro".
"Descobrir a 'farsa' foi horrível, mas passei a admirar o senhor Antônio. Ele estava sempre envolvido em alguma atividade que beneficiasse e trouxesse dignidade aos desamparados", emociona-se Sandra, que passou a tradição para os filhos. "Até que chegou ao fim a missão que Deus havia dado ao bom velhinho. A comoção foi geral na família. Com ele, se foi a magia de Natal, mas ficou a beleza de suas ações e a esperança de que tudo tem solução na vida", afirma. "Se perguntarem aos meus filhos, hoje com 25 e 26 anos, se Papai Noel existe, eles certamente dirão que sim e esta será uma tradição que passaremos adiante, mesmo sem o senhor Antônio, com a esperança de dias melhores", diz.
Na memória
Para a advogada Tânia Marise Rebelo, o Natal também tem mágica, principalmente quando se tem crianças em casa. "Depois que elas crescem, perde toda a graça!", brinca. Mas se tem uma coisa que vale ouro e que é a marca registrada do espírito natalino, além de amor e esperança, são as lembranças. "Crianças acordadas até tarde esperando o Papai Noel e deixando o ‘prato feito' do bom velhinho antes de irem dormir para, então, pela manhã, acordarem com os presentes na cama", suspira a advogada. "Quando eu era pequena, meu padrinho montava um enorme presépio com areia da praia em um canto da sala de jantar. Todo dia fazíamos os Reis Magos andarem um pouquinho pelo ‘deserto' em direção à manjedoura. Como muita gente pisava ali perto para olhar, era areia espalhada pela casa inteira. Minha madrinha ficava louca!", ri Tânia.
"Queira ou não, todo mundo fica diferente no Natal", garante a advogada Adriana Sanchez. Ela confessa que sempre se sente mais solidária nessa época do ano. "Todo dia você vê crianças na rua, mas finge que não enxerga. Já no Natal, bate aquela compaixão e costumo até andar com biscoito no carro ou algo assim para dar a elas", diz. "Não acho que devemos fazer isso todos os dias, porque não se pode alimentar a pobreza com migalhas, mas o Natal ainda é a única data de esperança na sociedade. Até para os judeus, que não o comemoram, há uma festa que simboliza a esperança no mês de dezembro, o Chanuká", diz Adriana.
O melhor presente
Segundo ela, muitos personificaram o sentido da solidariedade e da esperança em presentes e embrulhos. "Ao meu ver, não existe problema algum em ganhar presentes, até Jesus ganhou, não foi? Eles só não podem virar o destaque da festa", defende Adriana. Segundo a psicóloga Dora Lorch, a troca de presentes pode ser um dos momentos de amor e de paz que o espírito de Natal traz, desde que você não ache que precisa comprar ou que precisa ser caro. "Presentes podem ser feitos, pois são símbolos de um sentimento. Podemos fazer cartões, dar telefonemas. Tudo isso reacende o espírito de união e faz bem a todos", garante.
A advogada Adriana Sanchez, no entanto, acha que estamos a anos-luz de sermos solidários só por sermos. "Se somos, é para ganhar pontos com nós mesmos ou com a sociedade", diz. "Não creio em cultivar o espírito natalino todos os dias. Penso, aliás, que uma evolução social seria não precisar dele para espalhar paz e solidariedade", conclui.
Mas, por enquanto, Cristina Spineti, matemática, acredita que precisamos muito desse espírito para seguirmos em frente. "Não se pode mergulhar na idéia de que está tudo uma porcaria. A vida é um dom precioso e, mesmo que em pequenos gestos e condutas, acredito que cada um pode fazer a diferença nesse mundo", encoraja.
Para ela, o Natal simboliza isso tudo, permite lembrar, pelo menos uma vez por ano, que no mundo não há só problemas, mas também solução para eles. "E a solução começa por acreditarmos que ela existe", afirma. Pronto, aí está o espírito natalino!
Bom Natal!
Daniela Pessoa   Leia mais deste autor.
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