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Amor e Sexo
Sozinha nunca
Há coisas que são melhores fazer sozinha. Mas não passam de três...
Por Rosana Caiado • 12/05/2008

Bobeou, viram-se para você e:

- Vai ser bom, pra você, ficar sozinha.

Não, não vai ser bom. Não sabem quanta tristeza cabe numa solidão.

- Passar um tempo sozinha é ótimo - continuam

- Ótimo é o escambau! Vão ficar sozinhos vocês, então, ô... bando de...- ensaio, mas não digo. E me pergunto em que momento é melhor estar só.

Franzo a testa e coço o queixo. Só encontro três coisas que prefiro fazer sozinha. A primeira é a que estou fazendo agora - sozinha, diga-se. Escrever. Infelizmente, escrever é, sim, um ato solitário. É melhor escrever sozinha, escutando música instrumental, no laptop, lendo em voz alta o que acabou de digitar, como agora, sem ser taxada de maluca, sem ligar pra erro de digitçap, como agora.

A segunda é dirigir. Quantas idéias entram pela janela aberta, manobras perfeitas, lindo.

A terceira, esqueci - dois já é um número alto: não existem, neste mundo e em outros, três coisas que ficam melhores quando se está sozinho. Duvido.

Não interessa o quê, prefiro acompanhada.

Até anel, aquele que tem um brilhante só, o solitário - como é triste um solitário, o anel, um homem de pé, no balcão, tomando um pingado, ou um senhor sentado à mesa onde está desenhado um tabuleiro de xadrez. Solidão é lava que cobre tudo.

Tomar um vinho? Uma garrafa é muito para se beber sozinho. Jantar fora? Só se for no self-service. Não adianta que não me esmero no almoço se a mesa é só para um. Um bife, um bife é gostoso sozinho, mas fica melhor com batata-frita, que, por sua vez, fica mais saborosa com arroz de brócolis. Se até o meu prato vem com acompanhamento (muitas opções das quais se escolhe uma ou duas), por que eu deveria comê-lo desacompanhada?

Dormir: muito melhor de conchinha, enroscada, nariz na nuca. Um carinho às vezes cai bem.

No dia seguinte, fazer a cama - muito melhor em dupla: um estica o lençol do lado direito e o outro puxa o esquerdo.

Dançar. Até dá para dançar sozinha, sobretudo se houver alguém, logo ali encostado na pilastra, para quem se exibir. Mas e quando toca bolero, e quando toca forró, quadrilha? É juntinho que fica bom.

Ver um filme: dez a zero, acompanhada. Pode-se comentar a trama, tirar dúvidas sobre os personagens, perguntar o que foi que ele disse. E se tiver cenas de amor? A vida pode, e deve, imitar a arte. Solidão, que nada.

Tomar banho. Melhor a dois. Entra água nos olhos, é verdade, mas a recompensa vem seguida, no ensaboar de costas.

Viajar? E quem vai segurar a bolsa de mão na hora de vestir o casaco?

Estão dizendo que ficar sozinho é bom para pensar. Caros, não é a solidão, mas o silêncio que ajuda os pensamentos a entrar em fila. Solidão é bom para chorar, mas prefiro um colo.

Estão dizendo que é bom ficar sozinho pra cortar a unha do pé. Ok. Aceito. Mas corto rápido, três minutos e pronto. Vem pra cá.

Acabo de lembrar qual é a terceira coisa boa de se fazer sozinha: comer bombom Sonho de Valsa. Tão pequeno quanto gostoso, não entendo essa gente que oferece uma mordida. Eu nunca. Se bem que, se for com você, eu racho.



Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.





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