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MARCAS DA PAIXAÕ
Para viver uma grande paixão, vale quase tudo. Provas exageradas de amor, confissões de fidelidade eterna e até rompantes inesperados de ciúme. Para os apaixonados, até pequenas brigas se tornam um tempero na relação. Mas, como todos sabem, a paixão pode passar. E, se não restou cumplicidade entre o casal, é fácil saber como a história termina. Nessa hora, muitos confundem o amor construído com um sentimento de posse. Agir como dono da vida do outro pode ser tentador para quem ama, mas pode ser também fatal num relacionamento.
Para os que se encaixam no perfil de ciumentos incorrigíveis, uma boa notícia: ciúme não tem a ver, necessariamente, com sentimento de posse. Não é nada fácil manter uma relação sem exigir certa dose de exclusividade, e se importar com os sinais de atenção do companheiro faz parte do jogo. Segundo o psicanalista Paulo Próspero, ter ciúme é algo natural. Ele explica que em todo relacionamento amoroso há uma requisição de prioridade, o que, de maneira bem dosada, é saudável. "A questão está na capacidade da pessoa de mostrar interesse. A exigência de prioridade está relacionada ao próprio amor. Por mais que digam que o verdadeiro amor passa por tudo, trata-se quase de um pacto de disponibilidade e isso requer atenção contínua", observa.
Há uma linha bastante tênue entre o ciúme e o sentimento de posse, mas que separa tipos de relação bem diferentes. O ponto em comum é o sentimento de perda. É quase impossível não temer a falta de quem se ama, por isso, qualquer sinal de afastamento ou desatenção leva ao questionamento sobre a relação. Na posse, porém, há o sentimento de perda do poder sobre o outro e não do amor. Quem explica é a psicóloga Nina Maria Góes: "O sentimento de posse nada tem a ver com amor. No ciúme, o foco é o outro. Já, na posse, o foco sou eu. Uma pessoa possessiva não será sempre ciumenta, porque estamos falando de coisas diferentes".
Ela cita como exemplo a relação afetiva retratada no filme "Encaixotando Helena", de Jennifer Chambers Lynch. No filme, um renomado cirurgião cria um acidente para que a vítima, por quem era obcecado, seja levada para a casa dele. Com o tempo, ele vai mutilando-a, cada vez que pensa na possibilidade de ela escapar. Segundo Nina Maria Góis, esta história extrema chama a atenção para como o sentimento de posse é destrutivo e não condiz com o relacionamento amoroso: "Ele nunca se importou com ela, mas com ele. A posse poderia ser chamada de um autismo afetivo, em que não há comunicação com o outro. Não existe sequer o outro em si. Existe apenas enquanto ele traz algum ganho", afirma.
Por isso, a posse é sempre danosa à relação, mas o ciúme nem sempre. Se o controle sobre a vida do outro supera o seu bem-estar, é sinal de que há algo errado. O alerta está para quem impõe este domínio, mas também para quem se deixa levar pelas imposições feitas. O psicanalista Paulo Próspero lembra que não é à toa que o ditado "ninguém é de ninguém" se tornou tão popular. "Mesmo que você queira, não pode ser dono do outro. E para existir a relação é preciso este espaço. O sentimento de posse tira a liberdade de ação do outro. É conseqüência de uma insegurança profunda", observa.



