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Queda por canalhas
Ele não paga o cinema, mente, desaparece do mapa, azara até a sua irmã e mesmo assim é disputadíssimo. Pra todo canalha de plantão, há sempre uma mulher de malandro à disposição.
Por Clarissa Martins • 31/10/2003
O cara é um gato, sarado, corpinho perfeito, tem uma lábia inacreditável e manda muito bem na cama. Totalmente irresistível. Com ele as pernas tremem, o estômago aperta, a pele arrepia, num verdadeiro descontrole. Mas como perfeição não existe na espécie humana, com ele não poderia ser diferente. O mocinho não vale nada. Diz que vem, mas não vem, não liga, mente, some. Azara as amigas na maior cara de pau, não paga nem o cinema e prefere fazer parte do exército americano no Afeganistão a ter que assumir algum compromisso sério. Mas, inexplicavelmente, uma legião de fãs se acotovela em filas para disputar, nem que seja por um minuto, a atenção desse canalha. Uma dose de masoquismo, uma pitada de baixa auto-estima e anos de cultura de submissão fazem muitas mulheres optarem por esse tipo de relacionamento neurótico.
A definição de canalha é muito pessoal. Até porque, o que para uma pode ser, para outra não. Nessas horas nada melhor do que recorrer ao pai dos burros para uma explicação mais generalizada. E nosso companheiro Aurélio diz que é uma pessoa vil, infame, ordinária, baixa e desprezível. Será? A estilista Flávia Martins já teve alguns na sua vida, mas confessa que só se deu conta das canalhices quando não estava mais com os moçoilos. "Namorei durante três anos um cara que hoje considero um babaca. Eu era nova e apaixonada e durante muito tempo aceitei uma relação muito doida. Pra começar, ele me obrigava a malhar como louca, ficar magra, esquálida. Ele não me obrigava verbalmente, mas se eu engordasse uma grama ele caía em cima. Depois, cismou que me queria loira e eu, para agradá-lo, pintei meus lindos cabelos e fiquei ridiculamente blond para o imbecil, que não me aceitava do jeito que eu era", lembra Flávia, que além de ter se transformado em outra pessoa ainda teve que aturar os sumiços inexplicáveis e a falta de diálogo da relação. "Volta e meia ele me dava altos perdidos, sumia dias sem me dar a menor satisfação. Eu ficava em cólicas, enlouquecia, mas continuava com a anta. Quando o nosso sexo deixou de ser bom, não suportei mais e terminei. Foi a melhor coisa da minha vida, me senti livre para ser quem eu sou", comenta.
Flávia venceu a batalha, mas não a guerra. Meses depois, com sua identidade retomada, ela partiu para outra, ou melhor, para outro. Canalha, é claro. Esse não implicava com nada, mas também nunca aparecia. "O Edu é um deus, lindo, gostoso, sarado e tínhamos uma química sexual que me cegou. Mas ele trabalhava muito e apesar de a gente morar na mesma rua, praticamente só nos encontrávamos nos finais de semana. Ele nunca tinha tempo para me ver, pois precisava malhar, malhar e malhar. Sabe-se lá que tipo de peso ele ia pegar na academia", suspeita Flávia, que se acostumou a passar as datas especiais sozinha. "Ele sempre me largava para viajar com os amigos solteiros no carnaval e réveillon. Eu nunca podia ir para não atrapalhar. Foram quatro anos de neuras e só podia acabar mal: com ele cismando que eu tinha azarado um amigo dele. Estou sozinha há três anos e antes só do que mal acompanhada. Dou muito beijo na boca e faço o que quero. Sou até um pouco canalha com alguns caras que acabam se envolvendo comigo", diverte-se.
Como já dizia Nelson Rodrigues: "O canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável e costuma ter uma fluorescente aura de simpatia." A gaúcha Cláudia Paim mora no Rio de Janeiro há quase dois anos e, mesmo não gostando de canalhas, se considera um verdadeiro imã da espécie. "O Rio é a capital da canalhice e por isso eu continuo sozinha. Faz parte da cultura 'ninguém é de ninguém', um total descompromisso. Realmente os homens são lindos, muito simpáticos, sabem te envolver, mas é só isso", define Cláudia, que já está com uma coleção de histórias engraçadas, para não dizer tristes, das suas aventuras amorosas na cidade maravilhosa. "Fiquei com um carioca típico: lindo, moreno e sarado. Ele é um advogado muito envolvente e inteligente. Na hora de ir embora da boate, ele cismou que eu tinha que ir para casa dele e eu não quis. Aí ele falou que me deixaria em casa, sem problemas, pois morava perto de mim", lembra. Doce ilusão. "Entramos no carro e, quando passamos em frente à boate novamente, ele pediu para que eu avisasse a um amigo dele que já estávamos indo e, assim que saí do carro, ele se mandou. Me largou às três da manhã na rua. É o autêntico ou dá ou desce", brinca.
Mas não se pode generalizar. Para cada caso existe uma causa. Se é que podemos falar nisso. Para a psicologia, o importante são as marcas que ficam no imaginário. O que para umas pode ser traumático, para outras pode não ter importância. "Depende de como cada um reage à sua história de vida. A mulher que aceita uma situação de submissão, seja qual for o tipo, realmente possui uma baixa auto-estima e por alguma razão, sem lógica, sente prazer no sofrimento. Muitas vezes, esse servilismo em extremo, de ter prazer com a dor, leva as pessoas a buscar o sadomasoquismo. Nada que uma análise não cure", explica a psicóloga Maria Helena Junqueira.
Para ela, o nosso lado psicológico está intimamente ligado à cultura e à educação e muitas mulheres ainda estão acostumadas com esse submetimento instituído durante anos pela sociedade. "Muitas ainda reagem como gueixas e mantêm uma atitude de 'faz o que você quiser que estou aqui para servir'. É uma reação masoquista de se anular, de ser obediente para o amor. O 'canalha' oprime e desvaloriza, mas para entendermos esse comportamento não podemos julgar, porque na verdade ninguém é vítima de ninguém. Aceita essa relação quem quer. Enquanto se faz de vítima, ela está acomodada. Mas quando a sua responsabilidade é questionada, o porquê de se sentir atraída por esse tipo de relação, onde está a sua parcela de culpa, ela começa a agir para modificar essa situação", complementa.
E mudar não é fácil. Requer coragem, determinação e uma boa dose de autoconfiança. "A frustração é a primeira coisa a ser encarada, porque é difícil descobrir que não se é uma pessoa ideal, nem para si e muito menos para o parceiro. É a descoberta de uma nova identidade", conclui a psicóloga. Mas é só pra quem quer. Essa é uma realidade que muita gente prefere manter. E se faz bem, qual o mal que tem?
Agradecimentos:
Maria Helena Junqueira - Psicóloga
Rua Jerônimo Monteiro 73/301 – Leblon – Rio de Janeiro
Tel.: (21) 2274 2042 / 2294 4284
Clarissa Martins   Leia mais deste autor.
A definição de canalha é muito pessoal. Até porque, o que para uma pode ser, para outra não. Nessas horas nada melhor do que recorrer ao pai dos burros para uma explicação mais generalizada. E nosso companheiro Aurélio diz que é uma pessoa vil, infame, ordinária, baixa e desprezível. Será? A estilista Flávia Martins já teve alguns na sua vida, mas confessa que só se deu conta das canalhices quando não estava mais com os moçoilos. "Namorei durante três anos um cara que hoje considero um babaca. Eu era nova e apaixonada e durante muito tempo aceitei uma relação muito doida. Pra começar, ele me obrigava a malhar como louca, ficar magra, esquálida. Ele não me obrigava verbalmente, mas se eu engordasse uma grama ele caía em cima. Depois, cismou que me queria loira e eu, para agradá-lo, pintei meus lindos cabelos e fiquei ridiculamente blond para o imbecil, que não me aceitava do jeito que eu era", lembra Flávia, que além de ter se transformado em outra pessoa ainda teve que aturar os sumiços inexplicáveis e a falta de diálogo da relação. "Volta e meia ele me dava altos perdidos, sumia dias sem me dar a menor satisfação. Eu ficava em cólicas, enlouquecia, mas continuava com a anta. Quando o nosso sexo deixou de ser bom, não suportei mais e terminei. Foi a melhor coisa da minha vida, me senti livre para ser quem eu sou", comenta.
Flávia venceu a batalha, mas não a guerra. Meses depois, com sua identidade retomada, ela partiu para outra, ou melhor, para outro. Canalha, é claro. Esse não implicava com nada, mas também nunca aparecia. "O Edu é um deus, lindo, gostoso, sarado e tínhamos uma química sexual que me cegou. Mas ele trabalhava muito e apesar de a gente morar na mesma rua, praticamente só nos encontrávamos nos finais de semana. Ele nunca tinha tempo para me ver, pois precisava malhar, malhar e malhar. Sabe-se lá que tipo de peso ele ia pegar na academia", suspeita Flávia, que se acostumou a passar as datas especiais sozinha. "Ele sempre me largava para viajar com os amigos solteiros no carnaval e réveillon. Eu nunca podia ir para não atrapalhar. Foram quatro anos de neuras e só podia acabar mal: com ele cismando que eu tinha azarado um amigo dele. Estou sozinha há três anos e antes só do que mal acompanhada. Dou muito beijo na boca e faço o que quero. Sou até um pouco canalha com alguns caras que acabam se envolvendo comigo", diverte-se.
Como já dizia Nelson Rodrigues: "O canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável e costuma ter uma fluorescente aura de simpatia." A gaúcha Cláudia Paim mora no Rio de Janeiro há quase dois anos e, mesmo não gostando de canalhas, se considera um verdadeiro imã da espécie. "O Rio é a capital da canalhice e por isso eu continuo sozinha. Faz parte da cultura 'ninguém é de ninguém', um total descompromisso. Realmente os homens são lindos, muito simpáticos, sabem te envolver, mas é só isso", define Cláudia, que já está com uma coleção de histórias engraçadas, para não dizer tristes, das suas aventuras amorosas na cidade maravilhosa. "Fiquei com um carioca típico: lindo, moreno e sarado. Ele é um advogado muito envolvente e inteligente. Na hora de ir embora da boate, ele cismou que eu tinha que ir para casa dele e eu não quis. Aí ele falou que me deixaria em casa, sem problemas, pois morava perto de mim", lembra. Doce ilusão. "Entramos no carro e, quando passamos em frente à boate novamente, ele pediu para que eu avisasse a um amigo dele que já estávamos indo e, assim que saí do carro, ele se mandou. Me largou às três da manhã na rua. É o autêntico ou dá ou desce", brinca.
Mas não se pode generalizar. Para cada caso existe uma causa. Se é que podemos falar nisso. Para a psicologia, o importante são as marcas que ficam no imaginário. O que para umas pode ser traumático, para outras pode não ter importância. "Depende de como cada um reage à sua história de vida. A mulher que aceita uma situação de submissão, seja qual for o tipo, realmente possui uma baixa auto-estima e por alguma razão, sem lógica, sente prazer no sofrimento. Muitas vezes, esse servilismo em extremo, de ter prazer com a dor, leva as pessoas a buscar o sadomasoquismo. Nada que uma análise não cure", explica a psicóloga Maria Helena Junqueira.
Para ela, o nosso lado psicológico está intimamente ligado à cultura e à educação e muitas mulheres ainda estão acostumadas com esse submetimento instituído durante anos pela sociedade. "Muitas ainda reagem como gueixas e mantêm uma atitude de 'faz o que você quiser que estou aqui para servir'. É uma reação masoquista de se anular, de ser obediente para o amor. O 'canalha' oprime e desvaloriza, mas para entendermos esse comportamento não podemos julgar, porque na verdade ninguém é vítima de ninguém. Aceita essa relação quem quer. Enquanto se faz de vítima, ela está acomodada. Mas quando a sua responsabilidade é questionada, o porquê de se sentir atraída por esse tipo de relação, onde está a sua parcela de culpa, ela começa a agir para modificar essa situação", complementa.
E mudar não é fácil. Requer coragem, determinação e uma boa dose de autoconfiança. "A frustração é a primeira coisa a ser encarada, porque é difícil descobrir que não se é uma pessoa ideal, nem para si e muito menos para o parceiro. É a descoberta de uma nova identidade", conclui a psicóloga. Mas é só pra quem quer. Essa é uma realidade que muita gente prefere manter. E se faz bem, qual o mal que tem?
Agradecimentos:
Maria Helena Junqueira - Psicóloga
Rua Jerônimo Monteiro 73/301 – Leblon – Rio de Janeiro
Tel.: (21) 2274 2042 / 2294 4284
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