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Que assim seja
A Páscoa e o vinho estão intimamente ligados
Por Sonia Melier • 20/03/2008

A Páscoa é uma das marcas do longo casamento do vinho com a religião. Lembremos de Dionísio, o deus grego do vinho, que para existir precisou nascer duas vezes. Entre os romanos, fez a festa como Baco, mais domesticado. Sim, a Páscoa marca também nascer e renascer, o fim do inverno, uma pausa necessária para descanso e preparação para a chegada da primavera, da vida florescendo novamente.

A Páscoa judaica, o Pessach, celebra há 3.500 anos a libertação dos israelitas da escravidão no Egito. Parte fundamental da comemoração judaica é a reunião das famílias numa ceia onde são consumidas ritualmente quatro taças de vinho. A Páscoa cristã tem origem nessa mesma celebração, pois foi durante uma ceia durante o Pessach que Jesus repartiu o pão e o vinho entre seus discípulos, um ato transformado num sacramento. Ambas as festas podem simbolizar uma travessia da morte para a vida, para um tempo melhor.

Marrocos, Argélia e Líbano continuam produzindo bons vinhos, embora a maioria de suas populações vire o rosto para seu consumo. Produzir vinho por lá é aprofundar-se na arte da improvisação

Mas de um mesmo grupo étnico e lingüístico, o semita, temos uma religião que proíbe drasticamente o vinho e qualquer outra bebida alcoólica. Na maior data islâmica, o Ramadã, nono mês do calendário maometano, o Alcorão foi enviado do céu como um guia sagrado para a salvação dos homens. Nesse mês, os muçulmanos jejuam e concentram-se sobre sua fé, refletem sobre seus atos e esperam pela Noite do Destino, durante a qual o futuro de cada um é traçado. Uma interrupção para poder continuar. Novamente, uma travessia.

Os árabes pré-Alcorão bebiam - e bebiam direitinho. "Triste é aquele que nesse mundo vive sóbrio", escreveu no século XII o poeta muçulmano Omar Ibn al-Fari. Com o islamismo, no século VII, a festa acabou. Hoje, na Arábia Saudita, Líbia, Sudão e Irã, beber uma gotinha de álcool resulta em chicotadas e cadeia. No Catar, Afeganistão e Emirados as bebidas são permitidas apenas em poucas casas noturnas e a estrangeiros. Li que no Yemem "happy hour significa mastigar folhas de khat (Catha edulis)". Essa planta, khat, com a catina e a efedrina como princípios ativos, tem efeito estimulante entre a ação da cafeína e a da cocaína.

Marrocos, Argélia e Líbano continuam produzindo bons vinhos, embora a maioria de suas populações vire o rosto para seu consumo. Produzir vinho por lá é aprofundar-se na arte da improvisação. O vinho tem uma história de pelo menos cinco mil anos no Líbano, com demonstraram escavações em Biblos. Na Idade Média, mercadores venezianos exportavam vinhos libaneses para a Europa a partir de Tiro e Saída. Hoje, a França é o grande mercado para os bons vinhos libaneses. Isto é: quando conseguem driblar a guerra, quando soldados de Israel não acampam em seus vinhedos. Ou quando o Hezbolá não troca tiros com facções rivais ou com israelenses, tentando expulsá-los de suas terras. Não é exatamente o melhor terroir para as uvas e seus cultivadores.

O Egito produz quase dois milhões de litros de vinho, tanto quanto a Inglaterra. O problema é que 75% da população são de maometanos. Motoristas de caminhão se recusam a transportar a mercadoria. Funcionários do governo não aparecem para validar as garrafas. A única vantagem lá é a inexistência de concorrência: os vinhos importados recebem uma taxação de até 3.000%.







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