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Paris X Londres
Confissões de uma pessoa que não gosta de Paris, mas venera Londres
Por Emilia Ferraz • 03/10/2008

Tenho que fazer uma confissão: não sou amiga de Paris. Meus amigos ficam horrorizados quando digo isso, mas é verdade. Não gosto da sua aura melancólica, da preguiça coletiva e do comércio fechado aos domingos. Troco num piscar de olhos a pretensiosa culinária francesa de "molhos espumantes" e excesso de creme pela simplicidade de um peixe grelhado a moda japonesa (para mim os melhores restaurantes de Paris são os japoneses Toraya e Kinugawa).

Antes que os leitores me acusem de ser uma rabugenta, esclareço que tenho vários e queridos amigos franceses e que visito a Cidade-Luz com certa freqüência por motivos de trabalho. Quando morei la em 2004, achei que por fim veria Paris com outros olhos, mas não adiantou. Mesmo estando com meu francês afiadíssimo e tendo feito mil amizades (inclusive com a simpática tintureira da "Rue du Theatre"), morria de saudades da vida cultural e da energia vibrante das ruas de Londres, de Portobello, de Borough Market. Aos domingos, a saudade piorava. Um dia fui assistir ao açucaradíssimo "Simplesmente Amor" num cinema no Boulevard des Italiens e ao ver no telão as ruas da minha querida "cool London", quis pegar o primeiro eurostar de volta.

A Cidade-Luz às vezes me lembra o tubarão de Damien Hirst: criatura poderosa mas contida, preservada em formol

Pode ser que eu seja um caso de anglofilia incurável mas tenho a impressão que em Londres há sempre um clima de novidade no ar: ingressos para os melhores shows e peças se esgotam minutos apos irem à venda ("you snooze, you lose!"). Dois anos atrás, no vídeo promocional apresentado ao comitê olímpico, enquanto Londres enfatizava a sua rica diversidade cultural e étnica, Paris produziu uma manjadíssima tomada de monumentos como a torre Eiffel e o Arco do Triunfo. Zzzzz... Claro que deu Londres na cabeça!

Aliás, durante o mês de outubro os palcos londrinos estão acontecendo: Kenneth Branagh interpreta o atormentado Ivanov em nova e lindíssima versão do clássico de Tchekhov, Josh Harnett dá o ar de sua graça na elogiada produção teatral de "Rain Man" e Ralph Fiennes se prepara para arrasar no National Theatre como Édipo. Produções teatrais desse calibre simplesmente não chegam a Paris. Por lá, a beleza arquitetônica continua sendo a maior atração, mas o que mais há além do museu a céu aberto e, tudo bem, deliciosas pâtisseries (que por sinal já há muito se instalaram em Londres - vide Laduree, Yauatcha, Maison Du Chocolat)? A Cidade-Luz às vezes me lembra o tubarão de Damien Hirst: criatura poderosa mas contida, preservada em formol.

Em tempos de crise financeira, Londres está certa em continuar a se renovar, investindo em cultura acessível e no esporte. Na semana passada, a cidade inaugurou a chamada "olimpíada cultural", incentivando vários teatros e museus a abrirem seus bastidores para o público. Nessa ocasião, a Royal Opera House mostrou ensaios de ópera, balé e orquestra totalmente de graça, reunindo gente de todos os cantos do globo. O mundo está aqui e as campanhas turísticas bem sabem (o slogan diz: "Veja o mundo, visite Londres"). As verdadeiras metrópoles não podem ficar dormindo no ponto. Será que um dia Paris acorda?



Emilia Ferraz é anglófila inveterada e mora em Londres desde 1997. Nas horas vagas, adora passear por vários cantos do mundo e experimentar todo tipo de tira-gosto cultural, desde que bem temperado: da literatura ao teatro, da música clássica ao rock punk, da arte vitoriana ao surrealismo e da gastronomia fina ao simples arroz com feijão. Emilia mantém um diário de suas experiências no blog Monomania Diaries.  Leia mais deste autor.





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