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Os intelectuais também choram
Obra leva o sisudo filósofo Friederich Nietzsche à psicanálise
Por Liliana de La Torre • 29/11/2008

"Quando Nietzsche Chorou" é o primeiro livro do psicoterapeuta e professor Irvin Yalom. Misturando ficção e realidade, a obra trata de um suposto início da psicanálise, com uma clarificação da personalidade de um dos mais cativantes e solitários filósofos do fim do século XIX. É um embate psicológico entre o Dr. Josef Breuer (verdadeiramente um dos pais da psicanálise) e o poderoso e sisudo Friederich Nietzsche.


Uma primorosa e cativante narrativa, que propõe possíveis diálogos entre os protagonistas, que nunca se encontraram de fato. Reflete também o peso de uma pesquisa cuidadosa de como eram, se comportavam e provavelmente agiam. Cartas que realmente foram trocadas entre algumas pessoas na vida real, como o grande compositor Wagner, foram pesquisadas e utilizadas na obra. A poderosa personagem Lou Salomé, a quem Nietzsche dedica todo seu amor como homem (e não "super-homem", um ser que, segundo o filósofo, haveria alcançado o estágio superior, separando-se da piedade, do sofrimento, da tolerância e da fraqueza), dá densidade e uma certa desconfiança da veracidade dos fatos - esta que só vamos descobrir ao ler os seus comentários no final do livro. Recomendo que leiam sem saber o que é verdade e o que é ficção, pois dá um saboroso toque de mistério à leitura.

Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio


A provável origem do estudo dos sonhos é algo que soa totalmente possível e verdadeiro, ajudando o leitor a entrar na história da psicanálise e praticamente conviver com esses grandes pensadores no começo de seus estudos. Quanto aos artifícios utilizados, todos são muito bem construídos, como perguntas no final de um capítulo que serão respondidas logo no começo do próximo, fazendo você virar a página automaticamente. Embates entre o Dr. Breuer e Nietzsche são feitos em várias sessões e você não consegue terminar uma sem saber o que vai se dar na próxima. Quando essa freqüência é descontinuada, você já está tão envolvido que não consegue parar de ler, como neste instigante trecho em que Nietzsche questiona o clínico que o tenta curar:


"Todas as ações são autodirigidas, todo serviço é auto-serviço, todo amor é amor-próprio. Parece surpreso com esse comentário? Talvez esteja pensando naqueles que ama. Cave mais profundamente e descobrirá que não ama a eles: ama, isso sim, as sensações agradáveis que tal amor produz em você! Ama o desejo, não o desejado. Assim, pense: quais são as suas motivações?".


Nietzsche está passando por uma das suas mais fortes crises existenciais e divagando sobre o suicídio e a não-existência de um ser espiritual. Enquanto o Dr. Josef Breuer sofre por ser prisioneiro de sua vida, tendo que deixar de lado o amor que desenvolveu por sua ex-paciente - o famoso caso de histeria de Anna O., descrito mais tarde pelo jovem aluno Sigmund Freud. As posições entre "médico e louco" são constantemente revolvidas, durante essas sessões de profundo autoconhecimento. O livro aborda os lados mais obscuros da solidão, do medo e das dores mais íntimas que o amor ou a falta dele podem causar. Sim, meus caros amigos, os intelectuais, ateus e filósofos, também amam e, assim sendo, sofrem. Como nós, simples mortais.

Quando Nietzsche Chorou

Irvin D. Yalom
Ediouro - 412 págs.
Preço sugerido: R$ 49,90



Liliana de La Torre é jornalista, carioca da gema, da clara e da casca, e mãe de João Paulo e Gabriel, suas grandes paixões. Bibliófaga, lê até bula de remédios com letras corpo 5. Começou a carreira na TVE Brasil, passou pelo Jornal do Brasil e foi assessora de imprensa por mais de dez anos. Atualmente, faz parte da equipe de Novas Mídias de uma grande agência. Apaixonada por Comunicação, diz que o mais importante não é o que se diz ou escreve, e sim, o que os outros interpretam.   Leia mais deste autor.





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