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O que você pensa quando lê, cada vez mais freqüentemente, sobre esses rapazes e moças que perdem a vida, ficam incapacitados ou matam terceiros em acidentes de carro por dirigirem alcoolizados? Acha que os pais são os principais responsáveis? Talvez tenham colocado seus filhos em auto-escolas. Tudo certo. Mas não deram importância ao álcool. Como você se conduziria em relação a bebidas alcoólicas e seus filhos adolescentes? Apresentaria a bebida aos poucos, alertando sobre excessos, ou as proibiria terminantemente? E se você e seu marido gostam, vez por outra, de tomar um vinho ao jantar, qual seria a atitude mais acertada diante de seus filhos?
Acidentes de carro são apenas um dos itens de um tenebroso cardápio envolvendo consumo de álcool por adolescentes. Temos a atrofia cerebral, a cirrose hepática, várias psicopatias, inclusive impulsos homicidas e suicidas, negligência nos estudos, memória deteriorada etc. Isso, sem falar em problemas correlatos, como doenças sexualmente transmitidas, gravidez inesperada, comportamento anti-social, problemas com a lei, entre outras coisas.
Cada vez mais jovens bebem e bebem em excesso, seja no chamado primeiro mundo ou no Brasil. Segundo o programa Álcool e Drogas sem Distorção, do Hospital Albert Einstein, São Paulo, nossos adolescentes já correspondem a 10% de brasileiros que bebem pesado: são 3,5 milhões de jovens. Pesquisa do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo) informa que, em cinco anos, a ingestão de bebidas alcoólicas aumentou 30% entre jovens de 12 a 17 anos e 25% entre jovens de 18 a 24 anos. E estão consumindo na forma binge, bebendo pesado, numa ingestão compulsiva de álcool em curto espaço de tempo - coisa de mais de cinco drinques em meia hora.
Vejam só alguns dos resultados de um levantamento do CEBRID, de 2004, quando 48.115 estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública de ensino nas 27 capitais brasileiras foram pesquisados. Sempre beberam regularmente: 41,2% dos jovens entre 10 e 12 anos; 69,5% entre 13 e 15 anos; 80,8% na faixa dos 16 a 18 anos e 82,1% acima de 18 anos. Praticamente não há diferenças de consumo por sexo: desse grupo, 50,7% são moças e 49,3% rapazes. Do total, 21,5% pertenciam às classes A e B; 41.6% à C, 25,2% à D e 8% à E.
Como os adultos devem se comportar a esse respeito? Li uma matéria do crítico de vinhos do "New York Times", Eric Asimov, que trata desse assunto. E sua repercussão tem sido enorme. Até o dia 31 tinha resultado em 338 comentários online. Não é para menos, é questão vital, em particular para famílias com filhos ainda em formação.
A preocupação do colunista é a mesma de todas nós, acho eu. Ele e a esposa costumam dividir um vinho no jantar. Têm dois filhos entre 16 e 17 anos - que sabem da profissão do pai: um jornalista especializado em vinhos. Bebe por profissão. E por gosto, gosto que gostaria de dividir com os filhos, de ensiná-los como a bebida pode ser parte maravilhosa de uma refeição. Isso sem esquecer, ao mesmo tempo, de alertá-los sobre os perigos dos abusos.
Asimov, vez por outra, deixava-os dar uma provinha de sua taça. Os rapazes também tomavam um pouco de vinho durante a ceia da Páscoa judaica, o Sêder, já que são judeus. Os garotos estão no final do segundo grau e o crítico achou que era hora de oferecer a opção do vinho, em pequenas quantidades, durante o jantar.
Nas regiões vinícolas européias, é comum os pais introduzirem o vinho às crianças. Oferecem a bebida misturada com água, só para dar um gostinho, ir se acostumando, mas sob os olhares dos pais. Meus pais repetiram essa prática comigo. Era como Asimov gostaria de fazer.
Só que a mulher do crítico participou de uma reunião sobre álcool e adolescentes, promovida por várias escolas secundárias da região onde mora. Voltou apavorada: história de porres, de ritos de passagem envolvendo bebidas, danos cerebrais, permissividade dos pais e conflitos com a lei.
Sendo assim, Asimov decidiu adiar o seu plano e pesquisar a respeito. As evidências dos perigos relacionados ao abuso alcoólicos são alarmantes, principalmente nos cérebros de adolescentes, cuja parte que responde pelo raciocínio, pela capacidade de julgar, só estará completamente formada aos 25 anos. Um especialista em adolescentes da Universidade de Cornell, em Nova York, Dr. Ralph Lopez, afirma que "se acreditarmos que beber responsavelmente depende de um cérebro responsável, em teoria não devemos introduzir as bebidas alcoólicas antes dos 25 anos".
A lei americana proíbe que menores de 21 anos tomem bebidas alcoólicas em restaurantes, cafés ou bares. E em casa? Lá a polícia ou os serviços sociais podem intervir quando se prova que excessos alcoólicos são encorajados domesticamente. Mas quando chega a hora de dirigir um carro tudo fica mais grave.
O problema de Asimov, porém, é outro. Ele sabe que existem pesquisas abundantes demonstrando os perigos de excesso alcoólico entre adolescentes e a necessidade de conseguir ajuda para corrigi-los. Mas, segundo ele, há muito pouco sobre ensinar adolescentes a respeito dos prazeres do vinho às refeições.
Será que simplesmente proibir ajuda? Não seria ingênuo e até irresponsável pensar que adolescentes não possam beber às escondidas? Será que proibir sequer uma provinha de vinho com um prato não iria encorajar o beber furtivamente?
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