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O luxo de Balenciaga
Livro mostra que luxo se tornou indústria, prezando produção em série
Por Emilia Ferraz • 05/09/2008

Há um tempo fui visitar uma exposição dedicada ao costureiro Cristóbal Balenciaga no museu das artes decorativas (www.lesartsdecoratifs.fr), em Paris. Balenciaga foi um dos mais importantes estilistas europeus na década de 50, a verdadeira "era de ouro" da alta costura. Suas roupas eram obras de arte, feitas sob medida pelo próprio, com caimento estruturado e tecidos da mais alta qualidade. Alto artesanato e fabricação sob medida eram valores tão importantes para Balenciaga, que ele não aceitou o então novo conceito de "prêt-à-porter". E, em protesto, retirou-se do mercado ao final dos anos 60, deixando órfãs várias clientes da alta sociedade européia (conta a lenda que a socialite condessa Mona Bismarck chegou a ter uma crise depressiva, afinal, como iria ela se vestir a partir de então?).

É um sinal dos nossos tempos capitalistas que, 30 anos após o fechamento, a marca tenha sido forçada a retornar das cinzas para competir na nova ordem mundial das grifes de luxo, sob a direção do grupo Gucci e desenhos do jovem estilista Nicolas Ghesquière. Lembro de ter saído do museu chocada com essa reviravolta. Os modelitos, que fechavam a exposição, eram versões altamente estilizadas das criações do gênio Balenciaga mas não havia sinergia. Era como dizer que Picasso (pensando bem Ghesquière nem chega a ser um "Picasso da moda") estaria dando continuidade a arte de Velazquez só porque aquele usava vagas referências deste em algumas de suas pinturas. "Que impostor. Que sacrilégio!", pensei. O que diria o estilista se ainda estivesse vivo (Balenciaga faleceu em 1972)?

gGrifes como Dior, Givenchy, Yves Saint Laurent, Burberry etc. há muito deixaram de ser influenciadas pelo talento de seus estilistas e passaram a pertencer a mega corporações globalizadas e diretores e acionistas que determinam a estratégia de negócios das companhias do grupo

Não podemos saber exatamente como teria reagido Balenciaga, mas, ao ler o livro "Deluxe - Como o Luxo Perdeu o Brilho", me coloquei um pouco em seu lugar. Este livro da editora de moda Dana Thomas traça um paralelo fascinante entre o processo de democratização das grifes de luxo e a insaciável ganância dos conglomerados donos das mesmas. Dana nos mostra como é relativo e tênue o conceito de luxo quando a tendência nesse mercado é de produção em série e utilização de matérias primas e mão de obra baratas (em países como a China e as ilhas Maurício). Conceitos que se aplicam desde a confecção de roupas até a industria dos acessórios em couro, passando pelos perfumes e cosméticos. Nada é sagrado.

A autora expõe a industria do luxo mas também não prega que passemos a boicotá-la, sua meta principal é informar o leitor para que ele saiba exatamente que mercadoria está comprando e sua provável origem (ela mostra que às vezes as próprias etiquetas de fabricação dizendo "Made in Italy", "France" ou "UK" mentem).

Um dos aspectos mais fascinantes do livro para mim e o processo de "nivelamento" das marcas ao longo dos anos: grifes como Dior, Givenchy, Yves Saint Laurent, Burberry

etc. há muito deixaram de ser influenciadas pelo talento de seus estilistas e passaram a pertencer a mega corporações globalizadas e diretores e acionistas que determinam a estratégia de negócios das companhias do grupo. Atualmente o enfoque é cada vez maior nos produtos que geram altas margens de lucros como bolsas (geralmente a primeira coisa que o cliente vê ao se entrar numa loja de grife), sapatos, perfumes e cosméticos, ou seja, os produtos mais acessíveis. Com a alta costura e prêt-à-porter deixando de ser um fator diferencial e sob o controle dos mesmos acionistas, essas grifes passaram a ser praticamente "farinha do mesmo saco".

Claro que há exceções (Dana ressalta a tradição de marcas privadas como Chanel e Hermes), mas modelitos distintos como a silhueta de Dior dos anos 50 e o "smoking feminino" de Saint Laurent dos anos 60 são coisas que ficaram no túnel do tempo. Por isso é que Nicolas Ghesquiere pode criar, sob a etiqueta "Balenciaga", peças modernosas e bolsas de couro gigantes, que pouco ou nada tem a ver com a herança e filosófia de alta costura da casa. Realmente não sei o que ele teria dito, mas é certo que Cristóbal Balenciaga, ao contemplar o rumo da industria da moda, não teria se arrependido de sua decisão.




Emilia Ferraz é anglófila inveterada e mora em Londres desde 1997. Nas horas vagas, adora passear por vários cantos do mundo e experimentar todo tipo de tira-gosto cultural, desde que bem temperado: da literatura ao teatro, da música clássica ao rock punk, da arte vitoriana ao surrealismo e da gastronomia fina ao simples arroz com feijão. Emilia mantém um diário de suas experiências no blog Monomania Diaries.  Leia mais deste autor.





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