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No rastro da água
A água, um recurso cada vez mais escasso, também nos pede atenção
Por Sonia Melier • 04/12/2008

Nas bodas de Canaã, Jesus transformou a água de seis grandes tanques de pedra em vinho. Ou seja, mais ou menos um volume de 683 mil litros de água converteu-se em vinho. Foi o primeiro milagre atribuído a Jesus.

Hoje, para conseguirmos uma taça de vinho (mais ou menos 150 ml) precisaríamos de 120 litros de água. Uma garrafa padrão, de 750 ml, cinco vezes mais: 600 litros de água. Um litro de vinho compreenderia mais ou menos sete taças ou 840 litros de água.

Se quiséssemos produzir os mesmos 683 mil litros de vinho de Canaã, sem milagres, precisaríamos de 573.720.000 litros de água, equivalentes a cerca de 210 mil piscinas olímpicas. O milagre está em que Jesus não desperdiçou uma gota d'água sequer.

Algumas vinícolas já estão reciclando a água, coletando o que vai para o ralo, filtrando-a e reutilizando-a de muitas maneiras: para voltar à irrigação ou jorrar nos toaletes

O mundo entra em 2009 com água mais cara e menos farta. Veja o que acontece com a indústria de vinhos australiana, repleta de sucessos. Os vinhos australianos ocupam o primeiro lugar das importações britânicas - o Yellow Tail é o vinho mais vendido nos EUA. O problema é que a Austrália vem enfrentando secas desde 2003. Os seus agricultores vêm substituindo o cultivo de arroz pelo de uvas, cuja produção utiliza muito menos água do que a do arroz.

O mundo de abundância e baixos preços, criado pela globalização a partir de 90, está em crise, como sabemos. O crescimento desse modelo foi acompanhado por problemas ambientais e, agora, o que era fartura está se transformando em escassez. E o que é verdade para o arroz na Austrália é verdade também para o vinho em todo o mundo.

O suprimento de água para a produção de vinho é naturalmente limitado pela natureza, sofrendo com os problemas de mudança climática, efeito estufa etc. Imediatamente, o fornecimento está limitado por fatores que competem entre si. Precisamos da água para manter os peixes dos rios, para abastecer residências, indústrias e o comércio. E, claro, a água é necessária para outros cultivos além da uva. E o nosso arroz e feijão de cada dia?

Como as populações continuam a crescer e a se concentrar cada vez mais em centros urbanos, precisam de água para sobreviver. Com problemas como os da Austrália, de seca (promovida por mudanças climáticas, por sua vez infladas por políticas de crescimento a qualquer preço, altamente poluidoras), a água começa a faltar, em quase todo o mundo.

A agricultura sofre, os cultivos se alteram, como está acontecendo na Austrália: a seca levou ao declínio da produção de uvas em algumas áreas e a uma substituição do arroz pelas uvas em outras. Na Califórnia, existe um quadro igual: as uvas consomem mais 25% de água do que os grãos, embora menos do que o milho e o tomate. O consumo de água para a produção de uvas viníferas varia. A irrigação nem sempre é necessária ou mesmo desejável. Mas a produção de vinho em larga escala torna o setor dependente de água.

O consumo de água, contudo, não termina com a colheita das uvas. Na adega, onde as uvas são fermentadas e o vinho efetivamente produzido, são necessários 23 litros de água para 4 litros de vinho. E depois temos água para lavar os tanques e mais água para limpar todos os demais equipamentos. Algumas vinícolas já estão reciclando a água, coletando o que vai para o ralo, filtrando-a e reutilizando-a de muitas maneiras: para voltar à irrigação ou jorrar nos toaletes.







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