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Modelito centenário
Sutiã comemora 100 anos de puro charme, conforto e sensualidade
Por Daniela Pessoa • 09/09/2007

Rendado, liso, meia taça, de algodão... O sutiã é a peça chave do guarda-roupa feminino - se bobear, ganha até do pretinho básico. Afinal, ele é nosso companheiro diário - o que seria de nós, mulheres, sem a proteção (e sustentação!) dos seios? Mas 2007 é um ano especial para aquele que viveu uma história de tantos altos e baixos, de amor e ódio: neste ano, o sutiã, que é arma de sedução mas que já foi queimado em praça pública, comemora 100 anos de vida. De velho, porém, não tem nada. Cada vez mais repaginado, atualizado e tecnológico, ele é aquele amigo que - ainda bem - não sai do peito! Sua história, inclusive, acompanha e se mistura à própria trajetória das mulheres no passar dos anos. Como tudo começou? Com um gesto de rebeldia, ou melhor, ousadia.

Veja alguns modelos no slideshow.

Saiu na revista!

Em 1907, a palavra brassière, em francês, apareceu pela primeira vez num editorial de moda nos EUA, referindo-se à peça que mais tarde seria conhecida como a queridinha da mulherada: o sutiã. Tanto é que, lá, o nome pegou - de brassière, os americanos abreviaram para bra. No século XX, então, ficou oficializada a amizade entre a peça íntima e as mulheres, mas, na verdade, o namorico já vinha de longas datas. "O sutiã foi inventado e reinventado várias vezes", garante o jornalista Otávio Nazaré, autor de Intimidade Revelada (Editora Olhares).

A cada década os seios eram vistos de formas diferentes por homens e mulheres

Antes de aparecer na imprensa, foram dois os marcos importantíssimos na história de vida do sutiã. Primeiro, em 1889, quando a francesa Herminie Cadolle inventou um protótipo que libertou o sexo feminino da ditadura do espartilho. O ancestral do sutiã era tão difícil de ser vestido e tão incômodo que muitas mulheres até desmaiavam ao usá-lo, pois mal conseguiam respirar. "Os sutiãs do século XIX, porém, eram muito curiosos, apenas uma tentativa de substituir o espartilho de uma vez por todas", afirma Otávio Nazaré. "Era preciso mais liberdade de movimento, conforto e praticidade", explica o jornalista.

O sutiã "moderno", como hoje conhecemos, foi desenvolvido e patenteado pela americana Mary Phelps Jacob, mais conhecida como Caresse Crosby. Ela conseguiu tornar a peça mais macia, curta e funcional. A jovem nova-iorquina se revoltou contra o espartilho de barbatana que, como se não bastasse apertá-la, aparecia no vestido de noite que certa vez usou. Bastou incomodar uma vez para a americana se zangar e dar um jeito na situação. Reza a lenda que, com a ajuda da empregada, Mary improvisou um sutiã com dois lenços de seda, uma fita e um cordão. As amigas adoraram e não deu outra: logo a moça começou a vender as peças, que chegaram às consumidoras em 1914. Era dada a largada à indústria de lingeries.

Marco Sabino, autor de Dicionário da Moda (Editora Elsevier), conta que, na mesma época, o estilista Paul Poiret - ícone da moda no século XX - abriu sua própria loja em Paris. Seus estilos revolucionários de vestidos forçaram as mulheres a abandonarem o corset, espécie de espartilho que dava aquele aspecto "peito de pombo" aos seios, aproximando-os e estufando-os. "Poiret inaugurou uma moda mais solta em oposição à silhueta das mulheres da Belle Époque, super definida pelo corset, peça que, por sinal, ele odiava", afirma Marco.

A gangorra do sucesso

Quando estourou a Primeira Guerra Mundial, o sucesso do sutiã já era tanto que o governo americano precisou pedir à mulherada que parasse de comprá-lo, porque o metal utilizado na armação da peça era o mesmo utilizado para confeccionar armas. "Mas, nos anos 20, o sutiã ainda compunha o estilo garçonne, achatando o busto", revela Marco Sabino. A onda do momento, segundo Otávio Nazaré, eram as flappers, moças de cabelos curtinhos, maquiagem pesada e muita atitude. "Elas usavam faixas para comprimir os seios, porque bonito era ter busto pequeno", revela Otávio.

"A cada década os seios eram vistos de formas diferentes por homens e mulheres", ressalta o estilista Marco Sabino. Só na década de 30 a silhueta feminina volta a ser valorizada - com os bojos e estruturas de metal que realçam os seios. É quando surgem, também, os diferentes tamanhos da peça. A estrela da época foi um modelo de sutiã com bojos mais fundos, que deixavam os seios pontudos e torneados. Ele chegou ao auge da fama (e de vendas) na década de 50. Já o material de que era feito o sutiã só começou a mudar com a escassez de seda provocada pela Segunda Guerra Mundial. Fibras sintéticas como náilon e látex passaram a ser utilizadas, dando mais elasticidade, leveza e resistência à peça.

"O New Look Dior trouxe, no pós-guerra, a valorização das formas femininas e o busto voltou a ocupar lugar de destaque", afirma Marco Sabino. O sutiã conquistou as musas de Hollywood e passou a acompanhar a anatomia dos seios fartos de algumas atrizes. Nos anos 50, Brigitte Bardot apareceu com um sutiã meia-taça enfeitado com rendas - aí, já viu: do editorial para o cinema, do cinema para o mundo!

Nos anos 60, o sutiã enfrentou um momento conturbado em sua vida. Convencidas de que ele era o principal símbolo de repressão masculina, feministas queimaram a peça em praça pública nos EUA. Era a época de valorização dos seios pequenos e dos sutiãs mais delicados, sem costura, leves e transparentes. "Mas essa cultura foi sendo substituída, novamente, pelo culto ao corpo, inclusive seios, e os sutiãs foram ganhando espaço outra vez, até mesmo porque os médicos os recomendavam", diz Otávio Nazaré.

Bonito é para se ver

A última grande mudança no conceito de sutiã foi o de outwear, quando a peça passou a ser vista não como uma peça íntima, mas como um acessório da moda que deve aparecer para compor o visual, seja na forma de bodies, bustiês, corpetes ou mesmo sutiãs. A cantora Madonna foi uma das primeiras mulheres a despertar a idéia de que a peça também é moda. Quem não se lembra de seu sutiã metalizado em forma de cone? "A Madonna chegou para perturbar, provocar e mostrar que sutiã não deve ficar guardado no armário", garante o estilista Marco Sabino. Segundo Otávio Nazaré, a cantora resgatou a lingerie com um ar fetichista, conferindo-a sensualidade.

E, como todo mundo sabe, o que é bonito é para se mostrar. Rozenubia Praciano Rocha, proprietária da Robia, marca cearense de lingerie, garante que sutiã é, mais do que uma peça íntima, um acessório de moda. Hoje, é quase sinônimo de jóia. A Victoria's Secret, marca americana de lingeries, trouxe essa idéia com força total. Em 2005, Gisele Bündchen posou pela marca com o Sexy Splendor Fantasy Bra. O sutiã, de ouro branco com diamantes e rubis, levou 300 horas para ficar pronto. Um verdadeiro tesouro!

Rozenubia também deixou seu legado: em homenagem aos 100 anos do sutiã, ela desenhou uma peça com fios de ouro* representando os fios de Lycra. "Quis passar a idéia de que o sutiã realça a beleza da mulher, portanto não é para ficar escondido", conta. "Uma bela lingerie é capaz de fazer tanto milagre que a gente pode até preferir ser vista com ela a ser vista totalmente nua, não é mesmo?", brinca a proprietária da Robia.

Fashion e confortável

Que dá vontade de comprar, dá, mas, se você quiser compor um look bonito e, ao mesmo tempo, diferente e ousado, não é preciso pagar milhões por um sutiã-jóia. Para começar, você pode optar por alças de strass, por exemplo. "Ficam lindas à noite e são super sensuais", recomenda Rozenubia. O que antes era um escândalo de indecência e vulgaridade, agora não apenas é válido, como também superfashion deixar o sutiã à mostra.

Aline Blanco, gerente de produto da marca Hope, afirma que a tendência é tirar proveito das alças do sutiã para brincar com o visual. "Tem de tudo: coloridas, de oncinha, de strass... Alguns têm até alças removíveis, sendo possível comprá-las avulsas em várias cores e estampas", revela Aline. "Alças de oncinha combinadas com uma regata preta ou alças turquesa contrastando com uma regata branca são combinações superestilosas que resultam em puro charme", recomenda.

Mas, alto lá! Existem estilos e estilos. "Para cada momento, há um sutiã ideal. Dependendo do seu ambiente de trabalho, não vale apostar em alças aparecendo. À noite, por exemplo, também não recomendo que apareçam. Para essas ocasiões, prefiro sutiãs sem costura, que não marcam a roupa", ensina Aline. Denise Mello, estilista da marca DiLady, recomenda os sutiãs conversíveis para quem não quer - ou simplesmente não gosta - deixar as alças à mostra. "São sutiãs que permitem vários cruzamentos de alças, como o X nas costas. Elas acompanham o recorte da roupa que você está usando", explica Denise.

Rozenubia Rocha, da Robia, também dá o seu recado: "Se despeça das alças de silicone, que estão dando adeus à moda". E, é claro, certifique-se de que as alças estão limpinhas. "Nada mais feio do que alças de sutiã encardidas ou amareladas, no caso das de silicone, aparecendo", avisa o estilista Marco Sabino.

Outra dica para inovar é não casar sutiã com calcinha. "Ambos não precisam ser da mesma cor. Podemos brincar com as combinações", garante Aline, da Hope. "Mas com bom senso, é claro!", ri Aline. E se você quer um visual elegante, clássico e sensual, aposte na renda - ela não sai de moda! Só tome cuidado com a numeração. "Usar um sutiã dois números abaixo do seu para fazer os seios saltarem não é nada sexy, ao contrário do que se imagina", avisa Denise, da DiLady. Segundo ela, o sutiã precisa ser escolhido no tamanho certo, até por uma questão de conforto. E atenção ao bojo e meia-taça: "não caem bem em seios com silicone", alerta Denise.

Quanto ao material, a Lycra, desde que foi inventada, continua sendo unanimidade entre os especialistas como melhor material para se fazer o sutiã. A ela podem ser aliados outros tipos de fibras, como as modernas microfibras ensaboadas, com toque de cosméticos. "O algodão é muito confortável, mas não é durável", esclarece Rozenubia.

Cem anos de vida

Em 100 anos, a moda trouxe uma infinidade de cores, materiais e estilos de sutiã - do esportivo de algodão até o mais sofisticado modelo de rendas, fitas e alças aveludadas. Seja aumentando, diminuindo, escondendo, aproximando ou afastando os seios, o sutiã passou de coadjuvante a protagonista no figurino da mulher, tornando-se um aliado fiel na busca pela beleza, conforto e sensualidade. Parabéns!

* a peça será leiloada e a renda, doada ao Instituto do Câncer do Ceará (ICC). Para mais informações, acesse www.robia.com.br



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