O convite diz que o leilão começa às 15h. Todos os objetos estão disponíveis, inclusive a casa em si, que será o último lote. Seu dono, um velhinho simpático de orelhas compridas, que supomos ter passado desta para outra um pouco melhor, nos espera na porta de entrada e aponta três cadeiras no fundo da sala onde sentamos.
Há cerca de 80 pessoas de frente para o único homem engravatado nessa tarde quente: o leiloeiro, que, atrás do púlpito e dentro do terno, transpira. É só calor - nervosa estou eu que, virgem de leilões, arregalo os olhos. Um garoto de uniforme caminha entre as cadeiras segurando acima da cabeça o primeiro dos 250 lotes: um livro, um livro velho, ilustrado, sobre o qual não tenho maiores informações. Procuro o velhinho das orelhas compridas para pedir uma dica, mas ele não me vê.
- Lance livre. Alguém me dá 10 reais? Somente 10 reais. 10 reais. Vendido.
Em menos de cinco segundos, o leilão começa, alguém dá o lance, o leiloeiro bate o martelo e a expressão se enche de sentido bem ali na minha frente - jamais será a mesma. Quando o leiloeiro bate o martelo, o som é seco e a decisão, definitiva.
Os lotes seguintes passam por nosso crivo em fast-forward, como as batidas do meu coração. O leiloeiro fala rápido, o lote passa rápido, os lances são rápidos, som seco, vendido.
- Vinte! - diz meu cunhado, duas cadeiras à esquerda, levantando a mão por um livro que tem "Maracanã" no título.
- Vendido - diz o leiloeiro, bate o martelo, som seco - Qual é o seu número?
Eu não sabia, mas temos um número. Está escrito em letras grandes sobre um papel onde, no verso, escrevemos nossos dados: nome, endereço, identidade e CPF. Ninguém checa a assinatura, ou pede comprovante de residência. Supõe-se que todos ali cumprirão a palavra - que, meu pai me ensinou, é o que temos de mais valioso. Gosto do leiloeiro. Como ele, também acredito nas palavras e que as pessoas hão de honrá-las. É a partir desse momento que começo a pensar nelas, nas palavras, na força que têm, nas que já sabia que escreveria aqui, nas que adoraria ouvir e não vêm, na falta que as palavras me fazem, nas que preciso dizer, mas resisto.
Meu balão de palavras não-ditas arrebenta no ar. Foi o indicador esticado da minha irmã, que arremata um par de tachos de ferro por excelente preço. Se meus dois acompanhantes já lançaram e arremataram, sou eu a próxima da fila. Contraio o abdome. Passam alguns lotes que me agradam - uma cadeira de madeira e assento de palha, um centro de mesa, um dicionário de pensamentos (!) - mas não tenho a audácia. Até que surge o lance de número cento e vinte e três: um abajur que, de relance, me acende.
Dar o primeiro lance é como abrir o coração pela primeira vez para o rapaz. Adia-se, perde-se boas oportunidades, treina-se baixinho, sussurra-se às duas da manhã na torcida para que ele não ouça, tenta-se em vão, troca-se de assunto, até chegar a hora em que as palavras escapam boca afora sem que se possa voltar atrás. O resultado desse despautério ou é uma delícia ou uma calamidade - pouco (ou nada) pode ser pior do que um amor não-correspondido. É por isso que passo a chave e dou duas voltas.
Olho para o abajur e estico o dedo até lá em cima, como se quisesse alcançar o teto da casa de pé-direito alto do velhinho de orelhas compridas, que, nessa hora, olha para mim. Tremo. E é como se eu tivesse tirado a roupa em cima da mesa. O velhinho sorri. Enrubesço. Pelo menos no leilão, minha investida dá certo.
- Vendido. Parabéns. Qual é o seu número?
Pronto: falei. E sou a mais nova proprietária de um abajur de metal, penduricalhos de vidro e valor de poucos reais. Tenho dúvidas se ele é de fato bonito - importa mais que foi arrematado por mim, no leilão, na casa de pé-direito alto do velhinho de orelhas compridas. Vou cuidar dele, mostrar para as minhas visitas como quem levanta um troféu e memorizar essa coluna para repetir a cada vez que me for perguntado onde o comprei, fazendo de conta que é um improviso.
Deixo o leilão sem pagar nem levar, mas com a certeza da palavra - está tudo apalavrado. Dou boa noite ao velhinho de orelhas compridas, que está ansioso pelo último lote e nem me responde. Bato o martelo e vou embora, com a sensação de quem diz "eu te amo" pela primeira vez.
Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.



