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Por motivos do coração, há mais de dez anos, eu criei coragem e troquei minha vida de sol e praia no Rio de Janeiro pelo nebuloso inverno londrino. Desde então, eu sofro com o frio. No meu primeiro ano, tal qual uma criatura gótica, eu saia embrulhada em meu manteau preto diariamente, inclusive durante o verão. Eventualmente, eu consegui me ajustar melhor ao inverno londrino (estação que dura 365 dias), aceitando que esse é o preço que se paga pelo privilégio de morar numa cidade tão legal como Londres. Mesmo assim, ainda carrego comigo a síndrome de abstinência de um bom verão ensolarado!
O pior do clima inglês não são as temperaturas baixas ou a chuva fina mas o fato de que o sol quase nunca aparece. Pergunte a qualquer novaiorquino como ele faz para agüentar aquele inverno rigorosíssimo e a resposta é sempre a mesma: o clima seco e o céu azul ajudam. Imagino que waffles e panquecas idem (pelo menos na minha visão gulosa). Isso não ocorre na Inglaterra dos invernos tristemente úmidos, cinzentos e sem a consolação de waffles e panquecas!
Para agüentar os meses mais escuros, temos que nos valer de muito chá e, em alguns casos, de lâmpadas que reproduzem artificialmente a luz do sol. Juro. E, se a primavera e o verão trazem a promessa de um clima mais ameno, esta nunca se concretiza: o casacão pode até dar lugar a uma jaqueta mais leve, suéter ou pashmina, mas sempre carregamos conosco alguma camada protetora e o obrigatório guarda-chuva. Raros são os dias em que podemos passear pela cidade sumariamente vestidos: sandálias, uma saia leve, bermudas, camiseta. Só de pensar... brrrrr...
Então, como visitar Londres e sobreviver essa tortura climática? Além de um bom agasalho, as opções abaixo também ajudam. De preferencia utilizar todas ao mesmo tempo. Palavra de quem treme de frio diariamente há mais de 10 anos!
1) Sair para tomar chá da tarde. Um ritual democrático e ao mesmo tempo chique que evoca o glorioso passado vitoriano de Londres. Das casas de chá mais econômicas (Shipps Tearooms, Tea) às mais caras (The Lanesborough) há opções para todos os bolsos. Um ótimo programa sozinho (munido de um bom livro) ou acompanhado! No mínimo peça um "cream tea" (chá acompanhado de scones - deliciosos pães com gosto de bolo - com creme, manteiga e geleia)
Onde: Tea, Shipps Tearooms, The Wolseley, The Dorchester, The Lanesborough
2) Chocolate quente. Feito com puro tablete ou flocos de chocolate, de preferência com consistência grossa e espumantes, a perfeita guloseima para os dias mais gelados.
Onde: Konditor & Cook, The Wolseley, La Maison du chocolat e Laduree at Harrods
4) Se enfurnar no Teatro ou no Museu. Não vale a desculpa de que é caro. Muitos museus não cobram pela visita e os teatros têm descontos para estudantes e ótimos preços para quem tiver disposição de assistir ao espetáculo em pé e/ou comprar assentos na ultima hora (a Royal Opera House por exemplo cobra cerca de £5 a £10 libras por um lugar em pé - mais barato do que uma entrada de cinema). Ewan McGregor, Ian McKellen, Ralph Fiennes são alguns dos nomes em cartaz em 2008. Jude Law está comprometido com o teatro Donmar Warehouse para protagonizar Hamlet em 2009 (ingressos já estão à venda).
Onde: teatros - Royal Opera House, Sadler's Wells, the Roundhouse, Donmar Warehouse, the Haymarket, the Almeida, National Theatre, the Old Vic, museus - Tate Modern, Tate Britain, National Gallery, V&A, The Wallace Collection
5) Aproveitar cada gota de sol. Assim que abrir uma fresta de bom tempo, munido de um bom agasalho, ir ao encontro dos milhares de esquilos que habitam os parques londrinos (alguns são tão bem nutridos que chegam a parecer coelhos). Não há nada como a natureza insubmissa e o frescor dos parques ingleses. Com sorte pode ser que você cruze com uma ou duas raposas também...
Onde: Hyde Park, St. James's Park, Hampstead Heath, Primrose Hill
Consuma muito chá e chocolate, tome um banho de cultura, ande até as pernas doerem e comemore cada raio de sol como se fosse o ultimo, mas não deixe de visitar essa cidade eclética e fantástica que brilha mesmo sem sol!
Emilia Ferraz é anglófila inveterada e mora em Londres desde 1997. Nas horas vagas, adora passear por vários cantos do mundo e experimentar todo tipo de tira-gosto cultural, desde que bem temperado: da literatura ao teatro, da música clássica ao rock punk, da arte vitoriana ao surrealismo e da gastronomia fina ao simples arroz com feijão. Emilia mantém um diário de suas experiências no blog Monomania Diaries.  Leia mais deste autor.
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