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A estação de outono aqui na Inglaterra nos traz dias curtos e gélidos - e, com eles, a vontade de ficar em casa debaixo das cobertas, vendo televisão. Sabendo disso, a rede de TV BBC sempre espera até o final de outubro para levar ao ar suas adaptações de clássicos da literatura inglesa. Com orçamentos cada vez mais ilimitados e elencos de primeira classe, estas são, geralmente, produções de altíssima qualidade, como a sensualíssima adaptação de Jane Eyre, de 2006. Ou a impagável minissérie Cranford, do ano passado, sobre as fofoqueiras irmãs Jenkyns (uma delas interpretada por Judi Dench), por mim apelidadas de "Cajazeiras vitorianas".
Este ano, coube ao roteirista Andrew Davis - especialista nos clássicos e conhecido do público inglês pela sua adaptação de "Orgulho e Preconceito", em 1997 - a tarefa de adaptar para a BBC um livro relativamente desconhecido de Charles Dickens: Little Dorrit, ou "A Pequena Dorrit", que de pequena não tem nada, já que se trata de uma obra de mais de mil páginas. Embora o livro tenha sido escrito entre 1855 e 1857, seu tema central continua atualíssimo nesses tempos de crise financeira: Amy Dorrit (interpretada pela novata Claire Foy) é a filha caçula do presidiário William Dorrit (Tom Courtenay), encarcerado na prisão de devedores de Marshalsea há mais de 20 anos. Note-se que na época de Dickens era este o destino de qualquer homem que não tivesse meio de saldar suas dívidas, tendo o próprio pai do autor passado por uma experiência similar na mesma prisão.
Apesar de nascida e criada na prisão, Amy é, paradoxalmente, uma pessoa internamente livre, por não ser apegada ao excesso de materialismo que escravizam seu pai, o irmão jogador e a irmã mais velha, uma dançarina de cabaré vulgar e fútil. A pequena Dorrit divide o pouco que ganha em seu trabalho de costureira com o pai e amigos, e desenvolve ao longo dos episódios uma fiel amizade com o filho de sua patroa, Arthur Clennam (Matthew Macfadyen, o Mr. Darcy do filme "Orgulho e Preconceito" de 2005), um homem generoso que se revolta com as injustiças sociais a sua volta e vê em Amy um exemplo de coragem e determinação. Graças a uma complexa rede de intrigas por onde transitam vários personagens secundários tipicamente "Dickensianos", os prováveis destinos de Amy e Arthur vão se invertendo de modo surpreendente.
A mensagem de Little Dorrit, como na maioria das obras de Dickens, é moralista: os personagens maus tendem a ser punidos e o autor sempre dá um jeito de enfatizar que a felicidade depende de valores como bondade e generosidade. Mas se os finais das histórias tendem a ser simplistas, pelo menos seus personagens são complexos e muito bem observados. As inseguranças e as mesquinharias da vida em sociedade são retratadas de modo realista. Nenhuma neurose, nenhum defeito de caráter escapa do senso crítico de Charles Dickens. Um dos grandes prazeres de acompanhar a sua obra é reconhecer ali muitos dos "personagens reais" que já encontramos pela vida afora.
Emilia Ferraz é anglófila inveterada e mora em Londres desde 1997. Nas horas vagas, adora passear por vários cantos do mundo e experimentar todo tipo de tira-gosto cultural, desde que bem temperado: da literatura ao teatro, da música clássica ao rock punk, da arte vitoriana ao surrealismo e da gastronomia fina ao simples arroz com feijão. Emilia mantém um diário de suas experiências no blog Monomania Diaries.  Leia mais deste autor.
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