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Ana Luiza acorda às seis da manhã e começa a rotina: toma banho, se arruma, acorda as crianças. Prepara o café e adianta o almoço ao mesmo tempo. Às sete, os pequenos já estão arrumadinhos para a escola, fazendo bagunça no banco de trás do carro, enquanto Ana aproveita para fazer a maquiagem. Em meia hora chega ao seu escritório, depois de deixar as crianças no colégio. Reuniões, atendimentos, telefonemas e audiências fazem parte das manhãs desta advogada de 30 anos, que mora longe da família e optou por não ter uma empregada. E este é só o começo do dia. Por isso e mais um pouco, Ana Luiza se considera uma mulher "ligada na tomada".
Todo mundo sabe que o tempo é um fator de crucial importância nos dias de hoje. No entanto, é preciso pegar leve e parar para respirar. Acumular tantas tarefas pode ser bastante estressante e levar a pessoa a uma sensação de que nada está sendo bem feito. "Pode comprometer a qualidade daquilo que você realiza e, muitas vezes, não deixa espaço para uma reflexão mais aprofundada e para a expressão da criatividade", alerta a psicóloga Sâmia Simurro, vice-presidente de projetos da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV).
Segundo a especialista, esse acúmulo de funções tão presente na vida de várias mulheres teve início na década de 50, quando as feministas conquistaram o direito de trabalhar fora. Assim, a mulher precisou unir os afazeres de esposa, mãe e profissional - e se sobrecarregou. "Ela não abriu mão de suas tarefas domésticas e, por outro lado, o homem ainda não compartilha com ela, na mesma proporção, a educação dos filhos e a administração da casa", observa a psicóloga.
No caso de Ana Luiza, é isso mesmo que acontece. Sua hora de almoço é preenchida com a saída das crianças do colégio e uma passadinha em casa para almoçar com os filhos. Durante a semana, ela alterna deixá-los na escolinha de futebol, que é emendada ao judô e às aulas de inglês e espanhol. Assim, as atividades dos filhotes se encaixam perfeitamente no horário de encerramento do expediente profissional da advogada.
Sem escolha
A vida moderna já não dá à mulher mais a opção ficar em casa ou trabalhar. Atualmente, é importante que ela conquiste o seu espaço no mercado profissional e reforce o orçamento familiar. "As estatísticas indicam que nos anos 50, apenas 12% das mulheres que eram mães trabalhavam fora. Hoje, este número já é maior que 60%", mostra Sâmia.
Assim, querer dar conta de tudo ao mesmo tempo é uma conseqüência cultural. "As mulheres se cobram sobre os seus papéis de mãe e esposa, mais do que os homens se cobram em seus papéis de pai e marido. Isso acaba se tornando fonte de muito estresse para elas, a partir do momento que também têm que dar conta do trabalho", analisa a psicóloga.
E, de fato, o comportamento de homens e mulheres difere bastante quando o assunto é divisão de tarefas. Sâmia dá um exemplo: "Quando a mulher leva trabalho para casa, antes de se dedicar a ele, a mulher vai fazer o jantar, dar atenção aos filhos, ao marido, e só então é que vai terminar suas tarefas profissionais. Já com o homem é diferente. Ele janta e vai trabalhar".
O marido de Ana Luiza dorme bem mais cedo que ela exatamente por isso. Quando ele chega do trabalho, a esposa já preparou o jantar, entre uma ajuda e outra na lição de casa dos filhos. As crianças já estão de banho tomado, e ela ainda de terninho e salto agulha. O figurino só se desmonta às 22 horas, quando ela consegue, finalmente, tomar banho. A esta altura, Arnaldo, seu marido, já jantou com a família e arrematou as pendências do seu trabalho. Ana despenca na cadeira e prepara algumas petições. O computador só é desligado perto da uma da manhã.
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