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O último dos veleiros franceses, o Belém, construído em 1896, um barque de três mastros, já deve ter chegado a Dublin, Irlanda, talvez a tempo de participar das comemorações pelo Dia da Terra, agora, em 22 de abril. É a primeira vez desde fins de 1800 que uma carga de vinhos é transportada com um rastro zero de dióxido de carbono (CO2).
Belém, de 52 metros, leva 60 mil garrafas de vinhos do Languedoc, sul da França, para a capital irlandesa. Assim transportada, cada garrafa representará uma economia de 140 gramas de dióxido de carbono, se compararmos com o gasto em navios a motor. Cada garrafa terá no rótulo a inscrição: "Transporte feito por veleiro, melhor para o planeta". Melhor de fato, pois no total 8.300 toneladas de gases nocivos ao planeta deixarão de ser emitidos.
O dono do Belém, Frederic Albert, fundador da Companhia de Transporte Marítimo à Vela, diz que sempre foi sua idéia fazer alguma coisa pelo planeta e pelos vinhos do Languedoc, onde 50 produtores de vinho já foram selecionados como fornecedores do Belém. Todos eles adotam práticas saudáveis, como a produção orgânica, que evita o uso de pesticidas e outras químicas. O veleiro Belém é o primeiro de sete que a empresa operará até 2013.
Os cuidados com a Terra não terminam com o vinho pronto. Seu transporte deve também ser o mais sustentável, ter um o menor rastro de carbono possível. A distância entre o ponto de origem do vinho e o de chegada é importante: quanto mais distante, mais emissões de CO2. O meio de transporte também é essencial: navios são mais eficientes (emitem menos) do que caminhões, que por sua vez se saem melhor do que aviões. Transportar vinho a granel, em containers, é mais eficiente do que o vinho em garrafas, pois o peso final da carga é menor. O vinho a granel é engarrafado apenas no ponto de chegada, bem próximo dos locais de entrega, numa manobra que pode reduzir as emissões em até 40%.Além disso, já se experimentam maneiras de produzir garrafas mais leves, utilizando quantidade menor de vidro, reduzindo-se as emissões durante o transporte. Quanto à idéia de substituir garrafas de vidro pelas de PET (de polietileno, bem mais leves), sabe-se agora que a manufatura de vidro emite menos dióxido de carbono do que a de PET. Garrafas mais leves podem reduzir as emissões em até 30%. E mais se conseguirá com embalagens do tipo Tetra-Pak.
A indústria vitivinícola implica em emissões de gases, seja durante o processo de fermentação, quando o açúcar da uva prensada é convertido em duas moléculas de álcool e em duas de CO2. No cultivo tradicional, as uvas utilizam entre 50 a 100 quilos de agroquímicos (desinfetantes, esterilizantes e fertilizantes) por tonelada produzida, enquanto o milho fica nos 40 quilos. E essas químicas são produzidas a partir de combustível fóssil, petróleo, a mãe de todas as emissões. Alguns produtores já utilizam energia verde, fornecida por turbinas movidas a energia eólica, pelo mesmo vento que conduz o nosso veleiro. O objetivo final é absorver tanto dióxido de carbono quanto o emitido, em linha com a filosofia do ISO 14001: plantar árvores ou contribuir com a regeneração da biosfera de modo a que flora e fauna consumam a mesma quantidade de CO2 emitida em suas vinícolas. Outros reciclam água, de modo a poupar aqüíferos, além de plásticos e papéis.
Vamos brindar com vinho o Dia da Terra, festejar a pioneira iniciativa de usar até um veleiro, de selecionar melhor os meios de transporte da bebida, aperfeiçoar suas embalagens e utilizar energia verde. Mas ainda coexistimos com graves problemas. Nós mesmos, os maiores predadores da Terra.
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