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Uma corte francesa decretou que, a partir de agora, artigos sobre vinhos em jornais devem apresentar as mesmas advertências contidas nos anúncios de bebidas alcoólicas. Quer dizer, qualquer conteúdo jornalístico sobre bebidas alcoólicas, a começar dos vinhos, passa a ser considerado um anúncio pago e deve passar a incluir advertências como "L'abus d'alcool est dangereux pour la santé. Consommer avec modération", que é utilizada normalmente nos rótulos dos vinhos do país. Nada diferente das nossas "Evite o consumo excessivo de álcool", "Beba com moderação" etc.
Algum juiz lá leu a matéria do diário Le Parisien, "O Triunfo da Champagne", sobre o sucesso da bebida nas festas de Natal e imediatamente julgou o texto uma peça publicitária, mesmo que a página do jornal não fosse paga e o texto se identificasse claramente como matéria jornalística.
É óbvio que uma reportagem dessa natureza, como sempre, qualifica e recomenda marcas, fala sobre os produtores e apresenta preços, um serviço para os leitores. Mas o juiz achou que, até pelos seus entretítulos ("Boas e baratas", "Champagne, a incontestável estrela da festa", "Quatro garrafas de sonho"), se identificavam claramente como um anúncio.
Assim, a corte julgou que esse artigo tinha a intenção de "promover vendas de bebidas alcoólicas, exercendo ação psicológica sobre o leitor, incitando-o a comprar álcool". E que "qualquer comunicação a favor de uma bebida alcoólica (tal como o artigo sobre o espumante) constitui uma publicidade e, portanto, sujeita ao código de saúde pública".
O Le Parisien foi obrigado a pagar cinco mil euros à Associação Nacional de Prevenção ao Alcoolismo e à Dependência (ANPAA), mas sob protestos de que o artigo era puramente uma peça editorial.
A decisão é, sem dúvidas, uma escandalosa violação da liberdade de imprensa. Um dos dogmas do jornalismo numa democracia é a intocabilidade dos fatos tais como são registrados ou interpretados, sem interferência de governos ou de quaisquer outros órgãos.
Nosso trabalho como jornalistas não é simplesmente "comunicar". É informar, participar da educação dos leitores e não fazê-los encher a cara.
Parece até que o judiciário francês é uma "Appelation Descontrollée". Em 2003, a corte de Villefranche-sur-Saône quase leva uma revista, a Lyon Mag, à falência, apenas por ter citado o comentário de um eminente crítico, François Mauss, presidente do "Grande Júri Europeu de Vinhos", sobre os vinhos Beaujolais. Mauss afirmou que a região conscientemente comercializava um "vin de merde".
A revista foi condenada a pagar perto de US$ 350 mil aos produtores de Beaujolais. Toda a imprensa do país protestou, houve apelação e só em 2005 a corte voltou atrás e liberou a revista da multa.
A publicidade de bebidas alcoólicas e cigarros na França é regida pela severa "Lei Evin", desde 1991. Ela proíbe anúncios dirigidos a jovens, publicidade de bebidas em televisão ou cinema e até patrocínios de eventos culturais e esportivos. Nos veículos, eventos ou lugares onde a publicidade é autorizada o seu conteúdo é controlado.
E mais, as mensagens e imagens contidas nos anúncios devem se referir estritamente às qualidades dos produtos (como origem, composição, meios de produção, modos de consumo etc.).
Como conseqüência, desde 1991, a linguagem da publicidade perdeu o seu caráter sedutor. Não mais se permite mostrar consumidores ou retratar atmosferas favoráveis ao consumo de bebidas. Por isso, as pessoas foram banidas dos anúncios.
Isso acontece no país que originou o lendário Paradoxo Francês. Em 1991, o famoso programa 60 Minutes, da CBS, levou ao ar uma reportagem mostrando por que os franceses sofrem relativamente pouco com doenças coronarianas, apesar de sua dieta ser extremamente rica em gorduras saturadas. A razão está no consumo regular de vinho, em particular o tinto, cujas vendas cresceram cerca de 40% só nos Estados Unidos, da noite para o dia. Pois a França parece agora preocupada que os leitores passem a achar que os vinhos sejam uma bebida saudável.
O Presidente Nicolas Sarkozy, em sua campanha eleitoral ano passado, prometeu reformar a "Lei Evin". Mas nada fez até agora. Ele que, sobre os vinhos, diz que França deixou de ser competitiva por conta de uma legislação de má qualidade.
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