• Crédito: Reprodução


Globalizaram o bolso?
A palavra de ordem no mundo e na moda é globalização. As necessidades e desejos das mulheres são os mesmos em todos os lugares do mundo, só falta o poder de compra.
Por Maria Fernanda Haro • 13/11/2005


O preço dos acessórios que seleciono para ilustrar este nosso espaço, por vezes, causa um certo frisson. Mais do que selecionar as maiores barganhas do mundo fashion, me preocupo em trazer para cá os últimos lançamentos e o que há de mais bacana em termos de design. Como resultado as melhores grifes, nacionais e internacionais, aparecem. O objetivo é mostrar o quanto as idéias e desejos estão homogêneos, independentemente se é uma mulher do Brasil ou do Japão. As necessidades e vontades de homens e mulheres contemporâneos, com acesso à informação, são praticamente os mesmo em todos os lugares. Pura conexão global.

A moda tem um papel crucial nessa história: o de tornar externas nossas vontades, comunicando ao outro nossas escolhas (uma das poucas exclusivamente pessoais que fazemos diariamente). E comunicar ao mundo significa se posicionar, ser julgado e aceito por ele. Para facilitar as coisas, nos aglomeramos em grupos e consumimos as mesmas "idéias". É como um código de acesso, uma senha, coisa tão comum hoje em dia. A informação globalizada tornou o repertório homogêneo.

Profetizou-se que era o fim dos limites. Grifes internacionais invadiram o Brasil. O Brasil invadiu lojas internacionais. O mesmo terninho que se veste aqui para ir ao escritório,  as mulheres de Nova York apostam. O mesmo biquíni que desfila em Saint Tropez no corpo da francesa está nas gatinhas de Ipanema. Tudo igual. Paris Hilton e Jenifer Lopes vestem a mesma calça jeans das funkeiras cariocas... tema até de novela.

Não é de se espantar que a customização, o toque pessoal tenha virado o rei deste início de século XXI. Uma forma de falar "Tô na moda, pertenço ao grupo, mas tenho identidade, coloquei minha assinatura no look". Para quem no passado imaginava que a essa altura do campeonato estaríamos desfilando em macacões de borracha conectados à Lua, seria um espanto nos ver moldadas por rendas rococós do século XVII, bordados feitos à mão, ou até mesmo (isto é incrível) por peles como na Pré-História.

Quando digo que o mundo tem desejos similares, significa que todos estamos dentro de um sistema, um padrão. Como consultora de moda já viajei por muitos lugares espetaculares do Brasil, conhecendo a riqueza de nosso materiais aplicáveis à moda (e quase tudo é aplicável à moda). Um dos trabalhos que ilustra bem essa história, foi um que realizei para uma cooperativa de moda na Amazônia. Minha função era informar meninas e mulheres que vivem à beira do Rio Branco o que é moda, a história dela, mostrar-lhes as últimas criações, valorizar a identidade nacional e estimulá-las ao trabalho com as matérias-primas regionais. Foi um trabalho delicioso, de muita proximidade com a cultura indígena, riquíssima. A questão é que foi muito fácil ilustrar para meninas e mulheres no meio da natureza exuberante, mas com acesso à internet e TV (especialmente, novelas), o quanto a moda é global. Mostrei uma foto de uma típica garota de Tókio, da mesma idade de muitas, vestida com a mesma sainha curta de babados de muitas. Foi engraçadíssimo.

Mas, será que basta a globalização da informação para vivermos em um mundo sem fronteiras? Acredito que não. Quero dizer que a moda está globalizada, mas nosso bolso não. Comparar nosso poder de compra com o dos Estados Unidos ou Europa é improvável. E para quem acha tudo absurdamente impagável, vale lembrar que antes de publicar a matéria faço a conversão dos preços com o câmbio do dia, o que significa que nos últimos meses, com o dólar bem abaixo dos R$2,50, os preços estão muuuuito mais "acessíveis". Bem, se a globalização cultural já aconteceu, resta-nos esperar pela econômica. Em euros, se possível.

Créditos:

Borbonese: www.borbonese.it
Lotus Arts: www.lotusartsdevivre.com
Louis Vuitton: www.louisvuitton.com
Dior: www.dior.com
Iradj Moini: www.iradjmoini.com
Robert Goossens: vende suas peças em loja própria, em Paris.

* Maria Fernanda Haro é estilista, editora de moda da butique virtual Brule e colaboradora de diversos veículos de moda. Se você tem alguma dúvida sobre acessórios ou sugestão de pauta para as próximas colunas, envie um e-mail para info@brule.com.br.


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