• Crédito: Pacha Urbano


Eu quero é mais!
Você começa a comer e não pára mais. Pega uma, duas, dez... e quando percebe, o saco está vazio. Tudo bem, é só pipoca. O problema do excesso é que ele ocorre com coisas nem tão inocentes assim, abrindo as portas da compulsão.
Por Laura Cavallieri • 07/10/2005

Existe algo melhor do que fazer sexo? Quanto mais, melhor. E comprar sapatos? Satisfação garantida sair da loja montada naquele par de salto agulha. E comer brigadeiro? Huuuum... tudo isso é uma delícia, devemos concordar. No entanto, todos esses prazeres, quando vividos ao extremo, não se tornam assim tão prazerosos. Verdade. Os excessos caracterizam a compulsão. Um comportamento que nos faz querer mais e mais alguma coisa, na tentativa de suprir uma carência - que, pela repetição do ato, podemos concluir que não vai cessar dessa forma.

A compulsão é caracterizada por um comportamento repetitivo que pode se manifestar em relação a praticamente qualquer coisa. Sua incidência ocorre em aproximadamente 2,5% da população. Apesar de atingir igualmente homens e mulheres, alguns tipos de compulsão são mais recorrentes em mulheres, como é o caso da alimentar. Com manifestações variadas, não é tão simples de ser detectada. O psiquiatra Paulo Quinet conceitua: "É tudo aquilo que a pessoa faz, e não consegue parar. Quando não se consegue resistir, é porque instalou-se um comportamento anormal, repetitivo. Uma pessoa normal não come compulsivamente. Ela come e pára. Mas a própria compulsão pode se manifestar em maior ou menor grau. A questão não é a quantidade, no caso, de alimento ingerido, mas sim na relação que a pessoa estabelece com o ato em si".

Praticamente todo hábito pode se tornar uma compulsão, mas é a alimentar a que mais atormenta as mulheres. Pois esta engorda!!! A produtora Cristina Sá sabe muito bem disso. “Aos 13 anos, cheguei a pesar 70 quilos. Desde então, vivo tomando moderadores de apetite, receitados pelo meu endocrinologista”, conta Cristina. Hoje, aos 25 anos, a produtora está dentro do seu peso ideal, no entanto, reveza momentos de tranqüilidade com semanas de ansiedade regadas a muita comida. “Posso engordar muito de uma semana para outra. Quando me sinto triste, tento compensar o vazio com comida. Funciona como um consolo, e o pior é que sei disso”, diz.

No entanto, o comportamento compulsivo não deve ser encarado como o problema e sim como um indício de que há algo errado. Tanto que o tratamento, através da psicoterapia, visa buscar a razão que está escondida por trás da compulsão, que pode ser orgânica ou psíquica. Especialista em hipnose, a psicóloga Virginia Marchini acredita que para tratar a compulsão, ela não deve ser avaliada como um comportamento. “Encaro o problema como uma dinâmica da personalidade como um todo, de algum fator inconsciente, trabalhando com meus pacientes o significado dela. Se tratarmos a compulsão em relação a uma determinada coisa ou objeto, mais cedo ou mais tarde, ela vai acabar se expressando através de algum outro comportamento”, adverte Marchini.

Apesar de estar ciente de que os quitutes são uma fuga, Cristina não consegue controlar a ansiedade, chegando a extremos. “Certa vez, fui a uma festa e encontrei um ex-namorado. Achei que fossemos reatar, mas como ele não me deu bola, voltei para casa me sentindo péssima. Em plena madrugada, comi tudo o que vi na geladeira, sem distinção. Nem me dei ao trabalho de esquentar a comida, pois a ansiedade era tanta, que eu não agüentei esperar os dois minutos do microondas. Nem senti o gosto da comida”, relata Cristina.

De acordo com a psicoterapeuta Vera Soumar, este tipo de comportamento é uma expressão de um descontentamento maior. “O alimento aplaca uma carência afetiva. Ela deve se perguntar por que está colocando tanta coisa dentro dela. O que falta? Ela nem se dá o direito de ter prazer através do alimento, ou de fazer a escolha do que comer. E ainda se agride, pois comer em excesso pode causar mal-estar”, analisa Vera.

Para o psiquiatra Paulo Quinet, a questão cultural também colabora na compreensão da incidência da compulsão alimentar. “As mulheres são muito cobradas em relação a seus corpos. Tanto que também podem se tornar compulsivas por exercícios físicos e dietas também, sofrendo transtornos alimentares. Já nos homens, estas manifestações são menos freqüentes”, explica Quinet. No entanto, o estudante de engenharia Roberto Paschoalin, 23 anos, com um corpo de fazer inveja a muito homem, é um malhador compulsivo. "Malho todo dia, há nove anos, inclusive aos finais de semana. Sinto-me muito bem depois de fazer exercícios. Quando não posso ir, fico extremamente irritado", relata o estudante, que só deixa de ir à academia quando está doente. “Se não posso malhar por algum motivo, me sinto péssimo. Gordo na barriga e magro nos braços”, descreve Roberto, que admite ser viciado em exercícios físicos. “É um bom vício, não me atrapalha”, acredita. Quem parece não concordar é sua namorada, Beatriz Araújo. “Acho saudável, mas excessivo. Apesar de dizer que está forte, ele não escuta. Ele sabe que acho feio homens musculosos demais, só que continua tomando suplementos e pegando peso”, diz.

Lidando com a compulsão

Apesar da compulsão ser caracterizada pela repetição, episódios de compulsão, ou mesmo sua ocorrência esporádica podem estar relacionados a outro tipo de transtorno. “É o que acontece quando estamos deprimidas, ou durante a TPM, sem que isso caracterize um quadro de transtorno obsessivo-compulsivo”, exemplifica a psicoterapeuta Priscila Gaspar. E já que para algumas a TPM faz questão de dar o ar da desgraça mensalmente, a melhor saída é aliar-se a ela. “Aproveite a ansiedade e direcione-a a alguma atividade positiva, como a ginástica, o trabalho ou a leitura”, recomenda Vera Soumar. Algumas horas de malhação lhe farão um bem que nenhum pote de sorvete é capaz de proporcionar.

Mas cuidado com os excessos! Sem controle, até um hábito saudável como exercitar-se pode ser prejudicial. “É a mesma coisa com os workaholics. Trabalhar é ótimo e faz bem. Por isso mesmo é uma das compulsões mais difíceis de se livrar. Sendo elogiado pelo bom trabalho, ou pelo corpo escultural, fica mais complicado de se perceber o excesso”, explica Paulo Quinet. O ideal grego já previa: o equilíbrio é a melhor forma de lidar com as coisas.


Laura Cavallieri   Leia mais deste autor.





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