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Coluna dos namorados
Junho. O assunto não podia ser outro: namorados, amor, paixão...
Por Rosana Caiado • 02/06/2008

Dez metros à esquerda do meu prédio, há uma escola. Dez passos à direita, um curso pré-vestibular. Significa que, para um lado ou para o outro, é impossível chegar até a esquina sem esbarrar em dois ou três adolescentes.

Em regra, eles têm espinhas, carregam mochilas e se aglomeram em círculos, compostos por alguns meninos e apenas uma ou, preferencialmente, duas meninas, que falam alto e gesticulam. Frisson.

Adolescentes odeiam. Odeiam a menina que comprou vestido igual. Odeiam o garoto que chegou na frente. E adolescentes amam, amam despudoradamente

A poucos gelos baianos das rodas de adolescentes, outros se encaixam em dupla. Nos primeiros dias de junho, quando o inverno parece atropelar o outono, os namoradinhos são os meus protagonistas.

Namorados, por definição, esquecem-se do resto do mundo. Em Botafogo, mesmo com o buzinaço, a massa apressada e as britadeiras famintas, os namoradinhos não estão nem aí: trocam olhares, beijam-se, fazem cócegas, beijam-se, roçam seus corpos magros, beijam-se e não consigo parar de observá-los de canto de olho.

Usam calça jeans, tênis e gírias. As meninas, brincão. Os meninos, moletom. Dividem um rissole de presunto com catupiry. Eu como o meu, sozinha. Eles, eles juram e beijam, beijam-se, beijam os dedos em cruz e a ponta do nariz. O primeiro amor, tão ingênuo quanto arrebatador, é o mais convincente (entre todos os que ainda virão) de que vai durar para sempre.

Adolescentes odeiam. Odeiam a menina que comprou vestido igual. Odeiam o garoto que chegou na frente. E adolescentes amam, amam despudoradamente. Além dos exageros típicos da idade, adolescente não tem medo de ser descoberto pelo pai, não tem medo de acidente de carro, de repetir o ano, de fazer tatuagem, de furar a língua, de pular de bung jump, nem de outras situações de alto risco, como se apaixonar. Eles simplesmente sucumbem e passam a língua entre os lábios do outro, dentro da orelha do outro, mordem o pescoço, ficam ofegantes ali na frente de todo mundo, na rua, na minha frente e é tão bom. Não sabem que, pelo resto da vida, vão querer repetir o que vivem agora: esse amor dos 16 anos - fogo e entrega. É quase como um desejo de ser jovem para sempre.

Se ainda não disse, é melhor dizer agora: a paixão acaba. Neste dia, dói e provoca sensação iminente de morte. A parte boa é que, antes de morrer, a paixão não dói: arde.

Como os adolescentes, não tenho medo. Escolho o esmalte com que pinto as unhas dos pés não pela cor mas pelo nome: semana sim, semana também, peço à manicure, como quem reza para um santo milagreiro, o esmalte chamado "Paixão". Para variar, "Carinho", "Fetiche", ou "Volúpia". Mais adiante, gostaria de passar o "Amor" ou então o "Love". Aliás, se pudesse, moraria em Amor, uma cidade que fica lá em Portugal.

Toda sexta deveria ser Sexta-feira da Paixão. Todas as frutas, como o maracujá, deveriam ser frutas da paixão - exceto as maçãs, que deveriam ser todas do amor. E todos os amores, perfeitos. E, mesmo depois dos 30, 40 60, todos os namoros deveriam ser de adolescentes, como os da minha esquina.



Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.





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