Quando entrei na faculdade, olhava a todos a minha volta como se orelhas de burro fosse encontrar - era assim que via minha própria imagem no espelho por não ter eu conseguido ingresso para a federal. No primeiro dia de aula, me espantei com o formigueiro loiro esbarrando bochechas entre os pilotis da PUC: muito iogurte e leite ninho, só dava bolsa Victor Hugo, enquanto eu carregava nas costas a mesma mochila jeans com bolso de camurça marrom da oitava série. Tinham carro - eu, não. Moravam em Ipanema, no Leblon, na Gávea. Eu, tijucana. Quando descobriam, arregalavam os olhos, como se tivessem ouvido um palavrão.
Até que um dia, no ponto de ônibus, vi uma garota, a primeira, com quem quis fazer amizade. Na hora, não percebi, mas hoje sei que ela chegou a esconder-se atrás de árvores e fechou a cortina dos cabelos pretos para encobrir o rosto, no firme propósito de evitar uma aproximação. Suas tentativas teriam dado certo se não tivéssemos entrado no mesmo ônibus, sentido Zona Norte.
A garota colocou em seu colo uma pasta de plástico transparente onde havia guardado a primeira redação do curso, espécie de "minhas férias", misturada com "quem sou eu". Sentei ao lado dela, estiquei os olhos e, como não consegui ler nenhuma linha, pedi para ler seu texto. Ela não queria, mas, sem jeito, sem outro jeito, deixou.
Dessa redação, não me lembro de nada além da primeira frase, que dizia assim:
"Moro no Flamengo, mas torço pelo Fluminense"
Gostei da frase, do jogo de palavras, gostei da menina, gostei de ela ser tricolor, embora eu seja rubro-negra, até que me dei conta de que perderia a companhia, visto que ela teria pego o ônibus errado.
- Não, eu moro no Grajaú - ela disse.
Ri. Na redação de apresentação, a primeira da faculdade, na primeira linha, ela havia escrito uma mentira.
- Mas pro Fluminense você torce, né?
- Detesto futebol. Em dia de Copa do Mundo, vou ao cinema.
Demorei duas perguntas para identificar que ela fazia ficção. Se aproveitou de um Fla x Flu, escolheu morar no Flamengo - bairro pelo qual guardo imenso carinho -, e se disse tricolor - como minha mãe. Em sete palavras, já sabia que de burra ela não tinha nada e, depois dela, parei de olhar os meus colegas como se eles todos o fossem (na verdade, só meia dúzia tentou, não sem afinco, provar minha tese inicial ao longo dos quatro anos de Comunicação).
Doze anos depois, a frase - a do Fluminense - voltou aos meus pensamentos com a força de um martelo. Estava doida para escrevê-la, ou repeti-la na mesa do bar fingindo ser de minha autoria. Assim teria feito, não fosse um detalhe: não moro no Flamengo, muito menos torço pelo Fluminense.
Desde sexta-feira, moro em Botafogo - com o perdão da palavra, a Tijuca da Zona Sul. Como a Tijuca, Botafogo se mostra boa anfitriã: me oferece pão fresco de manhã, várias opções de almoço, jantar e drinks. Botafogo me chama para ir ao cinema, me leva ao shopping para ver vitrine, Botafogo me tira para dançar. Botafogo me aponta lojas de 1,99, chaveiros, jornaleiros, remédios para as minhas dores, material de construção, mercado, papel e caneta. É só sentar perto da janela e escrever - o que faço agora - sob o olhos e braços do Cristo Redentor.
Botafogo é feio, mas, como os feios, esforça-se para ser simpático. Resultado: dou a maior bola para Botafogo e é possível que, mais adiante, lhe peça a mão.
O problema de Botafogo não é Botafogo, mas as pessoas que passam por aqui, que são muitas e têm pressa, visto que apertam a buzina por mais de três segundos quando ainda não bateu sete da manhã. O problema de Botafogo é o buzinaço.
Pior do que as buzinas são as britadeiras que insistem em furar o asfalto da rua principal em qualquer época do ano, em algum quarteirão, atualmente no vizinho ao meu. Se não fossem as buzinas e as britadeiras, isso aqui seria bom demais - até o bem-te-vi, aquele, veio para cá, de certo, atrás de mim e cantou quando saí do chuveiro. Nesse caso, não só ele, mas todos os vizinhos que me vigiam a todo momento bem me viram. Até gosto: não estou só, não se pode estar só em Botafogo.
Termino a redação com uma corruptela da frase que nunca me saiu da cabeça, assim como a nossa amizade, que nunca me faltou. Torço pelo Flamengo, mas moro em Botafogo. E digo mais: por esses primeiros dias de namoro, é capaz que eu vire a casaca.
Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.




