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Há cerca de um mês, virei professora particular de informática da minha mãe. Isso porque, aos 75 anos, ela resolveu comprar seu primeiro computador. Na aula inaugural, eu é que tinha dúvida: por onde começo? Tudo o que ela sabia era ligar e desligar a máquina. Parece pouco, mas não: que outro aparelho eletrônico requer três botões só para ligar? Uma vez funcionando, o computador da minha mãe vira videogame. Só que caminhar em linha reta do "Iniciar" para "Todos os Programas", depois até "Jogos" e enfim clicar em "Freecell", isso tudo manuseando esse objeto de design diferenciado conhecido por mouse, pode ser muito mais complicado do que mandar o Mário cabecear tijolos, pular em cogumelos e matar dragões verdes usando o joystick.
Enquanto observo minha mãe tentando entrar em acordo com o mouse, visualizo nós duas, no sofá da sala, nas aulas de tricô: ela, ágil com as agulhas; eu, sem um pingo de talento para cruzá-las - uma criança de três anos demolindo sushis. O mouse, como as agulhas e o hashi, requer prática.
Mãe, já sei qual vai ser sua primeira lição: escrever e enviar um email, digo. Ela clica em escrever mensagem, eu dito o meu endereço, ela aprende onde fica o arroba, empurra a seta até o grande retângulo onde se coloca a mensagem. Presumo que ela escreverá a palavra "teste", assim rápido, simples, só para aprender como se faz. Mas não: ela pensa, abre e fecha os lábios como quem fala consigo mesmo e começa a digitar.
Mouse em repouso, minha mãe parece secretária executiva. Digita rápido e usa todos os dedos - talvez com um pouco mais de vigor do que o necessário, como se o PC fosse uma Olivetti. Se erra uma letra, hesita entre o delete e o backspace. Ao final da frase, uma exclamação. É a melhor parte: minha mãe dá shift com o mindinho. Nessa hora em que os papéis da natureza se invertem, sinto o orgulho de uma mãe diante do filho que dá os primeiros passos, menores do que suas pernas e de certo maiores do que as minhas.
O mindinho é charme, é só o prenúncio do que aparece no monitor: uma carta de amor, em que me agradece a paciência, me chama de caçula, coloca data, assina "sua mãe". Sem abreviações ou desmazelo, sem a pressa visível dos emails que trocamos aos montes por dia, todos os dias. No primeiro email da minha mãe, ela faz poesia, me desarma, me seguro para não chorar.
Algumas aulas mais tarde, em vez de abrir uma página, minha mãe abre uma folha na internet. No orkut, só usa estilistas famosos. No gtalk, se despede com "Fui".
Até que, quando já ia passar o dever de casa - pesquisar no Google como se planta uma árvore de fruta-do-conde - , me pergunta:
- Como faço para entrar na sua folha?
Ela sabe que tenho um blog e que tenho aqui, a coluna do Bolsa. Mas nunca pensei que ela um dia chegasse a ler o que ando escrevendo internet afora - equação de segundo grau de variável xis igual ou menor que confidências ípsilon elevado a potência de insinuações vezes pi sobre a quarta parte do medo de ser mal interpretada mais a raiz da necessidade da aprovação materna.
Enrolo, digo que fica para a próxima aula, ganho tempo. Torço para que esqueça. Planejo ensinar a baixar músicas do Roberto Carlos, retocar imagens no Photoshop, fazer planilhas de compras de mercado no Excel. Mas, pensando bem, não é justo que a pessoa que me ensinou as primeiras palavras agora não possa ler estas daqui.
Senhoras e senhores, essa é a primeira coluna que minha mãe vai ler.
Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.
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