• Crédito:
Estilo de Viver
Arte vitoriana
Um passeio pelos museus de Liverpool e pela arte vitoriana
Por Emilia Ferraz • 25/07/2008

Recentemente estive na galeria Tate, de Liverpool, para ver a exposição das pinturas de Gustav Klimt e outros artistas austríacos ligados ao "Movimento da Secessão", do qual sou grande admiradora. Como já tinha visto uma ótima exposição das obras de artistas da Secessão há dois anos, saí um pouco decepcionada com o magro acervo em visita. Mas, para quem gosta e nunca viu Klimt ao vivo e em cores, certamente, é melhor do que nada!

Saindo de lá, fui conhecer a Walker Art Gallery, no outro lado da cidade, e qual não foi a minha surpresa ao me deparar com uma sala inteira dedicada à pintura vitoriana e pré-rafaelita, que pude curtir sozinha, já que os outros poucos visitantes estavam tomando chá no foyer do museu? A sala tinha várias pinturas importantes do final do século 19: "Dante e Beatriz", de Henry Holiday, "Perseu e Andromeda", de Lord Leighton, e "Eco e Narciso", de John William Waterhouse. Depois, me dei conta de que a Lady Lever Gallery, outro minimuseu com um respeitável acervo de arte vitoriana, também ficava pelas redondezas, mas já eram cinco horas da tarde e tinha que pegar o trem de volta para Londres. Terei que retornar.

Dá para imaginar, por exemplo, a reação da comportada sociedade vitoriana ao se deparar com uma pintura enorme que retrata o martírio de Santa Eulália, mostranto o corpo seminu da santa estirado numa praça romana, coberta de neve, braços abertos em forma de cruz, cabelos despenteados

Acho que a primeira vez que me deparei com pintura vitoriana, mais especificamente com o estilo pré-rafaelita, foi lá pelo final dos anos 80, vendo um romance água com açúcar, desses que passavam na "Sessão da Tarde". O filme se chamava "Brincando com Fogo" e, logo no inicio, vemos a personagem principal, à beira de um riacho, tentando se fotografar como a Ofélia, de John Everett Millais (1851). Para quem nao conhece, essa pintura, inspirada na tragédia de Hamlet, mostra Ofélia flutuando num riacho cercada de flores e plantas, momentos antes de morrer afogada. Além do contraste entre a beleza do cenário e a sensação da tragédia iminente, a pintura chama a atenção do espectador pelo seu realismo: parece que estamos mesmo diante de uma fotografia e daí a idéia da personagem do filme de reproduzi-la com sua câmera. O resto do filme eu esqueci, mas a pintura ficou na minha cabeça e, como sou curiosa, logo quis saber mais.

Nessa época, ainda não contávamos com Google, Wikipedia ou Amazon (acho que sequer tinha computador em casa), então o jeito era pesquisar na biblioteca ou comprar livros. Acabei encomendando um livro que demorou semanas para chegar sobre pintores pré-rafaelitas e, assim, pude ler sobre Millais e seus colegas, e descobrir como esse movimento influenciou outros artistas vitorianos, simbolistas e até impressionistas. Fiquei encantada e foi a partir de então que comecei a sonhar com expedições globais para ver arte vitoriana e simbolista.

As pinturas pré-rafaelitas geralmente retratam temas bíblicos, mitologicos ou foclóricos (especialmente histórias medievais). Os personagens trágicos das peças de Shakespeare, como "Ofélia" e "Mariana", são figurinhas fáceis, assim como figuras épicas da época do Rei Artur e os seus cavaleiros. A "ação" e o "drama" na tela, assim como a riqueza de detalhes, são elementos essenciais, quebrando com a tradição acadêmica das poses perfeitas, repudiadas por estes artistas por serem consideradas artificiais e bem educadas demais. Os adeptos da escola pré-rafaelita queriam provocar o espectador. Dá para imaginar, por exemplo, a reação da comportada sociedade vitoriana ao se deparar com uma pintura enorme que retrata o martírio de Santa Eulália, mostranto o corpo seminu da santa estirado numa praça romana, coberta de neve, braços abertos em forma de cruz, cabelos despenteados (Santa Eulália - John William Waterhouse, 1885)?

Nem tudo na arte pré-rafaelita é de bom gosto, algumas pinturas são tão exageradas e rebuscadas que agridem ao espectador. Há obras de Millais e de Dante Gabriel Rossetti que beiram o cafona. Mas, de qualquer modo, elas oferecem a oportunidade de nos imaginarmos num universo fantástico e, ao mesmo tempo, "real", com seus personagens nos saltando aos olhos como se fossem de carne e osso.

Confiram nas salas 14 e 15 da Tate Britain, em Londres.



Emilia Ferraz é advogada e mora em Londres desde 1997, trabalhando para um dos maiores bancos de investimento norte-americanos. Nas horas vagas, adora passear por vários cantos do mundo e experimentar todo tipo de tira-gosto cultural, desde que bem temperado: da literatura ao teatro, da música clássica ao rock punk, da arte vitoriana ao surrealismo e da gastronomia fina ao simples arroz com feijão. Emilia mantém um diário de suas experiências no blog Monomania Diaries.  Leia mais deste autor.





bolsa de mulher no seu celular


Compartilhe: Facebook Del.icio.us LiveSpaces RSS


  
Os últimos comentários






XML Assine nosso RSS