Ao futuro morador
Carta aberta ao futuro morador do meu ex-apartamento
Por Rosana Caiado • 08/04/2008
Ontem foi o Dia da Mudança. Hoje volto ao apartamento, que está vazio. Vazio. A desculpa para voltar aqui é pegar três sacolas de objetos pessoais, que achei por bem não despachar na mudança. Seguro as sacolas e fico de pé - não há onde sentar. No meio da sala, olho para a varanda, olho para o teto, olho para o chão, olho para as paredes, olho para mim. O apartamento está sujo, como se aqui morasse uma pessoa sem nenhum asseio. É ingenuidade pensar que mudar não levanta poeira.
Procuro os vinte centímetros quadrados mais limpinhos do chão da minha ex-sala, onde me sento e começo a escrever o que já venho pensando há dias: uma carta ao próximo morador do meu apartamento.
(Isso tinha que ser praxe: antes de ir embora, o ex-morador deixa uma carta na caixa de correspondência para o morador seguinte. O conteúdo da carta é livre. Por exemplo, o ex pode indicar ao novato a melhor pizzaria do bairro. Ou a farmácia que entrega mais rápido. Pode dar a ficha completa dos vizinhos - quem ouve música alta, quem bate porta, quem deixa o carrinho de mercado no meio do corredor. Pode falar sobre os porteiros - quem resolve e quem aborrece. Pode até dar dicas de decoração: no meu ex-banheiro, há um encanamento aparente, que escondi com um espelho de "moldura caixa" - é só perguntar na vidraçaria que eles sabem o que é. E, principalmente, o ex-morador deve deixar para o próximo, como herança, seus ímãs de geladeira)
Caro futuro morador do meu ex-apartamento,
Quando entrei aqui pela primeira vez, eu e o corretor, se não me engano, em uma quinta-feira de manhã nublada no final de um setembro, logo na sala veio a sensação do "é esse". É de supetão que me apaixono: encantamento e planos para o futuro. No dia seguinte, formalizamos.
Na primeira semana, não tinha intimidade com o apartamento. Não sabia onde ficavam os interruptores de luz e tomava seguidos sustos ao ver meu próprio reflexo no espelho da porta do banheiro, como se a pessoa refletida - a menina no espelho - fosse um invasor ou até um fantasma.
Éramos desconhecidos - o apartamento e eu. Eu, totalmente conquistada. O apartamento teve o tempo dele e acabou me acolhendo. Em poucos dias, pegou o meu cheiro para si.
Apago.
Ao próximo morador do 808.
Não sei se a imobiliária contou, mas quando se vem morar aqui, ganha-se a Lagoa de presente, o pedaço mais bonito do Rio. Sim, a partir de hoje ela passa a ser um pouco sua - o que também significa que ela deixa de ser minha.
Você acaba de ganhar, também, uma família de micos, de rabos mais compridos do que o corpo inteiro. Eles fazem barulho de "i", logo cedo pela manhã. Também é seu o bem-te-vi, que cantará sempre que você sair do banho. E é o mais novo colecionador de insetos inéditos, pretos, verdes, azuis, vermelhos, da cabeça roxa, das antenas prateadas. Eles entram sem pedir licença e por isso aconselho que você feche a varanda quando escurecer - eu fechava.
Apago.
Futuro morador,
Aqui morou uma mulher de 27, uma de 28, uma de 29 e uma de 30 anos, todas de 1,72 m de altura e cabelo respectivamente castanho, ruivo, preto e loiro.
Apago.
Aqui morou também Beto, o peixe Beta, que foi acidentalmente assassinado por mim.
Choro.
Caro morador,
Espero que você seja muito feliz nesse apartamento. Te garanto que fui, apesar de tudo. Cuidei desse apartamento como se fosse meu. Acariciei suas paredes, enfeitei suas janelas e finquei minhas raízes entre uma tábua e outra.
Desejo sorte na nova morada. Desejo que faça mais festas do que fiz, que convide mais seus amigos e sua família para almoços de domingo ou um suco de melancia depois de caminhar na Lagoa. Desejo que você receba crianças, se possível, bebês no apartamento - durante a minha estada, não apareceu nenhum. Que você aproveite a piscina, onde nunca fui. Jogue mais totó. E que você consiga colocar seu carro na vaga com mais facilidade que eu - antecipo que tem que ser de ré.
Apago.
Caro morador do 808,
Seja bem-vindo.
Rosana
Pego duas das três sacolas de objetos pessoais, recolho os imãs de geladeira e fecho a porta.
Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.
Procuro os vinte centímetros quadrados mais limpinhos do chão da minha ex-sala, onde me sento e começo a escrever o que já venho pensando há dias: uma carta ao próximo morador do meu apartamento.
(Isso tinha que ser praxe: antes de ir embora, o ex-morador deixa uma carta na caixa de correspondência para o morador seguinte. O conteúdo da carta é livre. Por exemplo, o ex pode indicar ao novato a melhor pizzaria do bairro. Ou a farmácia que entrega mais rápido. Pode dar a ficha completa dos vizinhos - quem ouve música alta, quem bate porta, quem deixa o carrinho de mercado no meio do corredor. Pode falar sobre os porteiros - quem resolve e quem aborrece. Pode até dar dicas de decoração: no meu ex-banheiro, há um encanamento aparente, que escondi com um espelho de "moldura caixa" - é só perguntar na vidraçaria que eles sabem o que é. E, principalmente, o ex-morador deve deixar para o próximo, como herança, seus ímãs de geladeira)
Caro futuro morador do meu ex-apartamento,
Quando entrei aqui pela primeira vez, eu e o corretor, se não me engano, em uma quinta-feira de manhã nublada no final de um setembro, logo na sala veio a sensação do "é esse". É de supetão que me apaixono: encantamento e planos para o futuro. No dia seguinte, formalizamos.
Na primeira semana, não tinha intimidade com o apartamento. Não sabia onde ficavam os interruptores de luz e tomava seguidos sustos ao ver meu próprio reflexo no espelho da porta do banheiro, como se a pessoa refletida - a menina no espelho - fosse um invasor ou até um fantasma.
Éramos desconhecidos - o apartamento e eu. Eu, totalmente conquistada. O apartamento teve o tempo dele e acabou me acolhendo. Em poucos dias, pegou o meu cheiro para si.
Apago.
Ao próximo morador do 808.
Não sei se a imobiliária contou, mas quando se vem morar aqui, ganha-se a Lagoa de presente, o pedaço mais bonito do Rio. Sim, a partir de hoje ela passa a ser um pouco sua - o que também significa que ela deixa de ser minha.
Você acaba de ganhar, também, uma família de micos, de rabos mais compridos do que o corpo inteiro. Eles fazem barulho de "i", logo cedo pela manhã. Também é seu o bem-te-vi, que cantará sempre que você sair do banho. E é o mais novo colecionador de insetos inéditos, pretos, verdes, azuis, vermelhos, da cabeça roxa, das antenas prateadas. Eles entram sem pedir licença e por isso aconselho que você feche a varanda quando escurecer - eu fechava.
Apago.
Futuro morador,
Aqui morou uma mulher de 27, uma de 28, uma de 29 e uma de 30 anos, todas de 1,72 m de altura e cabelo respectivamente castanho, ruivo, preto e loiro.
Apago.
Aqui morou também Beto, o peixe Beta, que foi acidentalmente assassinado por mim.
Choro.
Caro morador,
Espero que você seja muito feliz nesse apartamento. Te garanto que fui, apesar de tudo. Cuidei desse apartamento como se fosse meu. Acariciei suas paredes, enfeitei suas janelas e finquei minhas raízes entre uma tábua e outra.
Desejo sorte na nova morada. Desejo que faça mais festas do que fiz, que convide mais seus amigos e sua família para almoços de domingo ou um suco de melancia depois de caminhar na Lagoa. Desejo que você receba crianças, se possível, bebês no apartamento - durante a minha estada, não apareceu nenhum. Que você aproveite a piscina, onde nunca fui. Jogue mais totó. E que você consiga colocar seu carro na vaga com mais facilidade que eu - antecipo que tem que ser de ré.
Apago.
Caro morador do 808,
Seja bem-vindo.
Rosana
Pego duas das três sacolas de objetos pessoais, recolho os imãs de geladeira e fecho a porta.
Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.
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